Planaltina: a volta à escola onde 40% desistem

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“Tudo bem, as pessoas me criticam: ah, uma velha com 40 anos voltar a estudar. Eu ouvi isso dentro da minha casa. Quem está voltando para pagar mico sou eu. Se for para pagar mico, quem vai pagar sou eu. Eu conheço gente que se formou agora, com seus 80. E eu acho a coisa mais linda, eu acho que não é idade”, diz Zoraide Simone Barros (na foto ao lado), 40 anos, aluna do nono ano, antiga oitava série.

Mãe de nove filhos, Zoraide não deixa de faltar a aula um dia sequer em razão do seu grande desafio e sonho: tornar-se advogada, além de se formar em Psicologia e Pedagogia. “Eu quero uma coisa melhor para mim. Voltei e voltei com garra, com gosto. Eu voltei para arrebentar. Para me tirar daqui de dentro, só Deus. Agora, o ser humano não me para”, declara.

Juntamente com os estudos, Zoraide divide as contas em casa com o marido, pedreiro, por meio dos seus serviços de manicure e de recepção em eventos. “Dinheiro eu não tenho. Tenho nove filhos, não tenho trabalho, não tenho emprego. Vivo do que me viro, faço meus bicos, dou um jeito. Não fico esperando ninguém”, revela.

Quando os filhos vão mal na escola, fica indignada. “Eu estou fazendo uma coisa para mim agora. É o que eu digo para eles: se um ladrão vem e te rouba, leva tudo seu. O que ele não vai te tirar? O estudo. Isso você leva para o resto de sua vida. A tua inteligência não vai para ninguém. ”, relata.

REALIDADE

“Na verdade, minha esposa insiste comigo para eu fazer outros cursos. E eu tenho essa vontade. A questão é que o trabalho e a igreja atrapalham um pouco o tempo, ficando, para mim, corrido fazer outros cursos e continuar a estudar”, diz o gari José Antônio Vieira, 48 anos. Ele parou de estudar no sétimo ano do ensino fundamental, antiga sexta série, mas pretende completar o ensino médio e alcançar uma melhor profissão.

Ao contrário de Zoraide na escola, a realidade do nível de escolaridade de José é igual a de Domingo Amâncio da Silva, 55 anos. “Eu estudei até a quarta série e parei por causa da gente ter trabalho. Aí tive que largar o estudo para começar a trabalhar e não teve jeito. Por agora, não tenho interesse não, eu já estou de 60 anos quase”, diz o funcionário do Ibram.

A vendedora Tereza Santos Maciel, 56 anos, parou de estudar no 9º ano. “Parei de estudar em 1981. Mas não conclui o resto. Não tive oportunidade de concluir, porque me casei, tive filho e não tive ninguém para cuidar. Agora, eu tenho 56 anos e não sei se quero continuar a estudar”, conta. Alexandre dos Santos, 67 anos, aposentado, frequentou seis meses a escola. “Porque não compensa, até emprego já está difícil para os estudados, piorou para quem não tem estudo”, diz

Quase a metade

40% é uma porcentagem significativa. No mundo, é o índice da população afetada pela escassez de água e dos adultos que nunca ouviram falar de mudanças climáticas. No Brasil, representa pessoas que não sabem usar medicamentos corretamente e crianças vítimas do fumo passivo. No Distrito Federal, corresponde aos deslocamentos feitos por carro em Brasília e ao aumento do valor das passagens de metrô e ônibus. Em Planaltina, 40% é o percentual da população que não concluiu o ensino fundamental.

Assista a reportagem

É o que mostra a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD) de 2015. A região administrativa mais antiga do DF tem 39,43% de seus habitantes nesse nível de escolaridade e, apenas, 5,78% possuem ensino superior completo. Em Brasília, praticamente o mesmo percentual (42,60%) representa aqueles que já alcançaram o diploma de graduação.

ENSINO

“São os alunos que já foram reprovados por várias vezes aqui durante o dia. A escola não tem mais aceleração, aqueles blocos para incluir esses alunos. A gente recebe também os que vêm de fora, que passaram muitos anos fora da escola”, esclarece a vice-diretora, Marilene Alves, do Centro Educacional Condomínio Estância III, sobre o perfil dos alunos da Educação de Jovens e Adultos – EJA.

Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB, para concluir o ensino fundamental pela EJA, a idade mínima é de 15 anos; para terminar o ensino médio, 18 anos. De acordo com a Secretaria de Educação do Distrito Federal – SEDF, das 64 escolas públicas em Planaltina, 11 possuem a EJA. E ainda diminui, pois apenas quatro oferecem o terceiro segmento que permite o aluno finalizar a última etapa da educação básica: o ensino médio.

Uma delas é o Centro Educacional Condomínio Estância III, escola com o maior número de alunos matriculados na EJA, 642, conforme o Censo Escolar divulgado em abril pela SEDF. Neste semestre, a escola adotou uma nova medida para combater a evasão dos alunos. “A gente separou por idade. Numa turma colocamos os mais jovens e, na outra turma, os mais velhos. O professor já sabe que turma que ele vai mexer, qual a idade, com quem ele vai lidar”, explica a vice-diretora.

DETERMINAÇÃO

De acordo com os resultados preliminares do Censo Escolar 2015, no Brasil, são 2.765.246 alunos matriculados na EJA. No DF, os alunos representam cerca de 1,5% – 43.513. Em Planaltina, há 4021 matrículas na EJA, segundo o Censo da SEDF.

A respeito dos motivos que possam ter levado Planaltina a apresentar quase metade da população com ensino fundamental incompleto, o assessor da Coordenação Regional de Ensino da cidade, Adésio de Souza, aponta primeiramente a distância. “Acreditamos que uma grande população do campo formada por trabalhadores rurais tenha contribuído para esse número estatístico, pois, devido às grandes distâncias, torna-se difícil a mobilidade dos estudantes que precisam trabalhar e, depois do trabalho, deslocam-se até uma escola no período noturno”.

O assessor indica também a violência e o inchaço populacional como fatores determinantes para esse percentual. “No centro urbano, acreditamos que a violência tenha causado insegurança aos educandos, dificultando a permanência nas escolas. E, nos últimos anos, a cidade sofreu um inchaço populacional muito grande em razão da migração de pessoas de boa parte do país e do entorno e até de outras regiões administrativas”, expõe Adésio.

Por Laís Rodrigues

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