Sede do festival em setembro e ameaçado por falta de recursos, Cine Brasília é mais do que uma sala de exibição

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O Cine Brasília, Patrimônio Mundial da Humanidade e fundado no dia seguinte da inauguração da capital (22/4/1960), abriga o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (a partir do dia 11) e chegou a ser ameaçado por falta de recursos. No entanto, tem um significado afetivo para a cidade que vai além da exibição de filmes. 

 

Por Mariah Mergener/Agência Ceub

Papel formador 

A diretora de arte Bárbara Augusto, de 29 anos, que é produtora cultural, recorda que sua história com o cinema começou antes de sequer cursar a faculdade de cinema. Ainda jovem, escolhia a sala para assistir aos filmes que dificilmente encontraria em outros lugares. 

Para ela, a importância do cinema vem justamente por ser o único da capital e exercer um forte papel na formação de público e na circulação do cinema. 

Assim, segundo Bárbara, se torna um espaço onde filmes que estão fora da rota comercial conseguem chegar ao público e onde novos cineastas também encontram oportunidades para apresentar seus trabalhos. 

“Uma sala de cinema não é apenas um lugar para assistir a filmes, é um espaço de encontro, descoberta e formação cultural”, afirma a diretora de arte.

“Uma pessoa vale uma sala de cinema”

Bárbara Augusto também lembrou como o fechamento do cinema de rua em 2024 impactou a população, quando então, surgiu o projeto “Cinema no Olho da Rua”. 

O coletivo surgiu a partir da ideia da Alice Godoy, produtora cultural, de realizar projeções na porta do cinema como forma de protesto. Era formado por Bárbara Augusto, Raphael Homar, Alice Godoy e Lara Alves.

Projeção dos filmes realizada pelo “Cinema no Olho da Rua”. Foto retirada do instagram do projeto “Cinema no Olho da Rua”. 

A produtora cultural afirma que a possibilidade de fechar o cine não é apenas deixar de ter uma sala de exibição, mas perder um lugar de encontro, de formação de público e de contato com filmes que muitas vezes não chegam aos grandes circuitos comerciais.

Ela também compartilha que esse ato não afeta apenas a população, mas também os próprios produtores de cinema em Brasília, porque o cinema de rua é uma importante janela para que realizadores locais e novos cineastas possam apresentar seus trabalhos ao público.

“O Cine Brasília é praticamente um monumento cultural da cidade, parte da memória e da identidade de Brasília. Por isso, quando ele fecha, não perdemos apenas uma sala de cinema, mas um espaço cultural que pertence à própria cidade e aos seus habitantes”, destaca a cineasta. 

Uma tela, muitas histórias. 

Mais do que uma sala de cinema, o Cine Brasília representa um espaço de preservação da memória e de valorização da produção audiovisual brasileira e brasiliense. 

Para o cinéfilo Anderson Lopes, de 34 anos, formado em Audiovisual, o local também possui importância na formação de estudantes e profissionais que estão entrando no setor.

Segundo Anderson, um dos diferenciais do Cine Brasília é oferecer espaço para produções que nem sempre chegam ao circuito comercial. 

“Ele é muito importante porque é a preservação da memória do cinema brasileiro e também do cinema brasiliense”, afirma. 

Para ele, o fato de o espaço não estar dentro de um shopping também contribui para aproximar o cinema do público e ampliar o acesso às obras.

Foto: arquivo pessoal, Anderson Lopes

Formação e experiência no audiovisual 

Essa relação com a formação audiovisual também faz parte da trajetória de Anderson. Durante a graduação, ele participou da produção do curta-metragem Colorirá, exibido no Festcine, festival universitário realizado dentro do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. 

No projeto, atuou como diretor de fotografia e participou do desenvolvimento do roteiro e da edição.

O filme aborda a história de uma garota negra que, diante do racismo e do preconceito na escola, deseja alisar o cabelo. Para Anderson, ter o trabalho exibido em uma tela de cinema foi uma experiência marcante.

“Chamei meus pais, minha família para ir ver e fiquei: ‘Nossa, meu filme vai passar numa tela grande, numa tela de cinema”, conta.

Além da experiência pessoal, Anderson destaca a função do Cine Brasília no acesso à cultura. Para ele, o audiovisual não se limita ao entretenimento, mas também pode contribuir para a educação e para a reflexão sobre a realidade. 

Arquivo pessoal, filme “Colorirá”

Os desafios do financiamento 

A importância do espaço também ficou evidente durante os recentes problemas relacionados aos repasses financeiros, que geraram preocupação entre profissionais do setor.

Embora o Cine Brasília não esteja mais sob ameaça de fechamento iminente, Anderson considera que o episódio mostrou a necessidade de tratar a cultura com maior atenção. Para ele, a repercussão negativa da situação foi importante para que as atividades tivessem continuidade.

Na avaliação de Anderson, investir no audiovisual também significa movimentar a economia, já que uma produção cinematográfica envolve profissionais de diferentes áreas.

Por isso, defende que a cultura não seja colocada em segundo plano pelas administrações públicas.

Para o produtor, preservar espaços como o Cine Brasília significa garantir não apenas a exibição de filmes, mas também o acesso da população à cultura e a oportunidade para que novos profissionais produzam e apresentem seus trabalhos. 

“A cultura é um direito de toda a população, de ter acesso à cultura, de produzir cultura também”, conclui. 

Os jovens brasilienses

Não é apenas a população madura brasiliense que frequenta o Cine Brasília, muitos dos jovens da capital candanga passam suas tardes no cinema de rua da cidade. 

A universitária Mariah Mergener conta que começou a frequentar o Cine após sua reabertura, quando sentiu o desejo de assistir filmes sozinha fora de casa, mas por um preço que uma adolescente poderia pagar. 

A estudante acredita que o maior atrativo do cinema de rua é a curadoria de filmes, que dificilmente se encontra em outros cinemas. Além de ser um pilar cultural importante não só para a capital. 

“Eu consideraria um pilar cultural muito mais do que só de Brasília, temos na nossa cidade um lugar com o título de Patrimônio Mundial da Humanidade que exibe produções independentes, o que faz dele um símbolo de resistência cultural também”, afirma Mariah. 

Mariah Mergener e amigos no Cine Brasília. 

Uma relação afetiva

Para a cineasta brasiliense Maria Luiza Mesquita da Rocha, 21 anos, a relação com o Cine Brasília ultrapassa a experiência de assistir a um filme. Para quem pretende construir sua trajetória dentro do audiovisual, o espaço também representa uma conexão com a própria história do cinema na capital.

A cineasta destaca que a importância do Cine está, também, na possibilidade de encontrar ali uma programação diferente daquela oferecida pelas grandes redes. A variedade de produções brasileiras e independentes faz do espaço uma alternativa para quem busca obras que dificilmente ocupam as telas comerciais.

Mas é na relação afetiva com o lugar que sua fala ganha outro peso.

“Pra mim, como estudante de cinema, seria uma facada no peito ver um lugar que eu considero como minha segunda casa fechar suas portas assim”, ressalta Maria Luiza.

Um patrimônio vivo

Na visão da cineasta, uma eventual interrupção das atividades do Cine Brasília não representaria apenas a perda de uma sala de exibição. O impacto alcançaria também a relação que diferentes gerações construíram com o espaço e com a produção audiovisual que passa por suas telas.

Maria Luiza chama atenção ainda para a dimensão política desse debate. Para ela, as dificuldades enfrentadas pelo Cine e pela cultura do Distrito Federal não devem ser vistas como acontecimentos isolados, mas como sinais da necessidade de maior participação da população na defesa desses espaços.

Em um cenário de incertezas, ela acredita que frequentar o cinema também é uma forma de preservá-lo. Ir às sessões, conhecer sua programação e compartilhar sua história seriam maneiras de manter o espaço presente na vida da cidade.

“Temos que cuidar do que é nosso agora, pra não perder mais um cinema de rua no futuro”, afirma.

Para Maria Luiza, o Cine Brasília permanece como um símbolo de resistência cultural. Ela acrescenta que, mais do que conservar uma construção ou uma sala de projeção, defender sua permanência significa garantir que Brasília continue tendo um lugar onde diferentes histórias possam encontrar uma tela e um público.

Saiba mais sobre o cinema

Por Duda Barreto, Vitória Secundo e Lia Ribeiro

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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