— Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas — mas que elas vão sempre mudando. — “Grande Sertão: Veredas”
Para quem observa de fora, a montagem de uma drag queen pode parecer apenas um artifício de glitter e tintas, mas, na verdade, é um processo fluido de “se-governar no se-fazer”.
Essa fluidez de identidade, apesar de muitas vezes alvo de preconceitos, não é novidade. Guimarães Rosa, em sua obra literária “Grande Sertão: Veredas”, ecoa o artista transformista na personagem Diadorim, que nascida mulher, no sertão, assumiu o couro de Reinaldo para sobreviver e guerrear em um mundo de homens brutos.
Assim como Diadorim usava sua vestimenta como armadura e forma de existência, os artistas transformistas, quando estão montados como drag queens, transformam a pele para expressar a alma.
O flautista pernambucano radicado em Brasília, Caio Handel, que hoje evoca a personagem drag Dalila, maestrina de orquestras no Distrito Federal, relembra que, em 2015, quando ainda era um estudante da UnB (Universidade de Brasília), vestiu um figurino emprestado para um ensaio fotográfico de uma amiga.
Na ocasião, montou-se pela primeira vez, sentiu-se confiante e livre para se expressar, e soube que queria fazer aquilo mais vezes.
Para Caio, a arte drag não é um estado permanente, mas uma ferramenta de trabalho e expressão que existe em potencial dentro de cada indivíduo.
Ele defende que a montagem é uma porta que todos deveriam atravessar ao menos uma vez, comparando a experiência à descoberta de um palhaço interior. Na visão dele, a arte transformista é o terreno onde o criador e a criatura dialogam sem se fundirem completamente.
“Acho que todo mundo tem uma drag queen dentro de si. Eu não sou drag, eu faço arte drag. Quem está falando com você agora é um garoto”, explica.
Múltiplas travessias
Pikineia, com o nome de registro de Edenilson de Melo, também vive sua própria travessia, marcada por migrações e perdas. Nascida no interior de Pernambuco, ela trouxe as raízes para o cerrado aos 14 anos, mas foi a morte de sua mãe, em 2011, que marcou o prelúdio para o nascimento de sua persona artística. Dois anos depois, na extinta boate Victoria Haus, nascia Pikineia, uma “criatura” que hoje, aos 13 anos de carreira, tornou-se um símbolo de acolhimento para aqueles que habitam as margens geográficas e sociais do Distrito Federal.
De acordo com ela, a Pikineia criou um elo de afeto com o povo que a abraçou após a pandemia, transformando a arte em uma forma de devolver o carinho recebido. Hoje, sua persona é pré-candidata a deputada distrital pelo PSOL.
“Eu me sinto representando a população e a periferia. Eu quero devolver para o DF o que ele fez e faz por mim até hoje. Nós [LGBTQIAPN+] somos pessoas que podemos estar lá ocupando todos os lugares para representar e cuidar do povo”, defende.
A jornada de Victor Baliane começou cedo, quando ainda era uma criança, nas peças teatrais em Itumbiara, Goiás. Aos sete anos, ele já sabia que seu lugar era sob os refletores, trocando os bastidores pelos palcos. O chamado artístico o levou para Goiânia aos 16 anos, onde ingressou no curso de Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás, ambiente que serviu de laboratório para a descoberta de sua vertente transformista.

“Estar em drag veio já na faculdade, foi como um estudo de uma disciplina. E desde então nunca mais parei”, afirma.
Quando está montado, Victor usa Baliane como nome de sua personagem. Baliane participa de shows de comédia de stand up, publica vídeos de humor nas redes sociais e faz aparições em boates pelo Brasil.
Para ele, a drag não era um plano de vida, mas se tornou uma vertente essencial de seu trabalho e de expressão política. Desde 2023, ele assumiu a direção artística do coletivo Distrito Drag, que visa propagar e difundir a arte transformista em Brasília.
Resistência e preconceito
Viver, para esses artistas, exige a coragem de quem atravessa um sertão urbano onde o perigo é constante. Caio conhece a necessidade de blindar sua “batcaverna” contra o julgamento alheio.
Para preservar a privacidade e evitar comentários da vizinhança, ele desenvolveu uma tática de sobrevivência urbana.
“Quando eu vou sair de casa montado, eu não saio dando pinta. Eu saio completamente disfarçado, como o Michael Jackson. Coloco óculos escuros, máscara, boné”, destaca.
Essa resistência também se manifesta no enfrentamento ao desrespeito cotidiano e à desinformação, que, na avaliação dele, é uma das maiores formas de demonstrar o preconceito. Handel cita, como marcante, o episódio em que, durante um desfile no carnaval, foi abordado por uma fiel evangélica que lhe entregou um bilhete de pregação. Para Caio, o gesto revelou a profunda desinformação e o despreparo da sociedade para lidar com o artista drag.

