Primeira senadora negra do Brasil, Laélia de Alcântara, em 1981, assumiu o cargo como suplente do senador Adalberto Sena, pelo PMDB do estado do Acre. No ano seguinte, com o falecimento de Adalberto, Laélia assumiu como titular no Senado, onde defendeu causas como o combate ao racismo, defesa da equidade de gênero e luta pela democracia.
Natural de Salvador (BA), Laélia nasceu em 7 de julho de 1923. Aos 26 anos, formou-se na Faculdade de Ciências Médicas do Estado do Rio de Janeiro. Além do pioneirismo político, Laélia também deixou sua marca na medicina ao ser a primeira mulher médica a trabalhar no estado do Acre.
Senado
A senadora, que se definia como “mulher, médica, parlamentar e, principalmente, brasileira”, defendeu causas nobres como os valores democráticos, a igualdade de gênero e a luta contra o racismo e proclamou discursos essenciais para a sociedade e política brasileira.
“Não vejo razão para que os senhores senadores da situação tenham tanto medo de votar num projeto que fala por si só numa democracia, mas numa democracia verdadeira, em que o povo terá sua vez de falar, e não numa democracia forjada” – Laélia de Alcântara.
Além da defesa da democracia, Laélia também incorporava a promoção da equidade de gênero.
“A necessidade de se estabelecer uma igualdade efetiva entre o homem e a mulher só se manifestará quando ambos tiverem, de fato, direitos iguais, e isso só se conseguirá com a supressão da discriminação salarial, da discriminação educacional e de tantas outras que estão impedindo a tão necessária incorporação da mulher na produção econômica, nas artes, nas ciências, na política” – Laélia de Alcântara, em 08/03/1982 (Dia Internacional da Mulher).
Ainda em 1982, um grande feito que contou com a contribuição de Laélia, permitiu que mulheres pudessem pilotar aviões na Força Aérea Brasileira (FAB) e estendeu a elas a possibilidade de alcançarem cargos superiores na Aeronáutica, como os postos de tenente-brigadeiro, major-brigadeiro, brigadeiro e coronel.
Como primeira senadora negra, Laélia proferiu discursos necessários em busca da luta contra o racismo e em favor da igualdade social.
“Os negros têm tudo para furar a barreira da penúria e da estagnação. Já é tempo de não mais se situarem nos pontos mais críticos dos gráficos, nos índices mais medíocres das estatísticas, nos parágrafos mais soturnos dos relatórios e nos segmentos mais inferiores das pirâmides. A massa de negros em nossa terra não permaneceu de braços cruzados diante da escravidão. Ela reagiu por todos os modos e como pôde. Protestou por meio de quilombos, fugas, rebeliões e até crimes cometidos contra senhores e feitores. Foi sempre altivo e continua a sê-lo. É um erro histórico dar à escravidão brasileira o aspecto de falsa suavidade. O negro é um insubmisso diante de toda forma de arbítrio e opressão” – Laélia de Alcântara.
Segundo a seção Arquivo S, uma parceria entre Agência Senado e Arquivo do Senado, documentos históricos revelam que a senadora Laélia de Alcântara também solicitou ao governo o combate à fome e ao trabalho infantil, a garantia dos direitos às pessoas com deficiência, a preservação do meio ambiente, a demarcação de terras indígenas e o oferecimento de serviços gratuitos de saúde a toda a população, em período anterior à criação do Sistema Único de Saúde (SUS).
Mulheres no Senado
Ainda no Brasil Império, a Princesa Isabel se tornou a primeira mulher senadora do País. João Daniel Lima de Almeida, historiador e mestre em relações internacionais, explica que, por ser regente do Brasil nas viagens de seu pai, Dom Pedro II, a Princesa Isabel era automaticamente a chefe do Senado pela Constituição.
“Embora a Constituição Brasileira fosse omissa em relação a esse tema, e na prática mulheres não tivessem vida política, por ser regente da Família Imperial a princesa acabou não necessariamente exercendo o cargo, mas formalmente sendo a presidente do Senado”.
Eunice Michiles foi a primeira mulher eleita a ocupar uma cadeira na casa, em 1979. Natural de São Paulo, Eunice entrou para o congresso como representante do estado do Amazonas por ocasião da morte do titular da vaga, João Bosco de Lima. No dia da posse de Laélia, a senadora estava presente ao lado de deputadas para prestigiar a chegada da primeira senadora negra do Brasil.
Por Fernanda Ghazali, Maria Eduarda Lima e Ana Tominaga (texto e vídeo)
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira