“Almerinda é alguém que nunca aceitou um lugar menor do que seu tamanho” , diz biógrafa de sufragista alagoana

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Uma das novidades da Feira Literária de Paracatu (MG), a Fliparacatu, foi a apresentação do livro biográfico Almerinda Gama: A sufragista negra, da pesquisadora e jornalista Cibele Tenório.

Saiba mais sobre o livro aqui

A obra, fruto da dissertação de mestrado da autora, foi a vencedora do prêmio de não-ficção da editora Todavia. Almerinda Gama, segundo a escritora, em entrevista à Agência Ceub, foi uma personagem pouco conhecida na luta pelo direito do voto feminino no Brasil. 

Capa do livro Almerinda Gama: A sufragista negra 

Inspiração

Segundo Cibele Tenório, o livro nasceu da vontade de levar a história de uma mulher esquecida ao grande público.

Eu achei que o que eu tinha encontrado era um material muito legal sobre a Almerinda e eu entendi que tinha que virar um livro.

Cibele diz que a ideia de escrever sobre Almerinda surgiu ao encontrar uma foto dela votando no acervo do Centro de Pesquisa e Documentação da História do Brasil (CPDOC), onde notou que a líder feminista, Almerinda, era alagoana e jornalista como ela.

Nesse acervo, que guarda alguns documentos e depoimentos de pessoas que tiveram alguma importância na história do Brasil, procurei por um recorte primeiro de gênero e depois por ordem alfabética,e uma das primeiras que apareceu para mim foi a Almerinda Farias Gama.  Lá dizia que Almerinda era alagoana, nascida em Maceió, onde eu nasci, que ela era jornalista, como eu.

Almerinda Gama votando / Imagem retirada da internet

O processo de criação 

Depois de defender a dissertação de mestrado em História pela Universidade de Brasília (UnB), Cibele Tenório sentiu que a trajetória de Almerinda Farias Gama não poderia continuar confinada aos muros da universidade. 

Era preciso fazer com que a história ecoasse para além do meio acadêmico, em escolas, bibliotecas, clubes de leitura, nas mãos de mulheres negras, professoras, ativistas e jornalistas.

Eu achei que o material que eu tinha levantado, era um material que tinha uma relevância e que aquela história merecia sair da universidade

O processo de transformação da dissertação em um livro, envolveu a retirada de partes teóricas e de metodologia acadêmica, algo que ajudou a transformar o artigo em uma biografia histórica e jornalística – acessível a um público geral.

A pesquisa começou com pouquíssimas informações sobre Almerinda, mas a autora conseguiu reconstituir a história como uma espécie de “quebra-cabeças de fontes”, onde ela aos poucos descobriu e juntou vários fragmentos da história.

Os direitos nos anos 30

“Esse direito ao voto não foi dado de forma generosa pelos homens no poder, foi fruto de muita energia política, organização coletiva e resistência. E Almerinda estava lá, na linha de frente, apesar de hoje quase ninguém saber disso.”

Cibele destacou que direitos como o voto feminino, o 13º salário ou o direito às férias não foram “concessões” benevolentes dos governantes, mas frutos de décadas de mobilização popular, sobretudo por parte de trabalhadores, mulheres e da população negra. 

Almerinda foi uma dessas vozes organizadas

Datilógrafa, fluente em francês, atenta à vida política desde cedo, fundou o sindicato das datilógrafas, candidatou-se à deputada federal em 1934 e escreveu para jornais desde a adolescência, abordando temas como desigualdade de gênero e direitos sociais.

Ela nunca aceitou um lugar menor do que o seu tamanho. Sabia quem era e se recusava a se apequenar diante das expectativas impostas às mulheres negras”, ressalta Cibele.

Além da atuação coletiva, Almerinda também acreditava na importância dos sonhos pessoais. Um exemplo disso foi a publicação independente do seu livro de poemas, Zumbi, em 1942, após anos de tentativas frustradas. 

“Ela nos ensina a não desistir nem dos nossos sonhos nem das nossas lutas”

Silenciamento de Almerinda 

“Almerinda foi silenciada. E a razão é o racismo.”

Para a escritora Cibele Tenório, o apagamento da trajetória de Almerinda Gama está diretamente ligado ao racismo estrutural que permeia a sociedade brasileira, uma estrutura que combina gênero, raça e classe social para manter certos grupos invisíveis. 

Não tem como florear: o racismo é o motivo principal. Ele se manifesta de várias formas, mas o resultado é sempre o mesmo: colocar mulheres negras na base da pirâmide social e invisibilizar suas contribuições.

Almerinda não só foi silenciada por ser mulher, mas também por ser negra e pobre. Essa combinação de fatores dificulta ainda mais o registro e valorização da história.

