Na semana passada, o jornalista Fernando Busian, que atua como membro da equipe de comunicação do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), denunciou ter sido vítima de perseguições e ameaças digitais.

Fernando Busian, jornalista do PSOL / Foto: Arquivo Pessoal/LinkedIn
Os ataques tiveram início após o envio de um comunicado à imprensa sobre a troca de lideranças no partido. De acordo com ele, essas ameaças representam um fenômeno crescente de violência online contra jornalistas e podem impactar na atuação de profissionais da área.
“Não estamos mais falando apenas de riscos em coberturas de rua, mas de uma violência que invade o ambiente doméstico através das telas. Isso afasta talentos da profissão e adoece quem nela permanece.”
“Desafio histórico”
Jornalistas que fazem coberturas políticas no Brasil enfrentam um cenário midiático muito polarizado, marcado pela hostilidade e desconfiança da sociedade. O reflexo desse fenômeno aparece nos relatórios anuais de violência contra a profissão, que indicam uma constância de ataques à liberdade de imprensa.
No último mapeamento realizado pela organização internacional Repórteres sem Fronteiras, dos 180 países que compõem o Índice Mundial da Liberdade de Imprensa de 2025 o Brasil ficou na 63ª posição.

Contudo, ao considerar o indicador de segurança que avalia critérios como integridade física, ameaças, assassinatos e impunidade, o país caiu para o 78º lugar, mostrando que o assédio e a violência contra jornalistas ainda são desafios recorrentes no país.
Sobre esses dados, Busian diz que “a liberdade de imprensa é um desafio histórico no Brasil” e complementa que apesar da melhora do país no ranking mundial, o patamar alcançado ainda é “insuficiente para uma democracia plena.”
Ameaças e intimidações
Um dos fatores que tem contribuído para o aumento dos ataques on-line são as redes sociais. O jornalista, que iniciou a carreira durante o ano 2000, época em que ainda não haviam sido criadas redes como Facebook, Instagram ou X (ex-twitter), avalia que atualmente elas possuem um papel ambíguo no combate aos abusos virtuais.
“Hoje, elas representam uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo em que auxiliam jornalistas a denunciarem abusos, tornaram-se um canal direto e potente de intimidação e ataques sistemáticos.”
O anonimato do ambiente digital por vezes também acaba por fazer com que as pessoas se sintam mais confortáveis em realizar intimidações, explica Fernando.
Ele também reflete que o objetivo detrás dos ataques no ambiente digital são mais complexos do que apenas uma oposição à informação. “O objetivo não é debater a informação, mas destruir o emissor para que a mensagem perca o valor.”
Expectativas para o ano eleitoral
Com a aproximação das eleições, jornalistas que cobrem o campo político esperam um ambiente hostil para o exercício da profissão e acreditam que as recentes ameaças e intimidações são “apenas o começo” de um período eleitoral marcado por tensão.
“Infelizmente, a expectativa é de um ambiente de extrema tensão para o pleno exercício do jornalismo — uma prática que se torna ainda mais fundamental para o fortalecimento da nossa democracia em tempos de eleição”, lamenta Busian.
Por Maria Júlia Andrade e Maria Paula Valtudes
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira


