É comum as pessoas atrelarem uma conotação negativa à mentira, ao ponto que muitos pais se “incomodarem” quando seus filhos contam “pequenas mentiras”.
Entretanto, como explica a psicóloga Jéssika de Freitas, a mentira é um comportamento “normal” e pode ser uma demonstração de “amadurecimento cerebral”.
Crédito: Maria Eduarda Barros
“É um comportamento que existe e vai continuar existindo na humanidade, tanto na fase da infância quanto entre adultos” – Jéssika de Freitas / Crédito: Arquivo Pessoal
A especialista explica que, entre os 2 e 4 anos de idade, a criança começa a aprender a diferenciar o real do irreal além da existência do “outro e do eu”. Ou seja, os pequeninos aprendem a interpretar os sentimentos alheios e a “balizar” os seus próprios em um ato de empatia.
A terapeuta ressalta que, para todo caso avaliado, é levado em consideração o contexto, mas compreende que há diversos fatores que impulsionam as crianças a mentirem como a autopreservação e até mesmo a falta de entendimento sobre algo.
“Às vezes ela vai mentir porque não quer irritar o pai, ou está com medo da punição, ou porque não sabe explicar de uma maneira melhor aquilo que estão exigindo dela”, relata a profissional.
O ambiente também é capaz de influenciar em como as crianças compreendem e lidam com o ato de mentir, e alerta aos pais.
“Não dá pra gente ficar mentindo. Tem que explicar para a criança do jeito que dá para ela entender.”
“O adulto que começa a mentir muito para a criança pode ser que gere alguma confusão para ela sobre o que é verdade e o que não é”, complementa.
Fachada de 2024 do Colégio Visão de Águas Claras / Crédito: Google Maps
Adolescência
Pode haver uma relação entre a frequência com que um indivíduo mente com a sua baixa auto-estima.
Trazendo este fator para o mundo dos jovens, a psicóloga afirma que para muitos adolescentes a mentira é utilizada como “estratégia de sobrevivência” e “adaptação” no meio social em que interagem.
Para as jovens de 15 anos, Elisa Carvalho e Ana Cecília Marques, ambas estudantes do Colégio Visão de Águas Claras, a necessidade por aceitação social já as fizeram recorrer à mentira.
“Eu sentia que eu tinha que ser muito mais legal para ser aceita por um grupo de pessoas e isso não me fez bem na época. Hoje em dia eu acho que eu reagiria diferente”, conta Elisa.
O adolescente de 16 anos, Lucas Rocha, diz que já mentiu para se encaixar em um grupo no passado e afirma:
“É uma sensação estranha porque você mente para se estabelecer em um grupo que você acha ‘maneiro’”’ e na sua cabeça você também tem que ser “maneiro” pra se estar ali. Mas na verdade você tem que ser quem você é e ser aceito ou não.”
Mitomania
A mentira também pode se manifestar fora dos padrões sociais, podendo ser “um sintoma” patológico de algum transtorno de personalidade.
A mitomania é o termo utilizado na psicologia para descrever indivíduos que mentem compulsivamente, desde de mentiras brancas, ou inofensivas, até a criação de histórias mirabolantes.
Como explica Jéssika,“a mitomania não é um diagnóstico, ela é um sintoma que a gente encontra em alguns transtornos” como narcisista, histriônico e anti-social. Mas, é possível que os pacientes acreditem, ou não, em suas próprias invenções.
Disfuncional
A avaliação da mentira como algo “disfuncional”, como descreve a profissional, é feita a partir do fim da adolescência para o início da adulta, visto que é nesta fase onde se inicia a manifestação dos transtornos de personalidade.
No caso de pessoas que sofrem do distúrbio anti-social, a mentira normalmente tem como intuito “causar no ambiente algo negativo”.
Um exemplo prático é o caso de Simon Leviev que se passava por um magnata do ramo dos diamantes para conquistar e extorquir mulheres na internet, ganhando até mesmo um filme documentário na Netflix chamado “O Golpista do Tinder”.
Tratamento
Mas se enganam aqueles que acham que não há tratamento para os mentirosos compulsivos.
De acordo com Jéssika os tratamentos para os sintomas da mitomania seriam terapia, medicação, e acompanhamento psiquiátrico utilizados para “monitorar e ver se há alguma melhora”.
Porém admite que tratamento é algo difícil porque normalmente são pacientes que não buscam de maneira espontânea a psicoterapia ou outros tipos de ajuda psicológica, principalmente pelos transtornos já existentes.
Na ficção
A mentira compulsiva também é retratada em muitos filmes, séries e documentários famosos.
Alguns exemplos que valem a pena dar uma conferida são: “Inventando Anna”, que retrata como Anna Delvey se passava por uma herdeira alemã para extorquir a alta sociedade nova-iorquina e “O Mentiroso”, que fala sobre um advogado mentiroso compulsivo, que não apenas usa mentiras para ganhar casos no tribunal como também mente para seu filho e ex-mulher repetidas vezes, todos disponíveis na Netflix.
Já um caso brasileiro que ficou muito famoso foi o do Marcelo Nascimento que se infiltrava nas festas da high society brasileira dizendo que era o herdeiro da Gol.
Sua história foi contada em um filme documentário chamado “VIP’s: Histórias Reais de um Mentiroso”
Por Maria Eduarda Barros e Maria Paula Valtudes
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira