Na noite de natal de 1992, Ilma Ananias recebeu um presente. No Hospital das Forças Armadas (HFA), em Brasília, ela deu à luz uma criança linda e saudável, o último dos 16 bebês que nasceram naquela maternidade, naquela noite. O presente era uma menina no corpo de um menino. Porém, isso ninguém sabia ainda.

Ela recebeu um nome masculino. Um nome que hoje já não existe mais, exceto para o Banco do Brasil, que insiste em estampar o nome morto no cartão de crédito, mesmo após a retificação de quase todos os documentos. Ela se chama Hannah Ananias.
A pequena Hannah cresceu como um menino de cabelos longos, que brincava na rua com as outras crianças e adorava desmontar e montar carrinhos, alegrando-se ao vê-los voltar a funcionar. No entanto, desde os quatro anos de idade, ela guardava um segredo a sete chaves: não se identificava com o gênero que lhe fora designado ao nascer.
Mesmo em silêncio, ela sonhava, quase diariamente, em um dia dormir e acordar no corpo de uma menina.
O que Hannah sentia é conhecido como disforia de gênero. Uma incongruência entre a identidade de gênero e o sexo atribuído ao nascer, o que causava nela um sofrimento silencioso pelo fato de não poder ser quem era, por medo da rejeição e exclusão.
Lembranças
Aos cinco anos de idade, ela brincava com os sapatos, vestidos e saias da mãe. O vestuário feminino era algo que a fascinava por ser diferente e, aos seus olhos infantis, até “engraçado” usar aquelas roupas. Mas essa brincadeira causou uma discussão entre os pais da menina, o que ficou marcado na memória dela.
A forma de sentar e de falar também virou motivo de embate com os familiares. Hannah percebeu cedo que o mundo esperava atitudes e comportamentos. Sentiu que precisava representar alguém que não era, justamente para evitar os conflitos que a cercavam. Para caber nas expectativas alheias, ela passou a se encolher no próprio mundo.
Toda essa infância se desenrolou nos anos 1990, tempos de profunda ignorância e preconceito contra a comunidade LGBTQIAPN+. Naquela última década do século XX, o peso de ser quem era se somava à epidemia de HIV e Aids. O medo e a desinformação sobre o vírus empurravam essas identidades ainda mais para a marginalidade.
No coração da filha
Ilma nunca percebeu que algo afligia o coração da filha ou que ela atuava ser uma pessoa que não era. Hoje, ela diz que, se eu soubesse, teria criado a criança trans sem problemas. A escola também não foi um ambiente acolhedor.
Apesar de ser uma boa aluna, brigas recorrentes motivadas por sua aparência andrógina acabaram afastando-a do colégio. Ilma ficava apavorada quando a filha aparecia machucada após a escola.
Mesmo perguntando, Hannah pouco falava sobre o assunto e, quando a mãe procurava a instituição para saber o que havia acontecido, recebia quase sempre a mesma resposta que a briga tinha acontecido fora dos portões da escola.
Hannah mudou para o período da noite em busca de segurança, acreditando que estudaria com pessoas mais maduras. Ao perceber que os conflitos persistiam, decidiu dar um tempo nos estudos. Ela só viria a concluir o Ensino Médio um pouco mais velha, por meio da EJA (Educação para Jovens e Adultos).
Mudanças
Na adolescência, Hannah descobriu que aquele sonho de infância era impossível, mas existia uma forma de realizar uma transição de gênero. Apesar de surgir uma esperança, essa fase veio com o desenvolvimento do corpo, o que causou enorme desespero em Hannah. Corpo crescendo, pelos surgindo e a voz engrossando. Era tudo que uma menina não queria.
Essas mudanças somadas ao bullying sofrido no ambiente escolar, trouxeram ainda mais sofrimento para ela que desenvolveu um quadro depressivo. Ilma percebeu essa tristeza na filha e orientou que ela frequentasse um psicólogo.
Após anos de acompanhamento, o psicólogo de Hannah percebeu que a maioria do mal-estar dela era causado por questões de gênero, seja por não poder expressar quem era ou pelas crueldades que os outros cometiam pelo fato de ela ser “diferente”.
Ele recomendou que ela buscasse algum profissional que entendesse melhor do assunto e comentou sobre o Ambulatório Trans, uma iniciativa do Governo do Distrito Federal que acabava de ser inaugurado.
Ambulatório trans
O ambulatório voltado às pessoas trans e travestis do Distrito Federal foi inaugurado em 2017 e em 2020, a iniciativa foi credenciada pelo Ministério da Saúde, o que tornou o projeto parte do Sistema Único de Saúde (SUS).
Hannah começou a frequentar em 2018, com o acompanhamento psicológico da instituição, e após alguns anos, em 2020, ela conseguiu realizar uma consulta com um endocrinologista no local.
“Queria dizer que você tem uma filha“
Após quase 25 anos escondendo quem ela era, Hannah se viu em um embate: “ou eu inicío a minha transição e começo a me apresentar ao mundo da forma como eu sou, ou eu não aguento mais isso, já tá cansativo pra mim.”
Mas o medo da rejeição não era o único que a fazia questionar a decisão, a escolha poderia implicar na sobrevivência dela.
“Eu sabia que essa escolha (de se assumir) não implicaria somente na possível rejeição familiar e amizades. Eu sabia que também poderia estar sujeita a passar fome. Mas já não dava mais para viver dentro dessa casca que eu vivia, de alguém que não é aquilo que é. É muito ruim. É muito desconfortável viver assim.”
A primeira pessoa com quem ela foi conversar sobre o assunto foi a mulher que lhe deu a vida.
Nessa época, elas moravam na mesma rua, mas em casas separadas por alguns metros. Durante o trajeto ela relembrou o discurso e se auto confortou, “se ela me aceitar, maravilhoso. Mas se não acontecer, vamos ver o que vamos fazer daqui pra frente. O que não dá mais é pra viver sendo alguém que eu não sou”.
Era uma manhã nublada quando Hannah subiu as escadas do prédio e bateu na porta da casa da mãe. Ilma abriu e elas se sentaram no sofá. Hannah segurou a mão da mãe e disse: “Eu queria te dizer uma coisa que está muito difícil pra mim e não aguento mais viver dessa forma e vou começar uma transição. Eu sou uma mulher. Você perdeu um filho mas ganhou uma filha.” E juntas elas derramaram lágrimas de união em uma descarga emocional.
Ilma recebeu com preocupação a notícia. “Como ela ia enfrentar o mundo com essa mudança toda?” Mas entendeu o sofrimento da filha, a aceitou e disse: “Seja bem-vinda ao mundo das mulheres que não é fácil.” Apenas pediu para ela continuar se vestindo de forma elegante, “nada de extravagância”, sabendo do preconceito que ela poderia enfrentar.
Preocupações
A preocupação de Ilma teve relação com a violência que vitima a população trans. Em 2025, foram 80 assassinatos, conforme dados divulgados pela Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (Antra).
Na pele, Hannah sentiu o peso desses números ao sobreviver a episódios de violência e a um atentado de um motorista de ônibus que acelerou o veículo ao vê-la cruzar a faixa de pedestres.
Ao reviver esses momentos, Hannah reflete: “Eu acho que a gente vai criando uma casca. Se a gente ficar remoendo isso, você não sai mais de casa”.
Essa violência constante deixou marcas profundas em sua saúde mental.
“Eu tenho medo até hoje. Lugares com muita gente, eu fico apavorada. Mesmo estando acompanhada, penso que alguém pode me atacar, fico em estado de alerta, olho para todos os lados, pensando de onde virá a pedra”.
Esse trauma privou ela de coisas simples, como ir à academia ou apenas sair a pé pela rua.
Ao relembrar esses momentos, Ilma desabafa com a voz trêmula: “A violência é imputada a ela de graça. Um ser humano ser violentado pela sua própria natureza, apenas por ser ‘diferente’, é algo que não deveria acontecer”.
Reaprender
No início, a transição exigiu de Ilma um exercício de reaprendizado. Romper com os hábitos de mais de duas décadas e substituir os pronomes e o nome antigo.
Não foi uma tarefa simples. No entanto, o amor materno e a consciência da importância que aquilo tinha para a filha falaram mais alto.
Como quem estuda uma nova língua, Ilma passou a escrever frases com o novo nome e as formas corretas de tratamento nas páginas de um caderno, ensaiando e memorizando o renascimento de Hannah por escrito.

As meninas sempre dão um jeito
Em 2017, após assumir quem ela era, Hannah queria ver as mudanças. Ela já tinha pesquisado sobre procedimentos e medicamentos hormonais que auxiliam na transição, mas o acompanhamento médico era financeiramente inviável naquele momento.
Porém, ela já não aguentava mais se olhar no espelho todo dia e não se reconhecer, sem ver quem ela realmente era.
