Morre William Orbit, produtor de Ray of Light que redefiniu a dimensão espiritual da música pop

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Foto: Courtesy Rephlektor

Morreu, aos 69 anos, William Orbit, produtor e compositor britânico. Nascido em Londres, Orbit foi uma das figuras centrais da revolução musical e tecnológica do final do século 20. Antes de a música eletrônica se tornar a linguagem universal da indústria pop, ele já transitava entre o ambient, o techno, o trance, o house e as experiências de estúdio que transformavam máquinas em instrumentos de uma sensibilidade espiritual. Seu trabalho não consistia simplesmente em colocar batidas eletrônicas sobre canções. Orbit queria alterar a própria atmosfera em que uma canção existia.

Foi assim com Madonna.

Em 1998, quando a cantora decidiu atravessar uma das maiores reinvenções de sua carreira, encontrou em William Orbit o mago capaz de transformar sua nova jornada espiritual em matéria sonora. Ray of Light não foi apenas um disco eletrônico feito por uma estrela pop. Foi uma espécie de laboratório espiritual em que sintetizadores, guitarras, vozes, samplers e referências orientais pareciam procurar uma mesma coisa: a possibilidade de dar um novo retrato sonoro de uma dimensão espiritual de um artista do mainstream.

O disco nasceu de uma Madonna que havia entrado em outra fase da própria existência, marcada pela maternidade, a Cabala, o hinduísmo e o budismo. A música brasileira também foi um dos elementos daquele laboratório. A bossa nova e, particularmente, a delicadeza de Astrud Gilberto inspiraram Orbit e Madonna em “To Have and Not to Hold”. O resultado foi extraordinário: o álbum vendeu mais de 16 milhões de cópias em todo o mundo e se tornou uma das obras fundamentais da transformação da música pop no fim dos anos 1990.

E houve reconhecimento institucional. Ray of Light recebeu seis indicações ao Grammy em 1999, incluindo Álbum do Ano e Gravação do Ano. Madonna e Orbit venceram Melhor Álbum Pop Vocal e Melhor Gravação Dance por “Ray of Light”. Posteriormente, Orbit ainda venceria com a diva do pop o Grammy de Melhor Canção Escrita para Mídia Visual por “Beautiful Stranger”, em 2000.

Ray of Light revelou ao grande público uma dimensão espiritual e introspectiva de uma das maiores divas da cultura pop, estabelecendo uma gramática estética que continuaria atravessando fronteiras, inclusive no Brasil, onde sua influência pode ser percebida nas experimentações eletrônicas de artistas como Daniela Mercury e, mais recentemente, foi evocada por críticos ao analisarem a transformação estética de Anitta em Equilibrium.

Mas seria injusto reduzir William Orbit à sua parceria com Madonna. Ele também deixou sua marca em trabalhos de Blur, All Saints, U2, Britney Spears, Pink e tantos outros artistas. Seu talento estava menos na demonstração de força tecnológica e mais na capacidade de revelar novas possibilidades de representação sonora. Ele construía atmosferas.

Talvez seja justamente por isso que sua obra permaneça tão singular: ao deslocar a música eletrônica de sua associação quase automática com o hedonismo, ela revela sua potência como linguagem capaz de transformar a pista de dança em um templo espiritual. William Orbit entendia a música eletrônica como matéria espiritual. E, ao encontrar Madonna no momento exato de sua própria metamorfose, ajudou a transformar essa intuição em uma das obras mais importantes da música popular do final do século 20.

Por Hyá Pires

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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