Independência para quem? A colônia despedaçada está presente no 7 de setembro (Parte 3)

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O casal Silva se destacava na paisagem. Sentados sobre um bloco de concreto no meio do Planalto Central, a frustração por não conseguir assistir ao desfile da independência era visível.

Mesmo assim, havia uma cumplicidade e um entrelaçar assossegado entre José e Helenilda. Eles eram um par como o azul do céu e o verde da grama.

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Clique aqui e leia a Parte 2 da reportagem sobre o desfile da independência aqui

Foto: Juliana Weizel

Chegar cedo não foi o suficiente. O momento que era para ser de lazer e celebração se transformou em um desafio para os dois. José desabafou com pesar.

“… não tem um lugar para idoso ficar sentado.”

Durante a fala do marido, Helenilda prestava atenção na conversa, mas não esboçava nenhuma palavra, apenas assentia.

Em uma pausa de José, ela se pronunciou vigorosamente. “Eu também posso falar?”, perguntou de forma sincera, garantindo que estávamos interessados no que ela tinha a dizer.

Ela explicou que a família toda apoia o presidente Lula e que, durante as últimas eleições, a mãe encorajou que votasse nele porque isso traria coisas boas para o Brasil.

Mas ela não acha que isso vai acontecer, principalmente pela falta de segurança e saúde. “Isso tudo machuca a gente e dão desculpas, ficam mentindo para nós e não acontece nada. Aí é ruim, ‘fia’. Eu não voto mais no Lula, não!”

Tem independência no lado B?

Em Brasília desde 1978, José afirma que foram ao evento para se “distrair um pouco”. Mesmo sendo mais contido sobre a política nacional, ele falou brevemente sobre o terceiro mandato do presidente Lula.

“Ficou elas por elas. O Lula é até melhorzinho que o outro, mas para mim é tudo uma coisa só. Ainda falta muito [para todo mundo ser independente]”.

Helenilda exemplifica com suas experiências no campo do emprego e da saúde. Sendo, segundo ela, ainda pior para mulheres e idosos.

“Chega num hospital desses aqui, eles batem a porta na cara da gente”, afirmou.

Nesse cenário conhecido pelos dois, Helenilda descreve o sufoco. “As passagens aumentando, aluguel aumentando, água e luz aumentando e o salário da gente lá embaixo”.

O lado B se encontra pulsando no relato do casal. O país celebra a independência, mas e os brasileiros? Para José, ser pessimista em relação ao futuro é um reflexo de ser realista com o presente.

“Acho que vai acontecer muita coisa ruim, né?! Do jeito que está o mundo hoje, não está muito bom. Não vai ter ninguém que vai dar conta”.

“Deus abençoe”

Dona Nilsa é um ano mais nova que Brasília. Nascida na capital, ela parecia ter crescido no Ipê em que estava sentada.

Contando seu feito de forma orgulhosa, mas dando risada da presepada que ainda era capaz de fazer, assim como as crianças.

“Não deu para passar pra lá, nas arquibancadas, então eu disse que ia ser em cima do pé de árvore. O rapaz me ajudou e estou aqui”. 

Foto: Juliana Weizel

Independente do governo, Dona Nilsa entende que o Dia da Independência é um momento para além da polarização política entre A ou B. Ela participa da celebração há mais de dez anos e em 2023 não poderia ser diferente. “Vou ficar até o final do desfile aqui na árvore.”

Para a doméstica, tem que ser comemorado, mas acima de tudo, é algo bonito de se ver. Ela acha tudo ótimo e só quis garantir que não iria perder nenhum detalhe. “Muita gente sai chorando, porque não consegue ver ”, afirma. Mas ela achou o seu espaço e garantiu que a vista era privilegiada lá de cima.

Indagada sobre o seu parentesco com as crianças encaixadas nos demais galhos, ela disse que não sabia de onde elas tinham surgido. Uma árvore uniu os quatro. E entre vivas e salves, a garotada ansiosa também quis interagir. 

Naquele crescer torto e resistente, eles se abrigaram e desfrutaram da companhia um do outro. Dando fim a sua participação, que foi rapidamente preenchida pela fala sobreposta dos jovens, Dona Nilsa fez questão de dar um adeus. “Deus abençoe”.

Foto: Juliana Weizel

Em uma viagem de ônibus com origem em Planaltina de Goiás (GO), os irmãos de 6, 9 e 13 anos estavam em escadinha, onde o mais velho e aventureiro se colocou no topo do Ipê.

Erik zelava pelos mais novos e respondia quando os outros dois se viam confusos com a pergunta. Taila, que pouco antes tentava afastar o calor com um picolé, era a mais comunicativa e Henrique dava um jeito de caminhar pela árvore sem atrapalhar dona Nilsa. Para eles era um pouco mais fácil, “eu saí correndo e consegui pular aqui”, afirmou Erik.

Do que vale minha opinião?

Ao serem abordados na sombra de uma árvore, sentados sob uma tira de papelão, o casal que se declara em um status de relacionamento “amigado” antecipa o motivo da entrevista. 

— Vocês poderiam falar com a gente?

— Depende… eu não entendo nada de 7 de setembro.

A jovem de 24 anos é confiante em suas opiniões, mas se reserva ao direito de não compartilhar com quem dispara olhares de pré julgamento. Sentindo que ela era validada, nos sentamos em frente a eles e seguimos com o assunto.

— Tudo bem, só queremos ouvir vocês.

