Orgulho LGBT: “A minha transição não começou no momento que mudei meu nome”, diz universitário

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Se a vida de Luca fosse um filme, o conflito não teria um desfecho tão cedo. Mas o roteiro não seria sobre dor ou violência. Seria sobre coragem e liberdade, onde o protagonista finalmente entende que ele nunca esteve sozinho nessa jornada de resistência e autodescoberta. 

Em um país que lidera rankings de violência contra pessoas transgênero, Luca Oliveira encontrou na arte uma forma de existir mais leve. Aos 22 anos, estudante de audiovisual, ele costuma chegar na sala a tempo da aula começar. Caderno, livro, diário e caneta estão sempre na mochila preta da JanSport, já desgastada pelo uso cotidiano.

Para os amigos, Luca é alguém que consegue conversar com qualquer um, independente do cenário. Já em casa, a mãe, Liliane, o pai, Wesley, e o irmão mais velho, Glauber, preferem falar da facilidade que ele tem em acolher as pessoas e transformar ambientes desconfortáveis em espaços seguros. Luca escuta tudo rindo, feliz, satisfeito pelo afeto das pessoas que ama. 

Ser trans no Brasil     

Segundo o Dossiê Assassinatos e Violências Contra Travestis e Transexuais Brasileiras, feito pela pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil se mantém na posição de país que mais mata pessoas trans no mundo pelo 18° ano consecutivo. O relatório também aponta o aumento nas tentativas de homicídio contra pessoas trans, que foram de 57 a 75 em apenas um ano. 

Os dados fornecidos pelo Antra ajudam a compreender o estado que a comunidade trans vive no país: com constante medo, aprendendo desde cedo a transformar cautela em um mecanismo de sobrevivência.

Luca faz parte da quase escassa parcela de pessoas trans que conseguiram chegar ao ensino superior, em um país onde a porcentagem é de apenas 0,3%, segundo o Antra. Estar dentro da faculdade, porém, não o coloca fora do alcance da transfobia. 

“A transfobia é uma questão na minha vida, continua sendo, foi desde o princípio. Claro que, quando eu não fazia a hormonização era uma questão maior, mas essas coisas não deixam de me impactar quando elas param de ocorrer comigo, sabe? Se ela ocorre com meus iguais, elas continuam me afetando “, diz. 

No começo da transição, enquanto não havia alterado formalmente seu nome, chegou a sofrer comentários transfóbicos até mesmo de professores. “Eles insistiam em errar meus pronomes de propósito e me tratar no feminino, mesmo quando tomavam conhecimento de que sou trans”, relembra. 

Após a mudança de nome, Luca precisou regularizar os documentos, mas encarou um despreparo por parte dos órgãos públicos.

 “Quando fui trocar meus documentos, as pessoas que trabalham na Polícia Federal, por exemplo, não sabiam qual era o procedimento para mudar o nome na Carteira de Identidade de uma pessoa trans. Então eu acabei pagando para fazer a minha segunda via, sendo que eu tinha o direito de fazer isso gratuitamente”, lamenta. 

De acordo com a Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), pessoas trans e travestis têm o direito de emitir a segunda via da Carteira de Identidade Nacional gratuitamente no DF desde 25 de julho de 2023.

“Isso acontece muito em consultório médico também, então quando eu fui fazer a minha mastectomia, acabei indo em cirurgiões transfóbicos que não sabiam como me tratar e não sabiam como direcionar a minha cirurgia”, relata Luca, que, dia após dia relembra o descaso e o constrangimento que uma pessoa trans enfrenta no Brasil.

Corpos sem nós

Durante a adolescência, o espelho era um território de dúvidas constantes e silenciosas. Antes de compreender a própria identidade, Luca buscou abrigo no que parecia ser o mais próximo de sua realidade: identificou-se, por algum tempo, como uma mulher lésbica. Na tentativa de buscar algum tipo de conforto, a comunidade LGBTQIAPN+ lhe deu, pela primeira vez, a sensação de pertencimento.

Mas o nó no peito persistia. Conforme os anos avançavam e a fase adulta se aproximava, Luca percebeu que o incômodo não era sobre quem ele amava, mas sobre quem ele encarava no reflexo do espelho todos os dias. 

A transição de gênero não foi um estalo repentino, mas um processo lento de desatar nós, de entender que o que buscava exigia que desse um passo além. “Acho que quando eu me descobri trans, também descobri outras formas de me relacionar com meus amigos, relacionamentos amorosos e minha família. Desconstruiu muitas coisas que, antes, eu achava que eram a norma”, reflete.

Com a chegada da maioridade, a vontade de alinhar o corpo à mente ganhou urgência. Aos 19 anos, o primeiro passo foi o início do uso de injeção intramuscular hormonal de testosterona nos glúteos, um divisor de águas que começou a espelhar no exterior as certezas que ele já carregava por dentro. 

Aos poucos, as mudanças na voz, nos traços e no corpo trouxeram o alívio de finalmente se reconhecer ali, no dia a dia. No entanto, dois anos depois, Luca decidiu realizar uma das últimas etapas dessa transição: a mastectomia masculinizadora. 

Para ele, a cirurgia de remoção dos seios não foi apenas estética, foi como se finalmente pertencesse ao próprio corpo. Hoje as cicatrizes que carrega abaixo do peito são expostas com orgulho.

Mesmo com tantas transformações, Luca não evita fotografias antigas. Diz que, mesmo após todas as mudanças físicas, olhar para si mesmo do passado não é uma tarefa árdua, na verdade, é tranquilizadora. “É como ver outra versão de mim, mas ainda sou eu ali. Tenho muito carinho”, comenta ele. 

Luca mostra uma fotografia de quando era criança. Créditos: Izabela Guariento

A disforia, no entanto, mesmo que muito menor após a transição, às vezes aparece em pequenos detalhes cotidianos. Em alguns dias, o desconforto é silencioso; em outros, atravessa o corpo inteiro com a sensação persistente de não pertencimento. 

Ainda assim, Luca aprendeu a transformar parte dessa angústia em produções cinematográficas. “Muitos dos filmes que eu faço são relacionados a isso. Mesmo quando não são, de certa forma acabam sendo impactados por isso, porquê ser trans mudou a forma como eu penso e crio”, conta. 

Entre seus filmes favoritos nunca estão histórias sobre pessoas convencionais, com problemas de fácil resolução. ‘Tangerine’, do diretor Sean Baker, está na sua lista de produções cinematográficas preferidas.

“A minha transição não começou no momento que mudei meu nome ou terminou no momento em que fiz a mastectomia. Ela é uma coisa constante que eu sempre vou reafirmar. Meu processo está muito mais ligado a entender meu lugar no mundo do que me colocar em um lugar”, desabafa. 

Os hormônios e a cirurgia não mudaram quem Luca era, ou quem sempre foi; apenas permitiram que ele habitasse o próprio corpo por completo. Finalmente sentiu que deixou de ser apenas um espectador de sua história para assumir, de forma definitiva, a direção do seu filme.

Por Izabela Guariento

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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