Entre retalhos, máquinas e sonhos que sobreviveram, mulheres residentes em uma ocupação batizada de “Acampamento Tiradentes”, em São Sebastião, na periferia do Distrito Federal, descobriram que costurar é mais do que fazer roupas. É também reconstruir vidas, remendar feridas e desenhar juntas um horizonte onde a esperança finalmente encontra lugar para morar.
No cenário de isolamento do acampamento, 110 famílias vivem em condições de vulnerabilidade. Lá surgiu uma iniciativa que busca romper as barreiras da exclusão social e do preconceito, o projeto social “Essência Negra”.
O acampamento é situado em uma área rural, a 10 km do centro urbano. A comunidade enfrenta a baixa escolaridade, a falta de capacitação profissional e condições precárias de moradia.
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Mãos calejadas
Uma das mulheres beneficiadas pelo projeto é a coletora de recicláveis Francisca Ferreira da Silva, de 66 anos. Nascida em Lavras da Mangabeira (CE), chegou ainda criança a Brasília. Ela carrega as mãos calejadas de memória de décadas de luta. Do barraco de papelão às longas madrugadas de trabalho, ela se diz movida pela esperança de garantir dignidade à família.
Para Francisca, seu objetivo central é criar uma rede de ajuda mútua onde o compartilhamento de conhecimentos garanta o sustento de todos os envolvidos. Essa iniciativa busca transformar o talento individual em uma ferramenta de fortalecimento coletivo e sobrevivência digna.
“Vou ganhar um local para eu fazer o ateliê e vou ajudar as pessoas, as pessoas me ajudam e eu ajudo elas, costurando, fazendo o que eu sei”, diz Francisca.
Da roça
A doméstica Jeiza da Silva Santos, 43 anos, vinda da região do sul do estado da Bahia, transformou a dureza da roça e a instabilidade das ocupações urbanas em força para recomeçar, apostando no Acampamento Tiradentes como terra possível para florescer.
Ela relata sua trajetória marcada por escassez e dificuldades e diz que sua família enfrentava situações críticas, marcada por insegurança alimentar.
“Meus pais trabalhavam na roça, mas eu mesmo nunca trabalhei. Mas era um pouco bem difícil que tinha vez da gente precisar ter que comer e não ter comida na mesa.”
Dores e futuros
Outra história no local é da técnica de enfermagem Lucieni Rodrigues Conceição, de 51 anos. Nascida em Ceilândia (DF), marcada pela neurodivergência e pela violência, reinventou sua própria história para acolher outras mulheres.
Hoje, moradora do Jardim Botânico e vice-presidente da Associação Beneficente Essência, ela é ponte entre mundos, dores e futuros.

Francisca, Jeiza e Lucieni encontraram no Projeto Essência Negra a esperança de viver novas experiências
Projeto
O projeto Essência Negra é gerido pela Associação Beneficente Essência (ABE) e se apresenta não apenas como um curso de capacitação, mas como um manifesto de autonomia para mulheres negras que, historicamente, foram mantidas à margem do mercado de trabalho.
A presidente da Associação Beneficente Essência, Francely de Fátima Rocha, de 48, descreve o projeto como uma forma das mulheres negras, do Acampamento Tiradentes, encontrarem autonomia não apenas financeira, mas também emocional.
“Hoje elas se sentem abraçadas, com uma autoestima muito elevada. O projeto Essência Negra fez um trabalho maravilhoso, muito além do que imaginávamos”, diz a presidente.
Capacitação
Para enfrentar esse cenário, foi utilizada a Tecnologia Social “10Caminhos”, certificada pela Fundação Banco do Brasil, patrocinadora do projeto, essa tecnologia foca na criação de um empreendimento comercial autônomo de confecção que funcione dentro da própria comunidade.
O assessor na gerência de tecnologia social da Fundação Banco do Brasil (FBB), Willian Araujo, explica detalhadamente a respeito da tecnologia social 10Caminhos, que consiste em design, construção coletivo-participativa e economia solidária.
“Então o objetivo ali é preparar essas mulheres…para que possam alçar voos maiores através do cooperativismo, através da economia solidária e assim conseguirem avançar de patamar”, diz o assessor

Para Willian Araújo, um dos principais pontos das tecnologias sociais é a capacidade de adaptação as circunstâncias locais.
O horizonte do Projeto Essência Negra é transformar mulheres socialmente excluídas em empreendedoras empoderadas. Para alcançar essa meta, a iniciativa estruturou-se sob quatro pilares fundamentais. Inclusão Digital, Empreendedorismo Solidário, Impacto Socioeducativo e Capacitação Integral.
Além da costura
O Essência Negra vai além do corte e costura. O projeto oferece estudos dirigidos de português e matemática aplicados, além de oficinas de informática e gestão empresarial, prevê o desenvolvimento de um e-commerce e canais em redes sociais com o objetivo de que a produção da comunidade alcance clientes em qualquer lugar, e dessa forma, superar as limitações geográficas.
Outra mulher beneficiada pelo projeto é Michele Silva de Jesus, de 23. Ela enfatiza que o curso promove uma evolução significativa ao interagir com técnicas de costura, matemática e mídias digitais. Ela ressalta que, embora já tenha realizado outras formações, esta experiência específica está proporcionando um domínio tecnológico superior e novas perspectivas práticas.
“É um projeto muito bom. Pode trazer mudanças porque eu pretendo aprender mais e mexer nas redes sociais e com o curso, isso está me ensinando muito a evoluir”, diz Michele.
A assessora na Gerencia de implementação de projetos da FBB, Tatiana Gonçalves Goulart, detalhou que o suporte na refeição, transporte e o espaço dedicado ao cuidado dos filhos das beneficiadas faz a diferença.
“Esse projeto teve uma coisa bem legal também. Eles prepararam uma sala para cuidar dos filhos dessas mulheres enquanto elas estavam em sala de aula, nas capacitações”, pondera Tatiana.

A Sra. Tatiane é a responsável da FBB em assessorar a Associação Beneficente Essência na condução do projeto
Segundo a assessora, a iniciativa busca retirar essas mulheres de seus ambientes cotidianos para que possam conhecer novas realidades e lugares. Ela também prevê a construção de uma sala que abrigará os equipamentos adquiridos com recursos do edital, que permitirá que elas mesmo realizem a gestão de todo o processo, desde a capacitação até a comercialização.
Valorização individual
A professora e coordenadora do projeto, Sarah Martins, afirma que o foco é a valorização do potencial individual de mulheres através de uma formação multidisciplinar que visa a independência financeira e a fuga de condições precárias de trabalho.
Ela destaca que as alunas estão se sentindo bem acolhidas, com mais confiança e até expõem suas condições emocionais, como na dinâmica de desenharem seus sentimentos e história.

Para a Sra. Sarah, cada mulher desenvolveu um saber específico para juntas poderem operar a cooperativa com autonomia
“A gente fez festinha de Natal fez festa para o dia da mulher, trouxemos voluntários da beleza para corte de cabelo, designers de sobrancelhas. Então a gente via que elas saíam felizes, se sentiam valorizadas”, diz a professora.
Sonhos
O presidente da Cooperativa Agroecológica e sustentável – Coopermista, Antônio Carlos de Jesus, que é é organização dos moradores do Acampamento Tiradentes, de 51 anos, relatou a dura realidade das condições de vida no acampamento.
Ele acrescenta que os moradores vivem em condições insalubres, sendo as casas feitas de madeirite, além da presença de ratos, escorpiões, cobras e mosquitos.

Sr. Antônio é o líder da comunidade do Acampamento Tiradentes
“A gente quer mesmo ter essa dignidade de poder ter pelo uma casa digna para morar”, afirma Antônio.
O projeto também identifica que a dificuldade de inserção no mercado de trabalho é agravada pelo preconceito racial e pela distância dos grandes centros de consumo, o que resulta em insegurança alimentar e baixa autoestima.
O plano inclui palestras sobre letramento racial, combate à violência doméstica e segurança alimentar, visando o fortalecimento do repertório cultural e a proteção dos direitos dessas mulheres. Mas o ponto central é a criação de uma cooperativa totalmente equipada, onde as próprias mulheres gerenciam desde a produção até as estratégias de marketing e vendas.
Empatia
A vice-presidente da ABE, Lucieni Rodrigues Conceição, de 51, destaca o papel fundamental do acolhimento e da empatia entre as mulheres participantes.
Lucieni diz ter se identificado com o projeto por compartilhar vivências difíceis como a das outras mulheres, incluindo o fato de ser neurodivergente e ter enfrentado uma história familiar complexa e de privações. Lucieni atua na escuta ativa e apoio mútuo para ajudar as mulheres a lidarem com seus problemas cotidianos.
“Eu tenho a oportunidade de conversar com elas, acolher… de estar ali na vida delas, sempre presente, ajudando na maneira que a gente pode”, confessa Lucieni.
A professora da IFB, Vera Lúcia Ribeiro de Carvalho Bueno,detalhou sobre a aplicação prática dos conhecimentos de empreendedorismo e a perspectiva de continuidade do projeto através da coletividade. Vera colaborou no desenvolvimento de uma coleção de camisetas para aplicar conceitos de planejamento, precificação, embalagem e estratégias de venda no mercado.
Por João Roberto Delattre
Supervisão de Vivaldo de Sousa e Luiz Claudio Ferreira


