Jornalista diz que cobertura de olimpíadas é conquista para profissionais

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O sonho de todo atleta profissional é disputar uma olimpíada. São anos e mais anos de dedicação total ao esporte, com incontáveis treinos, dores, sacrifícios e concessões para que um dia tenha a honra de defender as cores de seu país no maior evento esportivo mundial. No jornalismo esportivo isso não é muito diferente. Todo jornalista que cobre esportes deseja uma dia cobrir uma edição olímpica. Assim como com os atletas, passa por diversos testes durante a carreira até ser escalado pelo seu veículo de comunicação para fazer a cobertura do tão esperado evento. Cobrir uma olimpíada já é uma conquista homérica, quem dirá cobrir sete edições. Este é o caso da jornalista paulistana Denise Mirás.

Nascida em São Paulo, Denise se formou jornalista na FAAP em 1978. Durante os mais de 30 anos de carreira, passou 26, entre 1980 até 2006, trabalhando no Jornal da Tarde, do grupo O Estado de S. Paulo, onde cobriu as olimpíadas de Los Angeles, Seul, Barcelona, Atlanta, Sydney e Atenas. Depois disso, cobriu a olimpíada de Londres pelo portal de internet R7, onde trabalhou de 2009 a 2012. “Não cobri a olimpíada de Pequim em 2008, a que mais queria, pela curiosidade que tenho em relação à China em geral. Passei algum tempo fazendo frilas, não necessariamente ligados ao esporte”, explica a jornalista.

Em 2013, Denise “mudou de lado” e agora trabalha na assessoria de comunicação da Secretaria Nacional de Esporte de Alto Rendimento, do Ministério do Esporte. “Na assessoria o ritmo é completamente diferente. Os prazos são outros. Muda muito em relação à cobertura que fazia para jornal e site”, comenta.

Depois de fazer a retaguarda da olimpíada de Moscou em 1980, na redação do JT, saída da revisão, a jornalista acabou ficando na Editoria de Esportes. Dentre os sete Jogos Olímpicos em que cobriu, Denise afirma ter gostado mais de trabalhar nos Jogos de Barcelona, em 1992. Em compensação, faz criticas à organização dos Jogos de Atlanta, em 1996. “Foi o caos total. Tudo muito mal organizado. Passamos os Jogos inteiros ouvindo do diretor da organização: ‘Não importa como se começa, mas como se termina…’ Mas a cada dia ele repetia a frase e chegamos ao fim sem que nada tivesse melhorado.”

As histórias guardadas na memória são várias. Das dificuldades enfrentadas, às soluções encontradas, momentos de descontração e risadas. Tudo que a cobertura do maior evento esportivo do mundo tem a oferecer. Com toda essa experiência vivida, Denise guarda momentos marcantes de cada uma das olimpíadas que cobriu.

Los Angeles – 1984

“Para conseguirmos chegar a tempo para a disputa do Joaquim Cruz na prova dos 800 metros, no Estádio Coliseu, o único jeito era passar por uma alça de freeway na contramão. Eu dirigia e entrei na alça – o Castilho de Andrade, uma lenda do jornalismo automobilístico, por ironia, estava ao meu lado. Chegamos a tempo de estacionar – em lugar proibido -, correr pela rua, subir escadarias e escadas rolantes… E vimos o Joaquim Cruz cruzar a linha de chegada, para a medalha de ouro. Foi a única vez naquela olimpíada, no atletismo, que vibramos em cima dos “coleguinhas” cubanos, norte-americanos, europeus… Eles ganhavam medalhas toda hora – a gente, nunca! E ainda nos divertimos informando para eles a cidade natal do Cruz: Taguatinga… ‘Repitam: Ta-gua-tin-ga!’”

Seul – 1988

“Lembro que fiquei no fosso dos fotógrafos do estádio de atletismo, onde havia uma saída para a sala de imprensa, com cabines telefônicas de madeira. Era a prova dos 100 m, com Ben Johnson. Uns 3 mil jornalistas estavam na arquibancada, nos lugares de imprensa, para a prova, incluindo o João Pedro Nunes, do Estadão, meu companheiro de cobertura. Eu fiquei lá embaixo para guardar lugar na cabine, até que ele chegasse para ditar a matéria por telefone. Assim que acabou a prova, com recorde mundial, corri para uma cabine, me tranquei, e fingi que estava passando matéria… Até o Nunes chegar, tinha uns 300 jornalistas esmurrando a cabine, para eu sair. Quando o Nunes entrou, foi pior ainda. Mas o Estadão teve a matéria primeiro do que uns 300 jornais do mundo com seus repórteres enfurecidos com a ‘brasileirada’.”

Barcelona – 1992

“Estava cobrindo o Dream Team, o verdadeiro. E em tempos onde ainda era possível andar pelos corredores dos ginásios em meio a Michael Jordan, Charles Barkley, Magic Jonhson, Scottie Pippen e o Larry Bird. Em Barcelona, era de dar sono nas coletivas, porque havia as perguntas e depois as repostas nas línguas oficiais do COI (inglês e francês), mais a língua do país (espanhol), mais o catalão – os Jogos, para os barceloneses, era na Catalunha, seu país, mesmo não sendo oficial e essa olimpíada foi marcada por isso. Em uma das coletivas perguntaram brincando ao Jordan por que ele não estava fazendo tantas cestas – na verdade, ele estava mais servindo os companheiros, do que finalizando, naquele time de monstros… Ele apontou para o Barkley e também brincou: é para ele brilhar um pouco.”