“Eu achei aquilo uma falta de respeito tão grande, a pessoa leva um bilhete como se eu tivesse numa vida da carne. A desinformação das pessoas e o despreparo para lidar com o artista drag é muito real”, declara.
Para Pikineia, a resistência é forjada no silêncio de traumas que o tempo não apaga. O preconceito que ela enfrenta vai além dos olhares de reprovação em supermercados. Ele já se materializou em um assédio físico brutal sofrido dentro de um ônibus há alguns anos. É uma dor que ela evita tocar para não reviver o terror.
“Já sofri um assédio físico dentro de um ônibus. Eu evito falar disso porque me dói muito, é assustador, é aterrorizante para mim”, diz.
Apesar das feridas, Pikineia escolhe focar no afeto que recebe como combustível para continuar. Ela entende que, embora a violência e o preconceito estejam longe de acabar, o registro do carinho e da força que as pessoas lhe dão é uma forma de provar que a existência drag também é cercada de amor.
Victor também carrega as cicatrizes físicas da intolerância. Em 2015, durante um show sertanejo em Goiânia, ele e outros amigos foram espancados por homens que os atacaram por serem homossexuais. De acordo com ele, a estrutura da sociedade já agride os membros da comunidade LGBTQIAPN+ por impor um modelo de ser, de vestir e de agir.
Entretanto, Baliane encontrou na arte drag a ferramenta para subverter essa dor. Para ele, a montagem funciona como uma alavanca que transforma o que a sociedade usa para menosprezar o corpo LGBTQIAPN+ em uma potência de enfrentamento.
“A drag, inclusive, é uma das grandes ferramentas que nós, LGBTQIAPN+, temos para nos sobressair. Usar tudo aquilo que foi usado para nos menosprezar como alavanca para encarar o mundo”, ressalta.
Origens drags
A primeira pessoa conhecida a se autodenominar drag era um ex-escravizado. Mas essa história permaneceu desconhecida por quase um século, até que o jornalista Channing Gerard Joseph redescobriu William Dorsey Swann, ou, como era chamado por amigos, “The Queen”. Nascido em 1860, Willian passou pela escravidão, liderou um grupo de resistência queer nos Estados Unidos e foi a primeira pessoa a adotar o título de “Queen of Drag”.
A origem da arte drag é tema de debate entre pesquisadores, mas um dos primeiros registros do uso do termo no sentido atual foi em 1870, quando o britânico Ernest Boulton descreveu seu ato de travestir-se como “drag”. Na época, ele foi preso por usar roupas femininas em público. Dali em diante, a prática foi empurrada para os guetos, tornando-se sinônimo de uma vida oculta e marginalizada.
Ao longo das décadas, a arte drag resistiu à marginalização e conquistou projeção internacional a partir dos anos 2000. Um dos principais marcos desse processo foi o reality show RuPaul´s Drag Race. Lançado em 2009, o programa começou tímido e com baixo orçamento, mas se tornou um fenômeno global de audiência e crítica, acumulando dezenas de prêmios Emmy.
O reality ampliou a visibilidade da cultura drag e levou ao grande público histórias e experiências da comunidade LGBTQIAPN+. O que nasceu como um ato de resistência passou a ocupar espaço na cultura pop e transformou artistas antes marginalizados em referências do entretenimento.
Veredas urbanas
O sertão de Guimarães Rosa apresenta-se como um espaço de aridez onde a dureza do ambiente impede que a vida floresça. No livro “Grande Sertão: Veredas”, o personagem Riobaldo descreve essa vastidão como um local que não concedia passagem à gente viva.
Em contrapartida, surgem as veredas: refúgios de águas claras onde os buritis oferecem frutos e frescor em terrenos hostis. Nas cidades marcadas pelo preconceito, os coletivos drags operam como essas veredas urbanas, funcionando como pontos de acolhimento onde a vida resiste e cresce.
O processo confirma que as pessoas não permanecem iguais e seguem em mudança, consolidando a trajetória que a obra define como a própria travessia.
Diadorim, personagem central de Grande Sertão: Veredas, nasceu mulher, mas assumiu o couro de Reinaldo como uma armadura necessária para existir e guerrear em um mundo de homens brutos.
Essa transformação da pele para manifestar a identidade e a alma aproxima a figura literária da arte drag, na qual a montagem opera como ferramenta de trabalho e suporte contra a marginalização no cenário urbano.
Esse processo revela que a construção da persona artística não consiste em um estado permanente, mas em um diálogo constante que permite ao indivíduo se governar enquanto se faz.
Ao se reinventarem sob a proteção da estética, os artistas confirmam a percepção de Riobaldo, de que o mais importante e bonito do “mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas mas que elas vão sempre mudando”
Nesta ideia de veredas, além dos coletivos e distritos surge também a criação de famílias. Nana Antun, a matriarca da WoW Project, assumiu o papel de “mãe das drags”após a morte do fundador da produtora, o “Daddy“.
Ela mantém viva uma família de amigos que se acolhem mutuamente, oferecendo palco e renda para quem muitas vezes não tem base ou apoio em casa.

Nossas personagens da vida real passaram por diversas dificuldades e ainda encontrarão outras pelo caminho, pois a sociedade infelizmente ainda não se demonstra pronta como um todo para quebrar com os ideais binários de gênero. Porém, como já havia escrito Guimarães Rosa:
— O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.
Por Carolina Chendes e Letícia Corrêa
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira


