Orgulho LGBT: histórias de opressão contra não-binários surgem até em portas de banheiros

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Enquanto estava trancada na cabine, o som abrupto de socos violentos contra a divisória de metal cortou o silêncio do ambiente, acompanhado de gritos que decretavam, em tom de ameaça, que ela não deveria estar ali. Gabriel Santos Pereira tinha acabado de ingressar na Universidade de Brasília (UnB) quando decidiu usar o banheiro masculino do campus Darcy Ribeiro.

Logo em seguida, um líquido foi jogado por cima da estrutura, atingindo diretamente o seu corpo. O espaço que deveria garantir o direito básico à intimidade transformou-se, em poucos segundos, em um território de vulnerabilidade e profunda exposição.

A privacidade de uma cabine fechada de metal deveria ser um dos poucos espaços de absoluta neutralidade em um ambiente coletivo, mas, sob a arquitetura rígida de Brasília, ela se tornou o cenário de uma violência silenciosa e física. Era um dia comum de aula, imerso na rotina de quem tentava se ambientar aos blocos de pilotis da instituição.

Hoje, aos 30 anos, a estudante de Licenciatura em Computação e moradora do Recanto das Emas carrega na memória o peso de um traçado que hostiliza corpos dissidentes pela imposição de barreiras físicas e invisíveis. Gabriel é uma pessoa negra cujo carisma transborda na forma suave com que gesticula as mãos bem cuidadas. Ela fala com uma inteligência articulada e trata a todos com um carinho que parece contrastar com a rigidez do asfalto que a cerca.

Gabriel Santos para um ensaio fotográfico sobre identidades Trans. Foto: Julia de Lannoy

No entanto, o tom de voz diminui sensivelmente e assume um tom de alerta ao relembrar que uma necessidade biológica básica vira, diariamente, um cálculo de sobrevivência. O trauma mudou sua postura diante da instituição de forma definitiva. “Depois dessa situação, eu passei a ter muito mais medo de ir ao banheiro sozinha”, relembra Gabriel, fixando o olhar em um ponto distante ao recordar o episódio.

Ela pontua que a insegurança moldou a própria autonomia no campus. “Passei a evitar ainda mais minhas idas, observar se estava vazio ou não e até a pedir para amigos irem comigo, me esperarem na porta, para que eu tivesse mais segurança”, desabafa. Essa dinâmica forçada transforma o espaço público em um tabuleiro de xadrez psicológico, onde dar um passo em direção a um corredor desconhecido exige uma avaliação prévia dos riscos físicos envolvidos.

A experiência traumática vivida por Gabriel nos banheiros da universidade não se desenha como um caso isolado. Notas técnicas e relatórios elaborados pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), em consonância com estudos sobre vivências LGBT do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT da Universidade Federal de Minas Gerais (NUH/UFMG), apontam que o banheiro público é mapeado como um dos locais mais hostis para pessoas trans, onde o medo de assédio verbal e da negação de acesso gera isolamento e restrição da autonomia.

A divisão rígida entre as placas de “masculino” e “feminino” nas portas dos estabelecimentos desconsidera a existência de identidades fluidas e transforma a infraestrutura sanitária da cidade em uma barreira de exclusão cotidiana, amparada por uma vigilância social ostensiva. Diante do desgaste gerado por essa constante pressão de habitar espaços que segregam, Gabriel precisou se afastar temporariamente do ambiente universitário.

“Minha experiência diária no campus não existe atualmente. Estou afastada da UnB para cuidar da saúde mental”, relata. Hoje, cursando a licenciatura após ter ingressado originalmente no Bacharelado em Ciência da Computação, ela se encontra em um limbo entre o segundo e o quinto semestre. 

“Ainda não fiz o pedido de trancamento justificado do semestre, mas vem aí”, conta, evidenciando a necessidade de dar uma pausa na rotina acadêmica para reestruturar as forças.

A capital não planejada

Para ela, a relação com a capital federal acontece de forma apartada e distante das superquadras simétricas e ricas do Plano Piloto. Gabriel pontua que a dinâmica de sua vida contorna o centro do poder. “Moro na periferia, frequento mais periferias e não vivo muito de Brasília e suas superquadras”, explica, evidenciando como a segregação geográfica do Distrito Federal aprofunda o isolamento de quem já lida com as barreiras de gênero.

Ela analisa que o planejamento original de Brasília priorizou o fluxo dos automóveis particulares em detrimento da permanência e da circulação segura dos pedestres pelas calçadas. Na crítica ao urbanismo modernista, consolidada por teóricos como James Holston em estudos sobre a utopia de Brasília, as distâncias da capital e a separação rígida de setores funcionais são apontadas como os principais fatores que geram os chamados “vazios urbanos”.

Essas áreas descampadas, marcadas por gramados isolados que separam um setor funcional de outro, transformam-se, ao cair da noite, em polos de escuridão e insegurança. Sem o movimento natural do comércio de rua e sem o fluxo orgânico de pessoas circulando a pé, a cidade planejada perde o dinamismo da convivência que garante a proteção coletiva. Quando o movimento espontâneo desaparece das calçadas, a cidade passa a funcionar apenas como um grande corredor de trânsito rápido e frio.

Para quem expressa a própria identidade de forma dissidente, esses vácuos urbanos se convertem em palcos de constante avaliação, estranhamento e vigilância por parte de terceiros. A arquitetura passa a atuar como um agente silenciador. “Muitas vezes ela parece uma cidade de passagem, onde você vai de um ponto ao outro, mas não necessariamente uma cidade que estimula encontros, convivência e construção de comunidade”, desabafa Gabriel, sintetizando a melancolia de habitar um plano que privilegia o motor em vez do afeto.

Exclusão

Essa realidade de exclusão ganha contornos científicos quando analisada sob a ótica demográfica nacional. Um estudo pioneiro publicado na Nature Scientific Reports, realizado pela Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (FMB/Unesp) em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), revelou que cerca de 2% da população adulta brasileira, o equivalente a cerca de 3 milhões de cidadãos, se identifica fora dos padrões da cisgeneridade. Dentro desse universo, a parcela de pessoas que se reconhecem sob o guarda-chuva do não-binarismo cresce em termos de visibilidade e autoafirmação.

Apesar desse contingente expressivo, o planejamento urbano tradicional opera sob a ilusão técnica de um “usuário neutro”. Desenham-se espaços públicos que atendem a uma lógica corporativa e produtiva, que historicamente prioriza as vias de tráfego rápido e desconsidera as necessidades fundamentais de permanência e segurança de corpos dissidentes e marginalizados. 

Quando o desenho das redes de transporte público ignora as dissidências de gênero e as vulnerabilidades sociais das periferias, os deslocamentos coletivos diários convertem-se nos momentos de maior tensão física e psicológica.

Isolamento

É exatamente nessa malha rodoviária exaustiva que se costura o cotidiano de Maribel Assis, de 19 anos, que enfrenta diariamente o mesmo sentimento de isolamento espacial compartilhado por Gabriel. Estudante, ela transborda uma simpatia espontânea, emoldurada por cachos volumosos e por uma constelação de piercings cheios de personalidade espalhados pelo rosto. Maribel relata a rotina pesada de quem mora no Riacho Fundo II. A jornada rumo ao campus Darcy Ribeiro consome entre uma hora e meia e duas horas dentro de ônibus superlotados, enfrentando o asfalto irregular que conecta o Distrito Federal.

O sentimento de inadequação e desconforto frente às fôrmas rígidas do mundo social começou muito cedo na trajetória de Maribel.

“Quando eu era criança, ficava meio inconformada porque tinha que ser uma menina e agir como menina”, relembra ela.

