Orgulho LGBT: designer encontra na competição de queimada caminhos de pertencimento

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“Fui uma criança LGBTQIAPN+ a minha vida inteira, então não foi uma surpresa para as pessoas que me rodeavam, nem mesmo para mim”. É assim que o designer de moda Caio Maurício, de 26 anos, e morador de Taguatinga, descreve a sua infância. 

Ele nasceu em um lar sem preconceitos, que o acolheu. Caio relatou que foi até um processo “fácil”, pois tinha com quem contar nos momentos difíceis.

O brasiliense revelou também que possui uma irmã bissexual e uma sobrinha lésbica, e que teve a honra de conversar com elas sobre o assunto justamente na época que elas estavam se autodescobrindo. 

Apesar disso, ele também passou por momentos delicados. O designer conta que, no período pós pandemia, terminou um relacionamento de dois anos, e foi um time de queimada, localizado em Recanto das Emas, a 13 quilômetros da sua casa, que buscou sustento emocional.

Caio Maurício representando a sua equipe Supreme. Foto: arquivo pessoal

Queimada

Durante a pandemia, no final de 2020, o esporte foi reconhecido na capital federal através da Lei Distrital nº 6.736/2020.

Esse foi apenas o início de uma trajetória esportiva que iria levar mais de 200 brasilienses para as quadras, inclusive Caio. 

“Foi aí que eu me inseri no recorte social LGBTQIAPN+ de Brasília porque, na época, era muito escondido”.

Foi entre as 18 pessoas dentro das quatro linhas que ele se sentiu pertencido.

“Eu era mais um, igual todo mundo ali”, disse.

É na sensação de pertencimento, que vale “ouro”, segundo as palavras do mesmo, que as pessoas encontram força e segurança, além de ser “quem você é”. 

O movimento de inclusão da queimada, para Caio, é muito presente.

“Independente do financeiro, social ou sexual, o esporte cria laços, que podem ser levados para a vida inteira”, disse.

Além da parte social, Caio exaltou a parte competitiva, de amor pela adrenalina, competição e dinâmica de disputa. Esses foram os motivos dele ter continuado no esporte. 

Na quadra que ele conseguiu enxergar uma oportunidade de ser um atleta profissional, por ser um local onde ele pôde conhecer pessoas importantes, e viver a adrenalina que é competir nesse jogo, afirmando que é uma parte muito importante da vida dele.

O maior marco de sua jornada no esporte ocorreu no final de 2025, quando Caio competiu na Supercopa Brasiliense de Queimada.

Foi a primeira edição interestadual da modalidade, reunindo times de Brasília e da Bahia. O time do designer havia chegado na final após jogos intensos, ele convidou a mãe para assistir, ela estava na primeira fileira, de frente para a quadra. O resultado foi uma vitória com uma explosão de emoções.

“Quando o apito soou, foi aquele mix enorme de sentimentos. Eu lembro de sair da quadra e abraçar minha mãe. Chorei muito, foi com certeza o evento mais marcante de todos esses anos em que eu pratico esse esporte”, declarou.

Família

Mesmo o Brasil sendo o país que mais mata pessoas da comunidade , onde, segundo os dados mais recentes divulgados pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), uma morte é registrada a cada 34 horas, a vida de Caio seguiu o rumo contrário do que acontece na casa de muitos brasileiros. 

Caio convive com pessoas que não apresentaram preconceito algum na infância e adolescência dele.

Ele afirmou que sua mãe e irmãs sempre tiveram cuidado e lhe ofereceram apoio. 

Mesmo com a sorte de ter nascido em um lar amoroso e cuidadoso como esse, ele ainda possuía medos e inseguranças como qualquer jovem que está se descobrindo.

“Eu sempre fui uma pessoa muito curiosa, de saber das coisas, do que acontecia. Vi muitos casos de violência, assistia muitos vídeos a respeito de um passado que não é tão distante assim, que tava tudo bem ser extremamente homofóbico, preconceituoso, e aqueles medos existiam” declarou.

No entanto, o brasiliense confessou que o que dava segurança em meio ao caos, era a rede de apoio que tinha ao chegar em casa.

Ele completou, afirmando que sempre teve alguém com quem contar, para o defender em meio a esse momento de autodescoberta.

Caio abraçando a sua mãe após vitória. Foto: arquivo pessoal

Futuro

Após cinco anos de trajetória na queimada, Caio acredita ter alcançado um nível esportivo que o deixa satisfeito com a própria evolução.

Hoje, integrante de uma das equipes mais vitoriosas da modalidade da capital, ele olha para trás e enxerga a distância entre o atleta inexperiente que entrou em um time pequeno e o competidor que se tornou. 

“Eu sinto que cheguei hoje no ápice do esporte aqui na minha cidade”, afirmou.

Se antes a meta era encontrar um espaço de pertencimento, agora o objetivo é conquistar resultados cada vez maiores.

O designer não esconde a ambição dentro das quadras e resume suas expectativas para os próximos anos em poucas palavras: títulos, medalhas e novas competições.

Inspirado pelo lema de sua equipe, ele reforça que o pensamento é sempre buscar a vitória. 

“O Supreme não joga pra competir, ele joga pra ganhar”, declarou.

O orgulho que sente pela própria trajetória também está ligado ao esforço necessário para chegar até esse ponto. Para Caio, fazer parte de um time de alto rendimento representa o resultado de anos de dedicação, treinamento e persistência.

“O ponto que eu mais me orgulho da minha trajetória no esporte é ter chegado aqui”, conta.

Fora das quadras, os planos seguem tão ambiciosos quanto.

Caio acredita que pessoas LGBTQIAPN+ frequentemente precisam se esforçar mais para alcançar os mesmos espaços e oportunidades que outras pessoas. 

Ainda assim, prefere olhar para frente com confiança. 

O futuro que imagina para si envolve continuar trabalhando, perseguindo objetivos cada vez maiores e mantendo a determinação que o trouxe até aqui. 

“Eu tenho sonhos e referências muito grandes, então eu quero o mundo inteiro”, contou.

Para ele, a força para seguir em frente nasce justamente da convicção de que esses sonhos podem ser alcançados.

“O processo de aceitação da sociedade começa primeiro em você”, finalizou o campeão interestadual de queimada.

Por Leonardo Rodrigues e Pedro Vianna

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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