Marco Temporal: “Enquanto lutamos pelas terras, outros direitos são retirados”, diz mulher kayapó

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A indefinição no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a pauta do “Marco Temporal” (proposta de legislação que limitaria as terras indígenas apenas àquelas que foram definidas até 1988) tem tirado o sono de povos de diferentes regiões do país. A votação está parada na STF após o ministro Alexandre de Moraes ter pedido vista em relação ao tema. Não há data prevista para a retomada. 

Para a  indígena Mayalú Waurá Txucarramãe, do povo Kayapó, do Mato Grosso, e do povo Waurá, que chegou a vir a Brasília em manifestação contra essa lei, as agressões aos povos originários tem diferentes frentes. Na delegação das mulheres kayapó, Mayalú pede apoio de autoridades e de brasileiros também das áreas urbanas. “Então, com tempo limitado, precisamos de atitudes ‘para ontem’, para garantir um futuro de um bem viver para essa nova geração”. Confira abaixo entrevista

Divulgação/ Foto: João Victor Canizares

Agência: Qual o objetivo de vocês com esse movimento?

Mayalú: O objetivo da nossa presença nessa mobilização é poder pressionar e mostrar que os povos indígenas resistem e existem. Estamos aqui para dizer não ao marco temporal, uma tese ruralista que quer definir e decidir qual é a data da população indígena dentro de uma terra, desconsiderando a expulsão e a violência sofrida com os colonizadores na época, quando foram expulsos das suas terras.

Agência: O grande número de indígenas que vieram para a mobilização mostra a grandeza do movimento, a situação está muito grave, correto?

Mayalú: Sim, não dá para continuar porque nós queremos a garantia de educação de qualidade, uma educação pública para os nossos filhos, e tudo isso está sendo ameaçado e retirado aos poucos. Enquanto nós estamos lutando pelas nossas terras, outros direitos estão sendo retirados, então, a melhor forma é a gente se juntar.

Agência: Falando em educação, você acredita que a complementação da educação nas escolas, com uma melhor visualização sobre a história indígena, pode ajudar a causa de vocês?

Mayalú: Com certeza, porque o  povo sem história não tem futuro, e a escola, infelizmente, por muito tempo tem apresentado só a visão dos colonizadores e tem criado estereótipos de indígena, nos quais não reconhecem outros povos, isso tem que ser desconstruído dentro das escolas.

Agência:  O que você acha que é mais importante que os alunos aprendam sobre os povos indígenas e a história do Brasil?

Mayalú: Entender que existe um modo de vida diferente, que está em equilíbrio com a terra, que esse povo mantém a garantia de um equilíbrio no clima, que ameniza as mudanças climáticas. Os recursos naturais não são renováveis e eles estão se esgotando, esse é um dos principais fatores que afetam a população indígena.

Agência: O que vocês estão pedindo àqueles que gostariam de ajudar no movimento de vocês?

Mayalú: A mensagem que eu deixo para vocês é que venham reflorestar o pensamento, porque essa marcha coloca isso, reflorestar pensamentos, reflorestar mentes para um futuro melhor, para adiar o fim do mundo. Então, com tempo limitado, precisamos de atitudes ‘para ontem’, para garantir um futuro de um bem viver para essa nova geração. Venha junto, levante as hashtags contra “marco temporal” a PL 490, venha apoiar a gente e ajudar a resistir nesse acampamento e na causa indígena, na causa ambiental, na causa das mudanças climáticas, todas essas problemáticas estão interligadas. Então, não tem como não falar de mudanças climáticas e não falar do racismo, não falar das causas indígenas e da causa ambiental.

Por Alexya Lemos e Ana Beatriz Queiroz
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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