Maribel Assis. Foto: Acervo pessoal

O desabafo das memórias de uma infância marcada pelo estranhamento e pelo incômodo silencioso de não se enxergar em nenhum dos polos de gênero rigidamente impostos pelas expectativas familiares e escolares. 

O amadurecimento trouxe respostas, mas também novos desafios urbanos. Aos 12 anos, vieram os primeiros contatos virtuais com o conceito de disforia de gênero; aos 15, a consolidação interna e a certeza de que a fôrma binária simplesmente não traduzia a própria existência.

Hoje, na juventude, a vivência precisa negociar espaço a cada segundo com uma capital federal milimetricamente setorizada e racionalista, onde as estruturas e as grandes avenidas são separadas por funções econômicas estritas. 

Na lógica planejada de Brasília, os setores são divididos por funções, sem prever zonas de acolhimento ou praças de permanência livre para o que se manifesta no intervalo das calçadas. Dentro do espaço confinado do ônibus, a rotina de Maribel exige um exercício diário e silencioso de camuflagem.

Ela explica as táticas que utiliza e o preço invisível desse monitoramento corporal constante. “Eu quase sempre me ‘porto’ como o gênero que é ‘esperado’ eu não encontro dificuldades muito evidentes dentro de transporte público”, detalha. 

No entanto, ela aponta que a neutralidade é apenas aparente. “Dependendo de como estou sinto uns olhares julgando”, relata, e evidencia a constante sensação de vigilância externa que molda a postura física nos bancos do transporte coletivo.

Ainda assim, a hostilidade latente do ambiente coletivo se manifesta de forma dolorosa na memória recente, quando a violência contra os corpos trans se fez presente diante de seus olhos. Maribel revive o desconforto e a indignação ao recordar um episódio marcante dentro do transporte. “Há um tempo atrás, acho que há um ou dois meses, uma mulher trans tinha entrado no ônibus bem cheio. Dava para reparar que ela estava lá como todo mundo, mas começaram a falar dela sem motivo algum”, conta.

Covardia

A violência psicológica tomou conta do corredor de forma covarde. “Ninguém falou diretamente com ela, mas vários adjetivos pejorativos foram ditos ali. Um tempo depois que isso começou ela logo desceu do ônibus, não sei se porque tinha chegado na parada ou realmente pelo que estavam dizendo ali”, lamenta.

O relato de Maribel expõe como o preconceito restringe o direito à mobilidade e expulsa corpos das vias públicas antes mesmo que eles cheguem aos seus destinos planejados. Para conseguir sobreviver a essa hostilidade difusa que flutua pelo asfalto e pelas estruturas binárias, tanto Maribel quanto Gabriel dependem do mapeamento e da criação de uma cartografia afetiva paralela, uma rede comunitária de refúgios urbanos que existem de forma independente e autônoma e funcionam como verdadeiros “lugares-respiro” em meio à frieza do traçado projetado.

Dentro do campus da UnB, enquanto determinados prédios, blocos acadêmicos tradicionais e centros acadêmicos específicos despertam um sentimento latente de medo devido aos olhares de reprovação e estranhamento coletivo, outros territórios surgem como zonas de acolhimento seguro. 

Gabriel aponta com precisão esses eixos de proteção e convivência na universidade. “Acredito que há espaços e espaços. Há espaços mais seguros onde estou entre pessoas diversas e a espaços conservadores onde não me sinto segura”, pondera.

Apesar de existirem espaços que lhe forneçam conforto no ambiente acadêmico, ela relata o medo ao transitar por áreas mais tradicionais. “Um exemplo de lugar que me causa um pouco de medo é o centro acadêmico de agronomia, na maioria das vezes que passei lá na frente sinto olhares de estranheza pra mim e até reprovação”. Adicionalmente, ela cita o espaço da Diretoria de Acessibilidade (DACES) como outro ponto crucial onde se sente protegida dentro do campus.

Acolhimento

Fora dos limites do ambiente universitário, esse mapa de resistência cultural e sobrevivência expande fronteiras e pulsa com força justamente nos territórios onde a arquitetura do centro não dita as regras absolutas da convivência social.

Esse circuito de acolhimento ganha vida nas vozes das personagens e se desenvolve nos centros culturais independentes e nos coletivos que atuam na base das regiões administrativas: o projeto Jovem de Expressão na Praça do Cidadão na Ceilândia, a Casa Akotirene também na Ceilândia, o histórico Mercado Sul em Taguatinga e a Casa Frida em São Sebastião, além do subsolo urbano da Birosca do Conic no coração do Plano Piloto. 

Foto: Birosca do Conic/Divulgação

Gabriel destaca que essas iniciativas comunitárias e periféricas funcionam como os verdadeiros pontos de encontro da diversidade do Distrito Federal e superam as lacunas do traçado oficial da cidade.

Para ela, a união desses públicos cria dinâmicas de respeito mútuo que a própria arquitetura original tentou inibir através do distanciamento geográfico. “Acho que todos esses espaços compartilham de um público muito divertido, respeitador, tem suas próprias regras de convivência que em comum têm o respeito ao próximo e suas diferenças”, destaca Gabriel, com admiração ao reconhecer o valor dessas redes de afeto.

Ela reflete que a necessidade de buscar refúgio em ambientes específicos acabou se tornando uma imposição para a sobrevivência coletiva. “Acho que isso é tão imposto a nós que não tem muito como evitar. Eu sinto que minhas experiências de comunidade aconteceram muito mais em espaços construídos pelas pessoas do que pela arquitetura da cidade. São ilhas de pertencimento que existem apesar da lógica da cidade, não por causa dela”, afirma.

Redesenhar a capital do país sob a ótica sensível de quem habita as suas margens físicas, sociais e de gênero se apresenta como um exercício urgente de descentralização e humanização das políticas públicas de urbanismo. Quando questionadas sobre as mudanças que fariam no traçado da cidade, as personagens apontam caminhos distintos, mas complementares.

Maribel se concentra na humanização do olhar cotidiano e sugere modificações na identidade visual e paisagística das vias públicas. “Para uma melhor convivência e ser mais acolhedora eu tentaria por mais cores, não vibrantes, mas cores que fossem confortáveis aos olhares, além de fazer com que tenha mais vegetação evidente”, projeta a estudante de comunicação.

Já Gabriel desenha um urbanismo focado na justiça social e na descentralização estrutural profunda de Brasília, lugares onde as pessoas pudessem permanecer e não apenas passar. “Eu gostaria de uma cidade mais pensada para as pessoas e menos para os carros. Mais espaços públicos vivos”, defende.

A estudante argumenta que a inclusão urbana passa necessariamente pela reformulação profunda das frentes de atendimento e das estruturas sanitárias da capital. “Também gostaria que os espaços fossem pensados a partir da diversidade humana”, pontua Gabriel 

Isso inclui, para ambas, banheiros mais inclusivos, melhor acessibilidade para pessoas com deficiência, mais equipamentos culturais gratuitos nas periferias e formação das equipes de atendimento para lidar com diferentes públicos de forma respeitosa.

Para Gabriel, o fortalecimento estrutural das regiões administrativas permitiria que a população periférica deixasse de encarar o deslocamento de longas horas como uma penalidade diária para acessar os direitos mais básicos. 

Ela argumenta que as cidades-satélites precisam deixar de ser meros dormitórios e passar a ser valorizadas como centros produtores de pensamento e arte. “Uma cidade mais acolhedora seria aquela em que as periferias não fossem vistas apenas como lugares de moradia, mas também como centros de cultura, convivência e produção de conhecimento”, afirma.

A estudante sintetiza os anseios de uma geração de corpos que tensionam o concreto:

“Para mim, o acolhimento urbano começa quando a existência das pessoas diversas deixa de ser tolerada e passa a ser verdadeiramente considerada no planejamento dos espaços”.

Por Anna Greg

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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