A transição de gênero é um processo de alinhamento com a própria identidade, que envolve mudanças estéticas e sociais, como o uso do nome social e pronomes, a retificação jurídica de documentos e, frequentemente, acompanhamento médico e hormonal. A transição é um ato essencial de saúde mental e de resgate da própria dignidade.
Mesmo sem acompanhamento médico e sem prescrição para comprar os medicamentos, começou a transição hormonal. Comprava os hormônios no mercado paralelo e os aplicava por conta própria. “É um remédio de receita, mas as meninas sempre dão um jeito de conseguir”, conta.
Ilma não compreendia bem o processo de transição, desconhecia os riscos envolvidos e sequer desconfiava que a filha estava se automedicando. Contudo, com o passar do tempo, começou a notar as mudanças físicas à medida que Hannah passava a apresentar traços mais femininos.
A consulta com um endocrinologista é fundamental para garantir uma transição segura. A automedicação com hormônios pode acarretar em uma série de riscos graves, como trombose, problemas cardiovasculares, disfunções hepáticas e renais, além de desequilíbrios emocionais severos provocados por dosagens inadequadas, segundo estudos.
Hannah sabia que era perigoso, mas queria ver os resultados da transição. Ela passou três anos aplicando os hormônios por conta própria, até conseguir realizar uma consulta com um endocrinologista no Ambulatório de Assistência Especializada às Pessoas Travestis e Transexuais do Distrito Federal, o Ambulatório Trans , em 2020.
Ao analisar os exames, o médico a alertou sobre os riscos das alterações encontradas, provocadas pelo uso inadequado das substâncias. A partir dali, ele prescreveu novos medicamentos e dosagens, permitindo que ela seguisse com sua transição de forma segura.
Uma nova vida
Ao descobrir que existia uma uma cirurgia de reafirmação de gênero, a operação virou o principal objetivo dela. Um sonho que parecia impossível, agora aparecia um norte. Mas ainda sim parecia muito distante para a jovem.
Diante disso, ela começou a juntar recursos para realizar a operação. Hannah contratou um plano de saúde na expectativa de que a empresa cobrisse parte da cirurgia, mas teve o pedido negado após acionar a Justiça.
A operadora alegou que o procedimento era meramente estético, argumento que ela rebate: “não é um processo meramente estético, a incongruência de gênero causa um sofrimento psíquico”.
A reviravolta veio pelo sistema público, onde ela conseguiu uma vaga para a cirurgia de redesignação sexual no Ambulatório do Hospital Estadual Dr. Alberto Rassi, em Goiânia (GO), pelo SUS.
Como morava em Brasília, precisava ir regularmente ao hospital em Goiânia, inicialmente, ela mesma arcava com os custos das viagens para as consultas preparatórias.
Após algum tempo, Hannah conseguiu ingressar no programa de Tratamento Fora de Domicílio (TFD) da Secretaria de Saúde, que ajudou a custear parte das despesas.
Quando Hannah foi avisar no trabalho que precisaria se ausentar por algum tempo para realizar a tão sonhada cirurgia, ela encarou de frente um daqueles receios que a assombravam antes de se mostrar ao mundo. “Vamos analisar”, foi a única resposta que obteve. Poucos dias depois, veio a carta de demissão.
Essa é uma dura realidade das pessoas trans no Brasil: a dificuldade de encontrar empregos formais. Mesmo formada em Biomedicina e fluente em cinco línguas, Hannah trabalha em subempregos.
De acordo com um estudo divulgado pelo Ipea, apenas uma a cada quatro pessoas trans exerce um trabalho de carteira assinada. Esse número diminui ainda mais quando olhamos para o recorte das mulheres trans, apenas 20,7% delas estavam no mercado formal em 2023.
Após um ano e meio de idas e vindas de Brasília a Goiânia, finalmente chegou o dia da cirurgia. No dia 28 de novembro de 2025, ela sentou na mesa fria do hospital e disse: “É agora!”

Recuperação
A cirurgia não foi fácil. Foram entre 150 e 300 pontos e uma recuperação “muito dolorosa”. No entanto, Hannah finalmente realizava o sonho de infância. Ela não dormiu e acordou mulher, como sonhava. Precisou esperar cinco dias para retirar o curativo e, só então, poder afirmar: “Agora eu sou uma mulher completa”.
Contra essa estatística cruel que o acolhimento de Ilma se fez fortaleza. Hannah conta que o apoio da mãe foi fundamental para que ela seguisse em frente. Ilma também guarda no coração uma frase dita pela filha que jamais esquecerá: “Mãe, eu enfrento o mundo inteiro se eu estiver com você”.
Por Paulo Renato Mac-Culloch
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira


