Orgulho LGBT: como a cultura ballroom torna-se espaço de proteção no DF

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Na cena brasiliense, a ball vira refúgio, pertencimento, rede de apoio e manifesto contra a exclusão. Foto: Anna Carolina de Oliveira

Para o universitário Caio Kenji, de 23 anos, a cultura ballroom não é apenas um espaço de movimento, performance, extravagância,  moda, arte, cultura, plasticidade, descoberta, diversidade e inclusão.

Dentro da vertente que exalta a expressividade e a artisticidade do movimento, Caio Kenji, que prefere o tratamento no pronome masculino, encontrou na passarela e na vivência da categoria Vogue femme (a vertente feminina) o seu próprio manifesto de libertação. Para ele, o espaço da ballroom opera uma transformação interna profunda que desafia as amarras impostas pela sociedade e expande a própria consciência sobre as capacidades humanas.

Além de tudo, seu corpo é político, é um espelho da própria construção e o entendimento das  identidades para além da binaridade de gênero.

É um manifesto vivo que transforma a estética em escudo e a dança em emancipação. 

Baile 

Para quem vê de fora, uma ball (baile, em inglês) funciona como uma mistura de desfile de alta-costura, campeonato de dança e uma festa extravagante.

Na passarela, “equipes” que disputam por suas “famílias” buscam troféus em categorias que avaliam desde a técnica dos movimentos até a postura e o figurino.

No fundo, o evento é um ritual político e afetivo, onde corpos marginalizados criam suas próprias regras para celebrar a identidade com total liberdade.

Espelho

Criada nas periferias de Nova York e imortalizada pelo olhar sensível e histórico do documentário Paris Is Burning (1990), de Jennie Livingston, a ballroom, nasceu como um refúgio essencial de sobrevivência e celebração para as pessoas LGBTQIAPN+ latinas e negras.

Na contemporaneidade, a cena pulsa com a mesmíssima essência de autodescoberta retratada no longa documental: um lugar que ensina até onde o próprio corpo pode ir, rompendo paradigmas sociais e permitindo atravessar o mundo exterior com autenticidade.

Espaço de profundidade

Em Brasília, esse impacto social expande-se de forma profunda, transformando as balls locais num polo de acolhimento.

Esse movimento cumpre o papel de descentralizar a cultura e criar redes de apoio cruciais para corpos frequentemente marginalizados na capital federal, oferecendo um espaço seguro de pertencimento em meio ao cenário árido e institucional da cidade.

“Eu acredito que ela te ensina até onde você pode ir, para além do que você acreditava que seria uma possibilidade para você”, diz Kenji.

A cultura que se idealiza por casas, conhecidas como Houses, que competem entre si e mantém, acima de tudo, um espaço permanentemente aberto ao pertencimento.

Essas famílias escolhidas competem na passarela, como duas equipes, em categorias diversas e complexas, tais como Vogue Old Way, Vogue New Way, Vogue Femme, Realness, Face, Body, Butch Queen Realness, Butch Queen Perfomance e entre outras. 

Nesses momentos de disputa, a plasticidade  representa quem são através da dança e do uso coreográfico do de uma espécie provocação artística e irônica (o shade), para garantir o tão desejado troféu e manter o espírito competitivo vivo. 

No ecossistema da ballroom, a heteronormatividade é questionada e ironizada, já que o espaço também é estruturado para a comicidade.

Para Kenji, o riso é político e como todas as expressões artísticas possíveis. 

Corpo

“Para mim, a ballroom é um lugar onde é possível se construir enquanto indivíduo e entender as possibilidades e as abrangências de performance de gênero, performance em relação ao próprio corpo e as possibilidades para além da binariedade”, explica.

Para Kenji, rasgar a passarela e dominar os elementos do estilo é um ato de emancipação tanto psicológica quanto física.

No cotidiano exato dos códigos, das telas pretas e dos algoritmos na faculdade, a pista surge como o avesso da rigidez, oferecendo a oportunidade de reescrever a própria história sem os filtros opressores do ambiente externo.

A transição entre o universo exato e a fluidez da passarela moldou sua forma de enxergar o mundo.

Sua entrada na cena brasiliense transformou a maneira como ele projeta sua própria presença nos espaços públicos da cidade.

Se antes a arquitetura monumental da capital impunha um ritmo de invisibilidade, a vivência na cultura ballroom trouxe o entendimento de que o corpo dissidente também tem o direito de ocupar o centro, onde cada movimento funciona como uma resposta política à tentativa histórica de apagar identidades não binárias.

“Na minha vivência, foi onde eu consegui me entender enquanto indivíduo e ser capaz de atravessar a sociedade com autenticidade. Eu acredito que é onde se pode quebrar paradigmas”, diz.

Essa busca por autenticidade faz com que Kenji olhe para o movimento com um viés aguçado de reflexão crítica.

Enquanto nos Estados Unidos a cultura nasceu estritamente da urgência do acolhimento habitacional e da proteção física de jovens expulsos de suas casas, no Distrito Federal o processo se deu de forma distinta.

Por aqui, o movimento começou prioritariamente através da pesquisa da dança e da técnica corporal, circulando inicialmente em grupos de dança urbana e oficinas.

Por essa origem estética e técnica, Kenji aponta para a necessidade de um amadurecimento social, político e organizativo mais profundo por parte da cena brasiliense.

Para ele, o verdadeiro papel das Houses (Casas) deve ir muito além do glamour das competições, dos troféus e dos aplausos efêmeros de uma noite de ball, alcançando a responsabilidade estrutural de se firmar como uma rede de apoio real na vida fora das pistas

“Como todo coletivo artístico, tem problemas que são muito intrínsecos e, enfim, também pela construção como aconteceu no Brasil, talvez falte um pouco de um tato, de uma questão real de comunidade, de politização, eu acredito”, explica.

Da esquerda para direita, Caio Kenji e Viper. Foto: Anna Carolina de Oliveira

Conto de Fadas de Viper

Se Kenji foca na política do corpo e na quebra de paradigmas, Viper, aos 24 anos, que expressa sua identidade no feminino, vive a ballroom como a dualidade perfeita entre o sonho e as duras exigências da sobrevivência.

Na universidade, ela estuda as estruturas que geram a desigualdade, na passarela, a vivência e  beleza que desafia essas mesmas estruturas.

Sua jornada evoca de forma imediata os dilemas e os impactos culturais retratados na narrativa da série Pose (2018).

Na produção audiovisual, testemunhamos a complexa e dolorosa dualidade entre o brilho efêmero das passarelas e as batalhas diárias contra a transfobia, a exclusão e a vulnerabilidade social nas ruas de Nova York.

Na vida de Viper no Distrito Federal, essa fricção entre a fantasia da realeza na pista e a crueza do asfalto é uma realidade constante.

“Não sei se eu pretendo voltar a caminhar agora, assim. Acho que a ballroom é muito linda e tals, mas ela também é um conto de fadas, assim. E aí tem a vida real, né? Eu preciso trabalhar, preciso terminar minha faculdade, preciso ter dinheiro também para às vezes comprar uma roupa bonita para caminhar numa ball, sabe?”, explica.

A dedicação exigida para se construir uma presença marcante na cena gera um custo alto.

O desgaste decorrente da constante cobrança por performance estética, indumentária impecável e padrões rígidos de beleza muitas vezes pesa sobre a saúde mental dos participantes.

Para Viper, a passarela necessita ser um lugar de afeto e diversão, e não um espelho das pressões excludentes que a juventude LGBTQIAPN+ já enfrenta diariamente no ambiente externo.

Por isso, afastar-se ou retornar às competições é um movimento estratégico de autopreservação.

A rotina de conciliar os estudos em Sociologia, a busca por inserção no mercado de trabalho e o cansaço do deslocamento entre a periferia e o centro de Brasília evidenciam que o direito ao sonho é disputado centavo por centavo.

Preparar um figurino para competir exige um investimento financeiro que muitas vezes esbarra no orçamento apertado de uma jovem universitária, transformando a própria presença na passarela em um ato de extrema resistência econômica e pessoal.

“Até eu me sentir mais confortável, pelo menos psicologicamente, assim… ou até a ballroom ser um espaço mais divertido, sabe? Um espaço de menos cobrança de performance, de beleza”, reflete.

Ainda assim, a crueldade da realidade cotidiana não apaga a potência mágica e ancestral que ela reconhece e defende no movimento.

Viper compreende que, para muitas pessoas que cresceram sem receber afeto, carinho ou validação do mundo exterior e de suas próprias famílias biológicas, a comunidade assume um papel terapêutico, vital e sagrado.

“Eu queria que a ballroom fosse mais acolhedora, sim, mas… sei lá. Não tem como exigir muito também de quem nunca teve carinho ou afeto. É complexo, sabe? Mas eu acho que… que a ballroom tem a semente, assim, sabe? E que elas produzem magia”, sonha.

É justamente no reconhecimento dessas dores, falhas e contradições internas que reside a força transformadora da sua história. Para Viper, a ballroom não é apenas um capítulo de sua vida, mas o alicerce insubstituível de sua própria existência, a raiz identitária que lhe deu forças para projetar um futuro e a ensinou a ter orgulho de sua própria expressão.

“Se eu sou o que eu sou hoje, se eu estou viva hoje, é graças à ballroom, assim. Porque ela também me ajudou a sonhar, ela também me ajudou a construir quem eu sou hoje, a me sentir confortável no meu jeito de ser, no meu jeito de caminhar, no meu jeito de falar com as mãos”, explica.

Ciellen, durante apresentação. Foto: Cintia Rizoli

Olhar de dentro

Ciellen é produtora, performer, Overall princess da Casa de Onijá e estudante do 10º semestre de Arquivologia na Universidade de Brasília (UnB).

Aos 28 anos, ela traz na bagagem a vivência de quem acompanhou de perto a consolidação da cena ballroom na capital federal desde 2018. 

Curiosamente, sua formação acadêmica em Arquivologia, a ciência que estuda a preservação, organização e guarda de documentos e memórias, funcionando como uma ferramenta para proteger a história de corpos que a sociedade frequentemente tenta apagar, reflete perfeitamente seu papel prático na comunidade.

Sua porta de entrada no movimento ocorreu por meio de uma oficina de Old Way no anexo do Teatro Nacional. O Old Way é uma das vertentes pioneiras de dança da cultura ballroom, caracterizado por poses simétricas e elegantes inspiradas em revistas de moda e artes marciais.

Hoje, Ciellen integra o local, coletivo no qual ingressou em 2021. No ecossistema ballroom, o conceito de House quebra a lógica da família tradicional heteronormativa, funcionando como uma família escolhida para o apoio socioafetivo e político sob a liderança de “Mães” ou “Pais” de criação. Pertencer a uma casa significa ter um sobrenome artístico, uma rede de proteção mútua para dividir as dores do preconceito e um time para competir nas passarelas.

“Para quem vem de realidades onde a rejeição é a regra, entrar para uma House e receber um sobrenome é um processo de cura. A Onijá e a ballroom me ensinaram que a nossa ancestralidade e a nossa identidade caminham juntas; nós não estamos apenas dançando, estamos construindo um escudo coletivo contra a violência do mundo lá fora”, explica.

Além de sua atuação interna no coletivo, Ciellen está à frente do projeto de extensão Vivência Ballroom UnB, que promove oficinas gratuitas e fomento cultural dentro do ambiente universitário.

“A ballroom para mim hoje é o meu trabalho, é a minha vida, é onde eu me sinto segura, onde eu sinto que eu posso criar e também dar a oportunidade para outras pessoas criarem e terem esse espaço de acolhimento”, diz.

Cena em Brasília

Por aqui, os primeiros passos foram dados a partir de meados de 2012 e 2013 com o Grupo de Estudos Hands Up, referência sobre cultura ballroom e dança urbana, que já movimentava a cultura ballroom na capital antes mesmo da formalização dos eventos.

Pioneira da cena no DF e América Latina, se oficializou como uma casa em 2015 e hoje detém o nome de “Pioneer House Of Hands Up”. 

A cena  foi oficialmente concretizada em 2016 após a Primeira Ball, a Vogueball Brasília, idealizada pelas pioneiras Icon Trailblazer Biological Overall  Founder Mother Kona Hands Up e a Traiblazer Luana.

Esse ponto de partida focado na dança e na técnica corporal moldou uma cena local de alto nível que, com o tempo, passou a estruturar seus próprios títulos e reconhecimentos de prestígio. 

A cena funciona com uma meritocracia própria baseada no respeito e no histórico de vitórias na passarela, onde os participantes se dividem em três grandes status: Star, a promessa da cena; Statement, alguém já consolidado e respeitado; e Legendary (lendário), sendo um dos patamares mais alto na hierarquia, destinado a quem tem impacto no meio; e por último, Icon (ícone): título mais alto e de altíssimo prestígio e reconhecimento. 

Finanças

A sustentação financeira das balls na capital se dá por meio de arranjos diversos, uma vez que cada casa ou organização desenvolve estratégias particulares para viabilizar os eventos. Historicamente, o autofinanciamento por meio dos recursos próprios dos organizadores era a regra geral, o que significava tirar dinheiro do próprio bolso para garantir os troféus e o aluguel dos espaços.

Contudo, a CASA DE ONIJÁ e outros coletivos locais transformaram essa dinâmica ao buscarem ativamente o fomento público e parcerias institucionais. Um dos marcos dessa ocupação é a parceria com o Mercado Sul, em Taguatinga, um polo histórico de economia solidária, cultura popular e resistência cultural no Distrito Federal.

Ao levar as balls para Taguatinga, Ciellen e seu coletivo tiram o movimento do Plano Piloto e o aproximam da juventude periférica, que mais necessita dessas redes de apoio.

“Ocupar a periferia e as universidades com as nossas balls é uma forma de dizer que os nossos corpos não precisam ficar escondidos nos guetos. A gente descentraliza a cultura para que o jovem de Taguatinga, de Ceilândia ou de qualquer RA saiba que existe um quilombo urbano pronto para acolhê-lo perto de casa”, explica Ciellen.

Acolhimento das Passarelas

A potência dessas vivência coletiva atinge o seu ápice performático na passarela, onde ambos os talentos expressam a sua plasticidade, sua artisticidade e as suas vivências de gênero por meio da categoria Vogue Femme (inserida no contexto identitário de Femme Queen).

Enquanto enfrentam as barreiras estruturais de uma capital federal que muitas vezes empurra a diversidade para as margens, esses personagens constroem pontes entre o passado e o presente.

Entre a herança de Paris Is Burning, os dramas contemporâneos espelhados em Pose e a realidade periférica do Distrito Federal, a trajetória destas duas figuras reafirma que a ballroom brasiliense cumpre rigorosamente a sua missão histórica mais nobre.

Apesar de todas as pressões por estética e das dificuldades estruturais, ela permanece sendo, essencialmente, o solo sagrado e o espaço acolhedor que gera a liberdade de ser quem se é.

Por Anna Carolina de Oliveira e Rodrigo Soares

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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