Namorados: Geração Z não se apaixona? Relações digitais explicam, diz especialista

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Em clima de Dia dos Namorados, a geração mais conectada da história enfrenta um embate: nunca foi tão fácil conversar com alguém, porém nunca tão difícil realmente se apaixonar. O quão superficial passou a ser um relacionamento por consequência das redes sociais? Especialistas entendem que a resposta pode estar relacionada ao contexto social.

“Os Amantes”, do pintor surrealista belga René Magritte. Foto: Creative Commons

Boa parte dos flertes da atual geração acontecem por meio de redes sociais. Curtidas nos stories viraram sinônimo de demonstração de interesse, foguinhos substituíram o “oi” e o “ghosting” (o silêncio) se tornou a forma mais comum de rejeição.

De acordo com a psicoterapeuta cognitivo-comportamental Priscila Moni, os pacientes jovens falam sobre inseguranças e exaustão emocional nos relacionamentos. E também fala sobre a sensação frequente de que as relações ficaram descartáveis e mais difíceis de serem interpretadas pelas duas partes. 

Solidão

De acordo com uma pesquisa realizada pela McCann Truth Central em 2024, 82% dos jovens brasileiros se sentem solitários mesmo estando perto de familiares e amigos, sendo o Brasil, o país com o maior índice entre todos pesquisados. A geração mais conectada é, simultaneamente, a mais solitária.

A superficialidade não é só uma impressão.

Artur, de 18 anos, estudante de relações internacionais, observa um efeito silencioso como consequência desse cenário.

“Muitas pessoas se especializaram no flerte online e acabam desaprendendo a ter interações românticas fora desse ambiente. Não é incomum casais não terem mais o que conversar no primeiro encontro.”

A tela criou uma zona de conforto da qual muitos não conseguem mais sair.

Beatriz Godoy, de 19 anos, resume o que parece ser o sentimento dominante entre a geração: “Hoje em dia as coisas são muito imediatas. As pessoas tomam decisões rápidas e impulsivas, deixando as relações cada vez mais rasas e voláteis.”

Relações sem rótulos

As famosas “situationships” são aqueles relacionamentos sem rótulo. Existe intimidade, constância, carinho, porém nenhum assume nada. Não é amizade, nem namoro, e ninguém tem coragem de perguntar o que é.

De acordo com a psicoterapeuta Pricila Moni, esse tipo de situação pode vir não do medo do compromisso, mas de que a geração Z cresceu vendo relações mais instáveis, acompanhando termos em tempo real pelas redes sociais e vivendo em uma cultura que valoriza muito a liberdade individual.

A superficialidade relatada por diversos jovens é muitas vezes o que causa essa situação.. A geração enfrenta uma grande dificuldade de comunicação dentro de relacionamentos.

A cultura pop representa muito bem esse cenário através do livro/série “Normal People”, da escritora irlandesa Sally Rooney. A trama se desenvolve em volta de dois jovens que se amam mas são incapazes de dizer isso um ao outro.

A comunicação falha, o silêncio é constante e mais alto, e a relação se mantém em um limbo que hoje chamamos de “situationship”. 

Pandemia 

Os jovens passaram por um evento de quarentena que modificou a maneira de comunicação das pessoas.

“A pandemia interrompeu experiências importantes de socialização justamente em fases da vida em que muitos estavam aprendendo a se relacionar, lidar com rejeição, construir autonomia e desenvolver intimidade”, destaca a especialista. 

Outro fator que a profissional menciona é como a imprevisibilidade e isolamento do período resultou em índices maiores de de ansiedade.

“Às vezes brinco que muitos aprenderam a manter o Wi-Fi ligado o tempo todo, mas tiveram menos oportunidades de treinar a conexão emocional offline”, destaca a psicóloga.

Habilidades adiadas

A terapeuta também enfatiza que as habilidades foram adiadas durante esse período, vínculo, intimidade e tolerância a ser vulnerável são competências que podem ser aprendidas e fortalecidas ao longo da vida. 

Amar fora das redes

Apesar do cenário atual, ainda há um saudosismo pela conexão presencial. “A geração atual se contenta com tão pouco e nem faz questão de conhecer de fato os outros presencialmente. É só no encontro real que dá para entender a essência da outra pessoa”, comenta Júlia Simionatto, estudante de psicologia.

Nem todos enxergam as redes como vilãs dos romances atuais. Paulo Guerra, de 19 anos, pondera: “sempre existiram relacionamentos rasos entre as pessoas. As redes só facilitaram o encontro desses indivíduos.” 

Por Mariah Mergener e Lais Cornils

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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