Atlanta – 1996

“O que mais marcou foi a briga das brasileiras com as cubanas na semifinal do vôlei. Virou uma confusão geral na quadra, com os jornalistas berrando da arquibancada e a Márcia Fu dando toalhadas nas cubanas por cima dos voluntários que tentavam conter as brasileiras. Então as jogadoras dos dois times foram para os vestiários. Ficamos esperando para as entrevistas, mas os policiais começaram a por os jornalistas brasileiros para fora do ginásio. Lá fora, além de garoa e frio, chegavam os caminhões-pipa para esvaziar os banheiros químicos. Imagine-se o cheiro. E ambulância chegando com sirene, carros de polícia. O que poderia estar acontecendo lá dentro?! Ficamos pela madrugada, sendo empurrados com grades cada vez mais para longe, achando que alguma coisa grave podia ter acontecido, que alguém tivesse sido levado para o hospital. Devem ter saído por outro lado, até que, quase amanhecendo, fomos embora. Claro que nenhum jornalista quer ir embora antes do outro! Só ficamos sabendo dos empurrões e tapas no corredor do vestiários no dia seguinte.”

Sydney – 2000

“O engraçado foi que a Vila de Imprensa oficial era um antigo leprosário. Havia um hospital principal transformado em hotel, e chalés que antigamente serviam os doentes transformados em acomodações para os jornalistas. E do outro lado do muro cercado – e da rua – havia…. um cemitério! Tinha um clima bem ‘bucólico’. Mas o que mais marcou essa olimpíada foi a percepção de que o mundo se viraria mesmo para os cuidados com o meio ambiente. Tudo era com material reciclado, com ventilação natural, lixos separados. Foi a ‘olimpíada verde’. No estádio olímpico, por exemplo, havia estacionamento para carrinhos de bebê. O público podia ir de metrô e deixar o carrinho estacionado ali, levando os bebês para ver as provas de atletismo. Cultura esportiva de um país vem daí, eu pensava…”

“Também entrevistamos o jornalista Andrew Jennings, que tem vários livros denunciando maracutaias do COI. Lembro que dois ou três membros do COI, ligados ao boxe, foram proibidos de entrar nas Austrália – tinham ficha na KGB soviética e no FBI, ou CIA, dos Estados Unidos por atividades como tráfico de armas, de mulheres e drogas, além de apostas, no Leste Europeu e Médio Oriente Médio. A alegação dos australianos para barrar os mafiosos foi curiosa baseada no departamento de saúde – por fazerem mal à saúde da população do país.”

Atenas – 2004

“As coisas engraçadas foram muitas, mas no último dia foi demais. Estávamos no vôlei, onde o Brasil ganhou o ouro e participamos das entrevistas do Bernardinho, dos jogadores. O vôlei ficava meio distante do centro de imprensa principal, mais no centro da cidade. Entramos no ônibus para ir até lá, fechar os trabalhos daquela olimpíada. Mas na tevezinha do ônibus estava passando a maratona, falada e com legendas em grego. De repente, algum dos brasileiros perguntou: ‘Mas não é o Vanderlei Cordeiro de Lima?!’ Parecia que era o líder…. E de repente a gente tinha certeza: era o Vanderlei, sim, liderando a maratona no último dia daqueles Jogos. Com o ônibus parado em um congestionamento monstro, pelas ruas fechadas para a prova – e já com celulares – os repórteres do Estadão decidimos ligar para o Eduardo Maluf, que tinha ido fazer outra competição e já estava no MPC (main press Center ou centro principal de imprensa). Era ele que tinha de correr até a chegada, no Estádio de Mármore, porque as ruas estavam interditadas e o único jeito era indo de metrô. Malufinho, o pé frio que tinha ‘feito’ a seleção de basquete dos Estados Unidos perder, as meninas do futebol do Brasil ficarem com a prata, o Brasil perder no vôlei de praia, o Federer cair na segunda rodada… Ele foi. E nós, chegando no MPC, vimos, em pé, assombrados como todos os jornalistas do mundo, o Vanderlei ser empurrado pelo ex-padre irlandês maluco… Perder a liderança e, quem sabe, o ouro… Mas vimos também, emocionados todos, o Vanderlei fazendo ‘aviãozinho’ na entrada do Estádio Panatináico, na chegada para a medalha de bronze.”

Londres – 2012

“Tenho que destacar, além do esporte, o transporte público via metrô da cidade. Um sonho para todo jornalista ‘olímpico’… Dá para chegar a todos os lugares de metrô, sem perder tempo. No esporte, foi do ginásio de vôlei que a maioria dos jornalistas brasileiros viu as provas do Usain Bolt – para os brasileiros, o vôlei tinha grandes chances de medalhas. E o jogo das meninas na virada em cima da Rússia foi espetacular. Depois, ficou marcado as jogadoras batendo as mãos no pódio, antes de subir para o ouro… Quem perdeu, achou que foi um ‘desacato’. Também vi – e gravei a medalha de ouro do Arthur Zanetti – depois de uma entrevista com ele ainda em São Caetano, eu tinha certeza, pela determinação dele e pelos resultados que tinha no ano sobre o grande adversário chinês, de que ele seria campeão. E foi.”

Confira a galeria de fotos das coberturas dos Jogos de Denise:

Por João Moretti – Pós-Graduação em Jornalismo Esportivo. 

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