Ao menos 15 dos 27 cursos da Universidade de Brasília (UnB) relacionados à engenharia, exatas e física têm, pelo menos, três vezes mais homens matriculados do que mulheres. Os números são do anuário estatístico da própria instituição. Apesar das diferenças, os dados históricos mostram que essa proporção já foi maior. Levando em consideração a partir de 2012, pelo menos 8 desses 15 conseguiram diminuir a razão.

Esses resultados, no entanto, não assustam meninas que estão determinadas a conquistar seu espaço no campo e, para isso, estão dispostas a enfrentar todos os preconceitos que um ambiente majoritariamente masculino proporciona. Uma dessas jovens é Catarina Claudino, de 19 anos, que está no terceiro semestre de engenharia automotiva.
Ela explica que já chegou a fazer matéria em turmas com quase 10 vezes mais homens. “Já fiz matéria em uma turma com 120 alunos e entre eles éramos 17 meninas. Semestre passado fiz uma matéria com umas 50 pessoas e éramos umas cinco ou seis no máximo”, lembra.

Ela identifica que tinha interesse por automóveis desde criança. “Quando eu era pequena ficava doida pelos carrinhos de brinquedo, mas ninguém queria dar um carrinho para uma menina e meus vizinhos não me deixavam brincar com os deles”.
Uma das inspirações para a carreira veio do pai, que é engenheiro civil. Para ela, o apoio dado pela família, desde criança, foi fundamental para a escolha “No meu aniversário de oito anos, meu pai me deu um carrinho enorme de controle remoto e, enquanto ele assistia a corridas de Fórmula 1, eu ficava do lado desmontando o carrinho para saber como funcionava e se era parecido com o que mostrava na televisão”.
Catarina entende que um dos principais motivos de tão poucas mulheres se interessarem pela área pode ser a falta de professoras nesses cursos. Ela considera que os professores, algumas vezes, são machistas. “Quando eu tento corrigir alguma coisa que eu penso estar errada ou faltando algo, eles pedem para o homem mais próximo verificar se a conta está certa. E algumas vezes quando fui tirar dúvidas, o professor não me deu atenção direito, mas o próximo aluno que foi perguntar algo passou 15 minutos com esse professor.”
Progresso
Outro curso com grande diferença entre alunos homens e mulheres é o de engenharia mecânica. Em 2012, o número de homens matriculados chegou a ser nove vezes maior e foi diminuindo até chegar a seis vezes mais em 2016. Essa redução, segundo alunas, ajudou a melhorar o ambiente geral, mas ainda há mais coisas para melhorar. “Assim que entrei na universidade me senti excluída em áreas como o CA, aí acabei parando de frequentar. Voltei a ir semestre passado e melhorou bastante”, relembra Amanda Collusso que cursou até o 6º semestre de mecânica e trocou para engenharia de produção por, segundo ela, não ter se adaptado muito bem.

A estudante Karoline Louize, 22, do 7º semestre, conta que nunca sofreu com machismo, mas relata que colegas de semestre anteriores tinham problemas. “Elas eram vítimas de assédio e de gente falando: ‘O que você está fazendo aqui?’ ‘Engenharia mecânica não é lugar de mulher’ e coisas assim.” A relação com os professores também é cautelosa. Segundo ela, o melhor é evitar intimidade. “Têm uns professores com fama de outros interesses e eu fico bem receosa e evito ao máximo de me aproximar. Quando eu me aproximo para fazer uma pergunta, sempre procuro ficar do lado de um amigo, porque eles (os professores) ficam mais intimidados. Tem muito professor que tem fama de dar ponto só porque é mulher, só porque tem peito grande e coisas assim.”
“Acolher vítimas”
Questionada sobre quais as medidas que a Universidade toma para evitar casos como os citados na reportagem, a assessoria de imprensa da UnB respondeu com uma matéria produzida por eles no dia da mulher. A matéria cita as políticas institucionais da instituição que, por meio da Coordenação do Direitos da Mulher, tem tentado promover debates, ações de educação e conscientização; fomentar e formular políticas para mulheres; atender e acolher mulheres vítimas de violência.
“Sala correta?”
Apesar de as faculdades particulares não disponibilizarem anuários tão completos como o da UnB, as mesmas diferenças acabam se aplicando a elas. Izabela Ramos, 30, está no 5º semestre de Ciências da Computação e no período dela tem apenas mais uma mulher.

Por conta do pequeno número de alunas no curso, ela conta que já até perguntaram se ela estava na sala correta. O estágio em um órgão público também não apresenta ambiente menos incômodo, principalmente por ela ser a primeira mulher estagiária do local. “Eles (os colegas de trabalho) se esquecem de que tem uma mulher ali. Além disso, existe assédio, como uma oferta de carona insistente ou como perguntas inadequadas ou ainda como convites com segundas intenções. De alguns colegas mais próximos no trabalho, existe muito respeito, mas partindo das outras coordenações que são da mesma secretaria, costuma ser bem desagradável.”
Por Matheus Garzon
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira