Marcas do isolamento: efeitos da pandemia geram impacto na aprendizagem para crianças

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Tiago, de 8 anos de idade, não consegue hoje segurar corretamente o lápis. A mãe, Milena Bellinello, acredita que o problema pode ter se relacionado ao período da pandemia, quando deveria ser desenvolvida a coordenação motora. Os outros dois filhos, Bruno, de 13, e Fábio, de 9, também viram a pandemia mexer com a aprendizagem.

Foto: acervo pessoal

“No caso de Tiago, quando ele começou a desenvolver essa habilidade, não tinha uma professora de olho para orientá-lo”, lamenta a mãe. A pandemia foi seguramente o período mais tumultuado na casa deles. “Quando a criança está presencialmente na escola, tem a equipe, a coordenadora, a pedagoga. A professora precisa olhar para as crianças e perceber quais precisam ou não de ajuda”, diz a mãe, que é servidora pública em Brasília.

Mais escolas fechadas

O Brasil foi um dos países com o maior tempo de escolas fechadas, com uma média de 279,4 dias em 2020. É o que aponta a pesquisa “Desigualdades e impactos da Covid-19 na atenção à primeira infância”, publicada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em 2022. 

De acordo com o estudo, o fechamento das escolas e a transição para o ensino remoto prejudicaram severamente a aprendizagem dos alunos. Estima-se que crianças em idade escolar perderam, em média, o equivalente a sete meses de aprendizado em matemática e seis a sete meses em linguagem. 

O ambiente escolar impacta o desenvolvimento das crianças de forma multidimensional, pois atinge as esferas acadêmica, física, mental e social. É fundamental que uma pessoa em formação tenha acesso a espaços de convivência e estímulo. É o que explica a pedagoga e diretora de escola, Vanessa Araújo. 

Na primeira infância, se desenvolve interação. Foto: Beatriz Vasconcelos

“As crianças aprendem a partir das interações com o meio. A escola proporciona uma rotina e auxilia na construção de hábitos e organização. Tarefas cotidianas como abrir a lancheira, brincar com massinha e pintar possuem intencionalidade pedagógica e contribui para a autonomia e independência das crianças”, afirma Vanessa. 

Plasticidade

Na primeira infância, o cérebro possui alta plasticidade, sendo moldado pelas experiências e interações. De acordo com o estudo “Repercussões da pandemia de Covid-19 no desenvolvimento infantil”, produzido pelo Núcleo Ciência pela Infância (NCPI), espaços de convivência estáveis ajudam a prevenir o estresse; satisfazer necessidades psicológicas como a sensação de pertencimento, a competência e a autonomia; e evitar distúrbios. 

A terapeuta Mônica Rayssa explica os impactos do isolamento social no crescimento das crianças. “Quando a gente tem uma criança em isolamento, a gente tende a ter restrição de estímulos. Quando essa restrição acontece, seja de estímulos sensoriais, cognitivos, comportamentais… a gente vai tendo também uma diminuição de processos e aquisição de habilidades básicas do nosso dia a dia”, afirma. 

Atraso na comunicação

A ausência de ambientes de interação durante a pandemia demonstrou o quanto o estímulo social é importante para o desenvolvimento na primeira infância. Dados publicados pela Epic Research em 2023 apontaram que crianças que ficaram privadas desses espaços apresentaram um aumento de 87,8% na probabilidade de diagnóstico de atraso na fala. 

De acordo com a fonoaudióloga Michelli Cristina Ferreira, a maior necessidade que existe para o desenvolvimento da linguagem é o contato com o outro. “A fala e a linguagem se dão por necessidade. Então uma criança precisa do outro para que a linguagem dela tenha sentido. Automaticamente, a partir do momento que as pessoas não puderam mais estar próximas umas das outras, foi extremamente prejudicial porque aquela criança que ainda não falava, não tem os modelos de fala, nem o interlocutor para ela interagir”, explica. 

A pedagoga relata que teve esse exemplo dentro de casa. “Eu tive o meu segundo filho durante a pandemia. Espera-se que uma criança consolide a linguagem até os três anos de idade. Mas eu fiquei preocupada, porque com dois anos e meio, ele praticamente não falava”, conta Vanessa. 

A pesquisa da Epic Research (denominada “Cosmos Study”) ainda apresenta que a taxa média de diagnósticos de atraso na fala subiu de 9% das crianças em 2018 para 11,8% no último trimestre de 2021, e atingiu 16,9% no primeiro trimestre de 2023. 

Infância digitalizada

Foto: Wikipedia Commons

“A base do desenvolvimento da linguagem é a interação social. Na pandemia, a opção que muitos pais tinham era dar telas para distrair a criança. Ela recebia uma tela na mão e  passava horas naquele contexto. Obviamente isso tudo trouxe uma diminuição da interação social”, explica a fonoaudióloga. 

Uma pesquisa produzida pela revista Global Pediatrics analisou dados de 91 estudos, que incluem 37 países, sobre o tempo de uso de tela antes e durante a pandemia. O estudo revelou que antes da pandemia, crianças de até 5 anos gastavam, em média 1,91 hora por dia em telas e, durante o período, o número subiu para 2,65 horas diárias. 

Com menos possibilidades para interação social e brincadeiras, a exposição às telas se tornou algo inelutável entre as crianças que já estudavam. “Os meninos antes quase não tinham acesso às telas, mas depois da pandemia foi inevitável porque até as aulas eram on-line”, conta Milena. 

De acordo com o estudo da Global Pediatrics, crianças de até 5 anos que utilizam telas por mais de 2 horas diárias têm um risco 7,7 vezes maior de atender aos critérios para Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade. 

A terapeuta comenta sobre as consequências do uso excessivo das telas na primeira infância. “Com o uso de tela a gente vê um agravo maior dentro de características como atenção diminuída, o tempo de espera menor, comportamentos estereotipados, habilidades sociais dificultosas”, explica. 

Apesar de ter liberado mais as telas na pandemia, Milena afirma que atualmente o uso dos aparelhos eletrônicos entre as crianças é controlado. “Durante o isolamento, flexibilizamos porque não tinha muito para onde fugir, mas atualmente limitamos o uso. Incentivamos as crianças a brincarem com outras atividades para não usar o celular ou assistir televisão, porque sabemos que existem riscos”, diz. 

Marcas que ficaram

“Quando as crianças voltaram pra escola, os professores notaram muitas com medo de saltar, subir escadas e até mesmo correr, já que essa atividade não era estimulada dentro de casa durante o isolamento”, conta a pedagoga. 

Os efeitos pós-pandêmicos nas crianças afetam desde o desempenho escolar até a saúde física e mental. A terapeuta relata que a tolerância das crianças mudou drasticamente depois desse período.

“A gente percebia um tempo de espera reduzido, um limiar de frustração muito baixo e também a questão de brincar. As crianças não sabiam o que era um brincar funcional, chutar uma bola, pegar um carrinho, andar com um carrinho. Elas não sabiam como fazer”, comenta Mônica. 

Mesmo seis anos após a pandemia, algumas características adquiridas na época ainda permanecem com os pequenos. O tempo de concentração está menor, a irritabilidade maior e a frustração causa mais incômodo. A educadora conta que muitas dinâmicas escolares tiveram que ser adaptadas depois do período de isolamento social. 

“O planejamento precisou ser reinventado para poder alcançar todos os estudantes, precisou ser revisto com estratégias diferentes para cada grupo, pensando nos alunos que não tinham pré-requisitos sem desprezar quem já tinha avançado. Até hoje o planejamento segue adaptado, nunca voltou a ser como era antes da pandemia”, relata Vanessa.

Chegada tardia à sala de aula

Crianças que passaram pela pandemia precisam ser estimuladas. Foto: Bruna Teixeira


Segundo o estudo da Unicef, a pandemia de Covid-19 provocou uma redução expressiva nas matrículas e na frequência escolar, especialmente na educação infantil, o que resultou em muitos casos de crianças iniciando sua trajetória escolar com atraso ou pulando etapas fundamentais. 

De acordo com a pesquisa, entre 2019 e 2021, houve uma diminuição de quase 338 mil matrículas em creches no Brasil. 

A inserção tardia das crianças nas escolas impactou muito no desenvolvimento das crianças, principalmente quando comparadas àquelas que já tinham vivência escolar. “Imagina uma criança de quatro anos sendo inserida na escola, mas só ela está vivendo a primeira experiência escolar, todas as outras já estão acostumadas com o ambiente. Tem muita diferença na forma de se comportar”, ressalta Vanessa.

Antes da pandemia, a criança com 2 anos já estava sendo inserida na escola. “Depois desse período, os pais começaram a esperar mais tempo para colocá-las nessa rotina escolar. Com isso nós estamos percebendo um nível de adaptação muito mais dificultoso”, afirma a terapeuta. 

Milena conta que os filhos pediam para voltar a escola e ficaram empolgados para retornar às aulas. “Nenhum ambiente ensina tanto quanto a escola. Quando o colégio apresentou as medidas de prevenção não pensamos duas vezes em mandar as crianças para a rotina”, diz. 

A Unicef indica que as taxas brutas de matrículas na educação infantil caíram entre 2019 e 2021, tanto na creche quanto na pré-escola. Nas creches, a retração foi de 2,8 pontos percentuais, o que significou a diminuição de quase 338 mil matrículas no período.

“Eu sentia muita falta dos meus amigos, eu gosto de estar com eles. Quando soubemos que as aulas iam voltar foi a melhor felicidade, porque eu ficava em casa, sozinho, às vezes até trancado demais”, conta Bruno. 

Por Beatriz Vasconcelos e Bruna Teixeira
Sob supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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