É racismo”

O racismo atua em camadas: raça, gênero e classe social. Almerinda era mulher, o que já significa esquecimento na historiografia brasileira, que é masculina. Era pobre, trabalhadora, viúva, sem tempo sequer para registrar a própria história. E era negra.”

Embora tenha vivido até 1989  “apenas 40 anos atrás”, como lembra Cibele, Almerinda permanece quase invisível nas narrativas oficiais. Mesmo presente em fotos ao lado de grandes nomes do feminismo brasileiro, como Bertha Lutz, seu nome é raramente citado.

 “As pessoas nem perguntavam quem era ela. Talvez achassem que era só uma assistente, porque era negra”, pontua.

Devolver a voz a quem a perdeu 

Cibele defende que resgatar histórias como a de Almerinda é essencial para “repovoar o imaginário” e construir uma contra-história que revele a participação ativa de mulheres negras nas conquistas sociais do país.

Ela enfatiza que o reconhecimento não deve ser visto apenas como reparação histórica, mas como aprendizado:

 “Não se trata só de dar reconhecimento como reparação histórica, mas de aprender com essas mulheres. Elas nos deram ferramentas para entender e transformar o presente.”

A autora reitera que o silenciamento de Almerinda e de tantas outras figuras semelhantes é resultado do racismo enraizado na sociedade brasileira, que se manifesta em múltiplas camadas de gênero, raça e classe.

A história “oficial” é masculina e branca, e Almerinda, como mulher trabalhadora, pobre e negra, não teve tempo para registrar a própria história e foi marginalizada na memória.

Contra-história

O livro escrito por Cibele se propõe a ser uma “contra-história“, opondo-se à historiografia oficial que ignora mulheres e atribui conquistas a figuras masculinas. A proposta vai além de contar a vida de Almerinda: é um ato político de reparação social, que visa reconstruir o imaginário nacional com outras referências.

“Eu acredito que cada um pode e deve fazer essa justiça histórica. Cada um pode combater o racismo histórico.”

Cibele afirma que para evitar que nomes como o de Almerinda se percam, a sociedade deve se engajar em ações de reparação histórica e de nomeação em diversos âmbitos como jornalistas contando outras histórias, professores incluindo essas figuras em planos de aula, pais escolhendo livros infantis diversos, entre outras diversas maneiras de trazer a voz dessas pessoas a tona.

Censura

Ao escrever sobre Almerinda Farias Gama, Cibele Tenório viveu uma transformação que foi além do campo acadêmico. A experiência impactou na trajetória profissional e pessoal da historiadora.

“…de alguma maneira ela me conectou com um lado profissional que tava meio que adormecido”

Seu projeto surgiu em meio a um período difícil, durante o qual Cibele afirma ter sofrido censura e perseguição na EBC durante o governo Bolsonaro, conectando-a a um lado profissional que ela diz estar adormecida na época.

“A gente foi censurado, perseguido de alguma maneira, nós vivemos sem os horrores da ditadura militar no país, mas foi sim um tipo de censura. Tiveram temas que foram proibidos e tudo mais. Então foi um período profissionalmente muito ruim para mim.”

Pessoalmente, Almerinda a inspirou por ser uma mulher comum, com um grande desejo de mudar as coisas e de ter tido coragem de se colocar no mundo.

Eu sou uma mulher contando a história de uma outra mulher, o que é muito legal.”

Foto da Cibele Tenório/ Imagem retirada da internet

Reconhecimento

A autora conta que se não fosse o prêmio da editora Todavia, ela ainda teria muitas dificuldades para conseguir que o livro fosse publicado.

“Teria sido quase que impossível eu conseguir colocar esse livro na rua ou teria talvez lançado o livro de maneira independente, num trabalho muito mais difícil de conseguir levar o livro para as livrarias.”

Ela expressa o seu desejo de que o livro fosse distribuído para todo o Brasil para que mais pessoas vissem e quisessem lê-lo.

“Eu gostaria mesmo era que uma editora tivesse o livro para que ele tivesse uma distribuição por todo o país. Que alguém tivesse numa livraria e cruzasse com aquela capa e falasse assim: ‘Ué, que história é essa aqui’ sentisse vontade de comprar e ler a história conhecendo a mulher incrível da capa.”

Próximos eventos

Com publicação pela editora Todavia em junho de 2025, a autora tem divulgado o livro em diversos eventos literários, como a Flip Paracatu e a Bienal do Livro de Maceió, onde levará a história de Almerinda de volta à terra natal. 

Seu desejo é que além das diversas personalidades que são símbolos de Maceió, a capital também seja reconhecida como “terra de Almerinda“.

Leia mais sobre Almerinda Gama

Por Maria Eduarda Barros, Maria Paula Valtudes e Riânia Melo

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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