Professores do DF fazem protesto por melhores condições de trabalho, GDF diz que mantém “diálogo”

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Quinze mil professores temporários, salas de aula lotadas, educadores sem apoio e uma categoria que já fez duas greves no atual governo sem ver reposição salarial significativa.

Esse é o cenário que levou os professores da rede pública do Distrito Federal a se reunirem nesta quarta-feira (18) em assembleia do Sinpro-DF para cobrar mudanças nas condições de trabalho na área de educação

A primeira assembleia geral com paralisação de 2026 aconteceu no estacionamento do Eixo Cultural Ibero-Americano. Não houve decretação de greve.

O encontro aprovou o calendário de lutas 2026 da categoria, que inclui: zerar o banco de aprovados no último concurso para professores efetivos, que aconteceu em 2022; novo concurso público para suprir a carência de profissionais em diversas áreas; reestruturação da carreira; celeridade e desburocratização de aposentadoria aos profissionais da Secretaria de Educação; combate à militarização das escolas e a favor da gestão democrática. 

Reestruturação da carreira

A reestruturação da carreira do magistério é uma das principais pautas da categoria. O objetivo é equiparar o salário base dos professores e orientadores educacionais à média dos demais servidores públicos do DF com a mesma escolaridade, meta prevista no Plano Distrital de Educação (PDE). A categoria ainda recebe salários abaixo da média.

Entre as mudanças reivindicadas está a redução dos níveis da tabela salarial de 25 para 15, com progressão a cada três anos. Na prática, isso significa que os professores chegariam mais rápido ao topo da carreira com impacto direto no cálculo da aposentadoria.

A categoria também cobra a regulamentação da gratificação de coordenação pedagógica (Gacop), hoje fixada em R$ 300, valor que, segundo o sindicato, é perdido assim que o professor deixa a função. 

Professores alfabetizadores que atuam nos anos iniciais e no primeiro segmento da Educação de Jovens e Adultos (EJA) reivindicam a Gratificação de Atividade de Alfabetização (GAA). 

Já os que trabalham com alunos com deficiência ou transtornos em escolas regulares cobram a garantia da Gratificação de Atividade de Ensino Especial (GAEE), benefício que, atualmente, não é assegurado a todos que exercem essa função.

Professores temporários

A quantidade de professores temporários na rede pública do DF é outro ponto central do debate. São 15 mil contratos temporários ativos, e os impactos dessa realidade se fazem sentir dentro das salas de aula. Na Escola Classe 115 Norte, o professor Janio Alcantara, de 57 anos, que é coordenador pedagógico, estima que entre um terço e 45% do corpo docente é formado por temporários. Na escola onde leciona, a pedagoga Ingrid Santos, 29 anos, esse número chega a 50%.

Um dos impactos principais é a descontinuidade do ensino, que afeta o aprendizado das crianças, afirma Jânio. Para ele, a precariedade do vínculo também impacta o próprio professor: sem estabilidade, o temporário tem menos condições de se dedicar ao trabalho.

A categoria reivindica a nomeação de todos os aprovados no concurso público de 2022 — mais de 2 mil pessoas ainda aguardam a convocação. Das três mil nomeações realizadas recentemente, 718 candidatos não tomaram posse. O Sinpro-DF também cobra a realização de um novo concurso público para suprir a carência de profissionais em diversas áreas da rede.

Dentro das escolas

A lotação das salas de aula é um dos problemas mais citados pelos docentes. Jânio Alcantara observa o problema de perto. “As classes aumentam”, diz. Cerca de 15% dos 300 alunos da escola têm alguma deficiência ou Transtorno Global do Desenvolvimento (TGD), e o apoio disponível se resume ao monitor ou Educador Social Voluntário, cargo que, segundo Jânio, é precarizado e insuficiente para a demanda.

No Centro de Ensino Médio Paulo Freire, o professor de matemática Luan do Planalto, 24 anos, divide oito turmas de segundo ano com cerca de 40 alunos cada. “É muito ruim, pois é um colégio que tem muitos alunos e as salas são pequenas”, conta. Uma das estudantes é usuária de cadeira de rodas e cega, e só conseguiu monitor de apoio neste ano.

Para Meicar Carvalho, professora de Educação Física no Centro de Ensino Infantil 01 de Ceilândia, o problema vai além dos números.

“O professor se sente desamparado”, afirma. “Não tem condição de alfabetizar uma criança com a sala de aula lotada.”

O adoecimento da categoria é consequência direta desse cenário. Andressa Vieira, 37 anos, pedagoga com 14 anos de rede, viveu isso na pele: teve burnout enquanto estava na direção de uma escola. Ela não é exceção. Nájila Mota, professora de quinto ano, nunca se afastou por questões de saúde mental, mas faz questão de ressaltar: “ainda não me afastei”, brinca, sem esconder o peso da frase.

Sem recuar

Antes de entrar na assembleia nesta quarta-feira, Luan do Planalto sabia que teria de parar para pagar a impressão de atividades para seus alunos. A impressora da escola estava quebrada. “Vou imprimir hoje”, disse.

“Não posso esperar até a semana seguinte para consertarem.” Essa cena resume um dos motivos que levou centenas de professores ao Eixo Cultural Ibero-Americano nesta manhã.

O Calendário de Lutas aprovado nesta quarta-feira sinaliza que a categoria não pretende recuar. Com duas greves já realizadas no atual governo e pautas que seguem sem resposta, o Sinpro-DF indica que novas mobilizações estão no horizonte caso o governo Ibaneis Rocha não avance nas negociações.

“Diálogo aberto”

Em nota à imprensa, a Secretaria de Educação do DF criticou a forma como a ação dos professores foi realizada, já que houve protesto na sede administrativa. E isso teria comprometido o atendimento e prejudicado servidores que atuam na unidade.

“A pasta reforça seu permanente compromisso com o diálogo aberto e respeitoso, e lembra que mantém canais institucionais de interlocução com o sindicato, como a Mesa de Negociação Permanente do Governo do Distrito Federal, porém, em virtude da greve foram suspensas as negociações”, destacou o governo.

Por Gabriela Cidade (texto e fotos)

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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