Eles observavam a multidão. O Teatro Nacional é a tela que pinta o fundo de suas vistas. Juntos há seis meses, Tatiane disse que essa foi a primeira vez no desfile, já Adilson, tinha ido mais recentemente em 2021. “Eu fiquei olhando da parte de cima da rodoviária”, explicou a diferença para este ano que está com a companheira.  

Foto: Juliana Weizel

Com espaço para dar a mensagem que quisesse, Tatiana afirmou que estava ali, porque não tinha nada para fazer, mas que achava bom ver o desfile. O evento, por outro lado, não acalmava sua principal preocupação: a saúde. Diz ela não ter nenhum problema no momento, mas que teme a hora que precisar de ajuda.

“Queria ter condições para uma boa saúde e assim talvez não morrer rápido no hospital”.

Catador de percevejos 

O consumo de uns gera a renda de outros. Segundo a Secretaria de Comunicação da Presidência da República, cerca de 50 mil pessoas estavam presentes nas arquibancadas e na Esplanada dos Ministérios para o 7 de setembro. Joselino Oliveira viu esse dia como uma oportunidade de ganhar um dinheiro a mais. 

“Estou por aí, num albergue em São Sebastião e vim catar latinha aqui. Com muita gente aqui, vai ter muita latinha”

Natural da Bahia, chegou na capital do país em abril deste ano. O senhor de 58 anos se mostrou feliz ao dizer o nome. E não esboçou algo além de um sorriso ao contar sua história, mesmo que fosse duro pensar na trajetória.

Foto: Juliana Weizel

Joselino era ajudante de obras em seu estado natal, mas acabou se acidentando em um dia de trabalho. “Sou todo quebrado, eu caí dentro da obra”, disse ele enquanto mostrava as cicatrizes. 

Desde que chegou, alterna onde passa a noite “Vim sozinho, eu e Deus”. Dia sim, dia também está na rua. Quando precisa fugir à regra, busca refúgio em um albergue de São Sebastião. Lá, divide a companhia com outras pessoas, mas principalmente com percevejos. 

“Eu moro mais na rua do que no albergue, olha como eu estou, isso tudo é percevejo. As paredes lá é tudo cheia de sangue, que a gente sempre mata os bichos que pegam a gente”, explica ao levantar a camisa e expor as marcas de picadas pelo corpo.

Ter cama e teto para descansar é um privilégio. “Mais uns 5 anos aqui e eu volto pra casa”.

Passagem da Esquadrilha da Fumaça

Após as duas horas previstas de celebração, o desfile da independência acabou. Representantes dos três poderes e das forças de segurança cumpriram com o rito institucional.

Oficialmente, o que poderia ser feito pelo Estado brasileiro, foi feito. Zé Gotinha já tinha aparecido para acenar ao público e, em uma simbólica homenagem, uma pessoa caracterizada de Santos Dumont exaltou o inventor do avião.

A despedida dessa manhã de independência foi marcada pelo show à parte da esquadrilha da fumaça que, com seus aviões A-29 Super Tucano rasgando os céus de Brasília, realizou piruetas no ar e acrobacias que contagiaram o público presente.

Com o líder, os alas, o ferrolho e o isolado, a composição dos fumaceiros permaneceu no ar em ritmo de despedida para quem já voltava rumo à rodoviária.

Crédito: Juliana Weizel

Os olhares aterrissados ao fim, agora concentravam esforços em achar uma brecha na multidão e seguir para casa. Entre a caminhada à Rodoviária do Plano Piloto e o saborear do momento de lazer nas sombras da capital, próximo da plataforma A, as turbinas dos aviões deram passagem ao som.

Fechando com sax de ouro

Vindo de uma das colunas que dão sustento ao coração de Brasília, o som de um instrumento de sopro se espalha. Em uma melodia convidativa era fácil encontrar a origem.

Alegando estar fora de ritmo, o instrumentista pediu que esperássemos até ele afinar. Isso parecia um engano, já que o reluzente saxofone de cor dourada começou a reunir pessoas em sua volta.

Segundo o Paulo do Sax, ali era um ponto sem igual na rodoviária, um lugar estratégico. Naquele corredor, uma acústica perfeita dava a chance dele se preparar antes de ir para o piso superior.

Músico de nascença, ele ainda se vê como um garoto novo. “Tenho 22 anos… 22 anos de aposentado”, disse rindo. Entre uma música e outra, aproveitamos para fazer uma breve entrevista. Era o momento de saber se ele havia prestigiado as comemorações e se sua presença era marcada por algo especial neste dia.

Paulo confirmou que estava lá para o desfile também, mas que a sua ida à rodoviária é recorrente. E ponderou sobre o que tinha de diferente este ano. 

“A semana da pátria assim é interessante, independente de filiação partidária, de convicção ideológica. Você tem que pensar que está num país, você não está dentro de um partido político. Então a gente tem que se enquadrar num contexto do momento histórico”, afirmou.

Embalado pelo espírito do patriotismo, ele engajou em uma nova canção, ou melhor, um hino. Com direito a uma arquibancada de entusiastas e uma porta-bandeiras hasteando o símbolo verde e amarelo pela avenida do terminal. A nota 10 veio.

Foto: Juliana Weizel
Paulo do Sax tocando o hino nacional

Em um mundo de tons de cinza, Paulo do Sax trouxe com suas notas um pouco de cor para o dia 7 de setembro.

Há beleza, também, no lado B das histórias, mas os resquícios da colônia despedaçada fazem parte do cotidiano. Se queremos uma pátria, temos que seriamente perguntar: Independência para quem?  

Leia mais desse especial sobre o Dia da Independência aqui

Por Juliana Weizel e Otávio Mota

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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