“Não Vai Ter Copa”: estádios de futebol viram hospital e escola dez anos após o movimento

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Em junho de 2013 o povo brasileiro saiu às ruas para reivindicar direitos e cobrar dos governantes mais políticas públicas, principalmente na área da saúde, educação, segurança e meio ambiente.

As tensões se estenderam até o ano seguinte, em 2014, quando o país recebeu milhões de turistas: era a Copa do Mundo dando as caras no país do futebol.

Para conseguir sediar o evento, o Brasil teve 12 estádios construídos. O mais caro deles foi o Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília, ao custo de R $1,5 bilhão, seguido do Maracanã e da Arena Allianz Parque. Dez anos depois,  assim como o 7×1 da Alemanha contra o Brasil naquele ano, ainda é difícil para os brasileiros engolir a ideia de que o país não tem o hexa nem hospitais e escolas de qualidade. 

Em Brasília , durante a pandemia de covid-19, o Estádio Mané Garrincha, por exemplo, foi usado como hospital de campanha para conter o avanço da doença.  

Hospital de Campanha do Mané Garrincha (Larissa Passos/G1)

Na estreia do Brasil na Copa do Mundo de 2014, no Estádio Mané Garrincha, a partida foi contra o Japão. Naquela ocasião, a seleção canarinha venceu por 3×0. Mas, sete anos depois, a pandemia impôs um revés: desta vez, a doença que teve origem na China se espalhou pelos continentes e atingiu o Brasil.

De acordo com a Secretaria de Saúde do DF, o hospital de campanha instalado no Mané Garrincha, no momento mais crítico da pandemia, foi equipado com 197 leitos, sendo 173 de enfermaria adulto, mais 20 de suporte avançado e quatro de emergência.

No período de operação, passaram pela unidade provisória mais de 1,8 mil pacientes. O hospital de campanha foi inaugurado em maio de 2020 e funcionou por 5 meses, até outubro daquele ano. 

O especialista em gestão de saúde e professor da Universidade de Brasília, Edgar Merchan Hamann, avalia que o DF não estava preparado para receber a pandemia.

“Desde quando as cidades foram crescendo em Brasília a saúde não foi mais a mesma. Regiões como Riacho Fundo, Santa Maria e o entorno passaram a pressionar os hospitais do DF e a saúde não acompanhou a demanda.” 

Para o professor, também houve um despreparo político.  “No início só poderia fazer o teste de covid quem teve contato com doente ou tinha chegado de viagem. O correto deveria ser testagem em massa. Houve ainda um despreparo no âmbito político em falar sobre curas milagrosas que fugiam da lógica da ciência”, diz o professor. 

Raio-x da saúde no Distrito Federal

Até maio de 2023, o DF registrou 11.860 mortes causadas pela doença. Um relatório realizado este ano pela Comissão de Saúde da Câmara Legislativa do Distrito Federal apontou que na cozinha do Hospital de Base foi encontrado mofo no teto e acúmulo de água que cai nos alimentos e nos servidores que trabalham na unidade de saúde. 

Ainda de acordo com o documento, há fiação exposta, ralos levantados no piso e panelas em péssimas condições. Os parlamentares também apontaram problemas nos alojamentos dos profissionais de saúde, salas de exame e banheiros, que estavam completamente danificados.

Os efeitos do pós junho/2013: 10 anos depois

Caso as manifestações sociais de 2013 tivessem surtido efeito, talvez Brasilia estivesse mais bem equipada durante a pandemia. A cientista política e professora da Universidade Federal de Alagoas, Luciana Santana, avalia que nesses 10 anos houve uma mudança de foco da sociedade para a área política. 

“Em 2014 começaram os questionamentos do resultado eleitoral e também teve início  a polarização no país. Essas tensões foram tantas que a presidenta da época (Dilma Rousseff) sofreu impeachment em 2016. Isso fez com que o foco da população mudasse das reivindicações sociais para o âmbito político”, analisa. 

A especialista defende que no Brasil a polarização está personalizada em atores políticos e não em pautas. Nesse sentido, movimentos sociais e sindicatos ficam fragilizados. Com relação ao futuro do DF na área da saúde, a professora considera que há desafios. “Acho que os próximos 10 anos é mais uma oportunidade dos parlamentares reverem as políticas que são implementadas, já que em curto espaço de tempo é um cenário pessimista.”

A reportagem procurou o GDF para se manifestar com relação ao uso do Estádio Mané Garrincha como hospital durante a pandemia, mas o governo não quis falar e disse apenas que a arena é gerenciada pelo BRB. Questionado, o BRB não respondeu aos questionamentos. A gestão se limitou a dizer apenas que o estádio se sustenta financeiramente de shows, eventos internacionais, provas de corrida, partidas de futebol, feiras e congressos.  

Estádio como escola

Se não se faz Copa com escolas e hospitais, ficou mais que claro que não se constrói um país com estádios de futebol. Menos de três anos após o final da Copa do Mundo no Brasil, a Arena Pantanal, em Cuiabá (MT), ganhou um novo propósito: a educação.

Para dar utilidade à obra que custou cerca de R$ 650 milhões aos cofres públicos, o governo do estado do Mato Grosso instalou, nas dependências do estádio, a Escola Estadual Governador José Fragelli, homenagem ao ex-governador do estado, que dava nome ao estádio demolido para a construção da Arena Pantanal; ou, como ficou popularmente conhecida,  a “Arena da Educação”. 

A Arena da Educação, inaugurada em 2017, tem como objetivo unir o alto rendimento acadêmico ao esportivo. A teoria por trás, segundo o coordenador pedagógico da escola, Alexandre Espíndola, 46 anos, é que “o esporte auxilia na formação de estudantes”. E foi com este princípio que, em seis anos de funcionamento, a Arena alcançou, duas vezes consecutivas, o melhor Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), entre escolas públicas, da capital mato-grossense. 

Localizado no segundo piso do setor leste do estádio, o colégio transformou os mais luxuosos assentos da Arena Pantanal em salas de aula, coordenação e diretoria. E é dentro do que seriam, originalmente, camarotes, que os 560 estudantes cuiabanos assistem às aulas pela manhã, antes de seguirem para as duas horas de treino diárias de suas respectivas modalidades esportivas – são, ao todo, 12 categorias disponíveis na escola.

Alexandre, no entanto, chama a atenção para algumas das dificuldades estruturais da Arena da Educação. Segundo o coordenador, além das questões relacionadas ao espaço, é frequente uma falha no sistema de refrigeração do estádio que, somada às elevadas temperaturas de Cuiabá, resulta em um calor forte para que alunos e professores fiquem mantidos em sala de aula. Nestes dias, diz Alexandre, as disciplinas são ministradas remotamente. 

“Por estar num local que não foi construído para ser uma escola, nós temos muitos problemas estruturais. Às vezes temos problemas com ar-condicionado, às vezes temos problemas com falta d’água, internet”, disse o coordenador.

Desde a inauguração da escola, porém, o cenário futebolístico do Mato Grosso mudou. Após mais de 35 anos sem um representante na primeira divisão do Campeonato Brasileiro, o Mato Grosso viu o Cuiabá Esporte Clube (CEC), time fundado em 2001, ascender à elite do futebol nacional em 2021. A Arena Pantanal ganhava, finalmente, uma equipe local capaz de utilizar, constantemente, boa parte de seus 44 mil lugares. 

Para a coordenação, esta situação gerou bastante dor de cabeça. Por se tratar de uma escola de período integral, com os alunos entrando às 7h e sendo liberados depois das 17h, os frequentes jogos de meio de semana atrapalham (e muito) a logística do colégio, que faz uso de todo o complexo esportivo da arena que, em dias de jogo à noite, tem que ser totalmente esvaziado até 13h.

Assim, mais uma vez, viu-se a necessidade de se utilizar a tecnologia. A antecedência no agendamento dos jogos ajuda, e alunos têm de ser dispensados às 12h. Para Alexandre, o sentimento geral é de que não estão instalados “num espaço adequado para uma escola”. Por isso, ainda segundo o professor, “já há projetos de construção de um prédio nesta mesma estrutura”, para manter a essência esportiva da escola.

No estado com o 23º pior Ideb (entre as 27 entidades federativas) do Brasil, a arena de R$ 650 milhões levanta questões acerca das prioridades de governos brasileiros. Se o movimento “Não vai ter Copa” pedia a construção de hospitais e escolas, o projeto conduzido na Arena Pantanal prova que, pelo menos em Cuiabá, o ensino básico deveria ter sido prioridade.

Para Alexandre, o sucesso do colégio é fruto do trabalho árduo de todos os profissionais envolvidos com o projeto. O coordenador, porém, não deixa de imaginar o potencial da Arena da Educação sem os problemas estruturais e logísticos decorrentes do uso da estrutura física de um estádio esportivo. “Seria mais fácil, sem dúvidas. Se tivéssemos nosso espaço, aqui mesmo neste complexo, não teríamos do que reclamar”, diz Alexandre, à espera de que, com alguns anos de atraso, o foco do governo estadual se volte para a educação.

O que pensa um manifestante da época

O estudante de Gestão de Políticas Públicas, Bernardo Moreira, era uma das muitas pessoas que estavam presentes no movimento que visava melhorias para o país ao invés de ter o Brasil como sede da Copa do Mundo. Bernardo falou sobre o que queriam os participantes da época do ‘Não Vai Ter Copa’, mas criticou o que virou o movimento. 

Manifestantes da época mostram placas com reivindicações do movimento (Foto: Tânia Rêgo/ABr)

“As reivindicações iniciais começaram pelos 20 centavos. Mas depois acho que, na minha visão, começaram a reivindicar mais coisas, como investir dinheiro em saúde, educação. Só que, no final das contas, virou uma manifestação que não tinha líder e nem caminho. Então, se tornou uma manifestação sobre muitas coisas e acabou que falhou no seu objetivo”, alega o manifestante da época. 

Além disso, o estudante afirmou que as demandas não foram totalmente atendidas. “Não acho que elas (as demandas) foram atendidas. Os 20 centavos foram, mas o resto delas, como não tinha um caminho, por serem muito amplas, fica muito difícil atender manifestações desse jeito.” 

Bernardo ainda foi mais além e defendeu que o Brasil não deve sediar outras Copas devido a prioridades que considera mais urgentes. “Não acho que o Brasil deveria receber outra Copa do Mundo. Acho que foi um erro ter recebido a primeira aqui também. O país não está preparado para isso, acredito que tenha outras prioridades”, afirmou Bernardo Moreira. 

Por Ana Carolina Tomé, Eduardo Hahon e Jorge Agle 

Supervisão Isa Stacciarini

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