O documentário “Zico: o Samurai de Quintino”, que estreia nos cinemas no próximo dia 30, aposta em uma narrativa linear e convencional para contar a trajetória de Zico. Ao equilibrar momentos de consagração com episódios de frustração, o filme conduz o espectador por um caminho previsível.
Baseado principalmente em imagens de arquivo e depoimentos, o documentário mantém um ritmo fluido e de fácil acompanhamento. No entanto, essa escolha por uma estrutura clássica limita o potencial da obra.
A introdução, que revisita as origens de Zico, em Quintino Bocaiúva, na Zona Norte do Rio de Janeiro, cumpre a função de situar o espectador. O bairro é apresentado não apenas como cenário, mas como um elemento decisivo na formação de sua identidade e nos primeiros passos no futebol daquele que viria a se tornar um ídolo do Flamengo.
Abordagem
Ainda assim, o filme recorre a uma abordagem já bastante explorada em narrativas esportivas, o ambiente popular como berço do talento sem avançar sobre possíveis contradições ou tensões sociais daquele contexto.
Ao optar pelo caminho mais tradicional, o documentário abre mão de aprofundamentos e de uma linguagem que poderia torná-lo mais instigante.

Um dos acertos do documentário aparece no início, quando Zico reencontra os irmãos para revisitar memórias da infância. É nesse momento, mais íntimo, que surgem lembranças atravessadas pelo contexto do Golpe de Estado no Brasil em 1964, incluindo os relatos de perseguição à família.
A cena tem força justamente por partir da experiência pessoal, trazendo uma dimensão mais humana e menos épica da trajetória. Ainda assim, o documentário não se detém nesse ponto.
O tema aparece de forma breve e não se desdobra em uma reflexão mais ampla sobre o período, nem sobre as relações entre repressão estatal e futebol, ficando restrito a esse momento de rememoração.
Carreira
O documentário também destaca as principais conquistas de Zico, sobretudo no Flamengo, período em que o jogador atinge o auge de sua carreira. Títulos, como o da Copa Libertadores de 1981, são apresentados como marcos dessa fase e isso consolida sua imagem como um dos maiores nomes do futebol brasileiro.
Quando se volta às frustrações, o filme encontra material mais interessante. A Copa do Mundo de 1978 por exemplo, surge como um dos episódios mais controversos, com o gol anulado de Zico após o apito final do árbitro Clive Thomas, um lance que se tornou símbolo de contestação no futebol. Mesmo assim, o documentário se limita à reconstituição do fato, sem avançar em uma leitura mais crítica sobre arbitragem, contexto ou repercussões.
A Copa do Mundo de 1982 é apresentada como o auge técnico de Zico e da Seleção Brasileira comandada por Telê Santana. Com nomes como Sócrates, Falcão e Júnior, o time é retratado como a expressão máxima do chamado “futebol-arte”, reunindo talento individual e jogo coletivo em alto nível. Havia, portanto, uma forte expectativa de conquista.
Mas, a eliminação para a Seleção Italiana, por 3 a 2, ainda na segunda fase, surge no documentário como um colapso inesperado de uma equipe que até então vinha encantando o mundo com seu desempenho.
O documentário também aborda episódios polêmicos, como o confronto entre Flamengo e Atlético Mineiro na Libertadores de 1981 é lembrado pelo desfecho em W.O, após sucessivas expulsões da equipe mineira. O documentário evita explorar as disputas em torno da arbitragem e as diferentes versões do episódio, o que enfraquece uma análise mais crítica.
A narrativa ganha mais força quando aborda uma lesão sofrida por Zico, em 1985, contra o Bangu, que compromete sua condição física para a Copa do Mundo de 1986. Nesse momento, o documentário acerta ao dar espaço ao próprio jogador, que reconhece o erro de ter disputado o torneio sem estar plenamente recuperado. É nesse momento que o filme se afasta, ainda que brevemente, da exaltação e consegue humanizar o ídolo, revelando uma dimensão mais vulnerável e menos “idealizada”
Futebol japonês
O capítulo dedicado ao futebol japonês pode se um dos pontos mais interessantes do documentário. A ida de Zico para o Sumitomo Metals, equipe que daria origem ao Kashima Antlers, desloca a narrativa para um contexto ainda em construção, distante dos grandes centros do futebol mundial.
À época, a decisão foi vista com estranhamento, quase como um desvio improvável para um jogador já consagrado.
O documentário acerta ainda ao destacar as limitações estruturais e os desafios de profissionalização do futebol japonês naquele momento, criando um contraste interessante com os cenários brasileiro e europeu.
Ainda assim, trata essa passagem mais como um marco simbólico na trajetória do jogador do que como um processo histórico mais amplo. Falta aprofundar, por exemplo, de que maneira a presença de Zico contribuiu efetivamente para transformações duradouras no esporte local.
Em outra camada, os depoimentos dos filhos introduzem um contraponto sensível à narrativa. Ao relatarem as ausências frequentes do pai, especialmente durante os períodos no exterior, revelam a distância entre a figura pública e a experiência familiar.
Há um deslocamento interessante onde, o ídolo reconhecido coletivamente contrasta com uma presença intermitente no cotidiano, marcado mais pelo impacto que causava nos outros do que pela convivência direta.
De modo geral, o documentário cumpre bem o papel de resgatar a trajetória de um dos maiores nomes do futebol brasileiro. A obra sugere um esforço em não omitir episódios menos favoráveis da carreira, ao incorporar erros e frustrações. Ainda assim, esses elementos raramente são tensionados em profundidade, o que mantém o documentário mais próximo da celebração do que de uma análise crítica mais incisiva.
Por Mayara Mendes
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira


