“Países que sofreram com mais ataques fatais não estavam entre os mais noticiados”, diz pesquisadora

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Apesar de países do Oriente Médio e da África serem impactados com maior frequência e letalidade por ataques de grupos terroristas, a visibilidade é renegada a fatores extraordinários, conforme avaliam especialistas. E, portanto, essas ações já são absorvidas como cotidianas. Enquanto, por outro lado, a ocasionalidade na Europa instiga uma atenção maior. 

A internacionalista Flavia Felix aponta que, quando há casos que ocorrem no Ocidente, especialmente nos EUA e Europa, há uma cobertura maior por parte da mídia. “(É maior) do que em comparação quando esses mesmos ataques ocorrem no Oriente Médio, por exemplo.  No último relatório produzido pelo Institute for Economics & Peace, os países que sofreram com mais ataques fatais, não estavam entre os mais noticiados.”

Grécia, França e Alemanha são os países com maior índice de impacto por terrorismo na Europa. Esse índice inclui número de ataques, sequestrados, mortos e feridos. A classificação desses países, segundo o Global Terrorism Index (Planilha), atinge, no máximo, a categoria médio. Os primeiros colocados do estudo são Afeganistão (1º colocado), Burkina Faso (2º) e Somália (3º).

Ao observar apenas os países do Oriente Médio, Afeganistão, a Síria e o Iraque estão nos top 10 países mais afetados dentre os 163 analisados. Essa disposição geográfica diferente entre os dois grupos regionais afeta e é afetada diretamente pela visibilidade midiática desses ataques terroristas.

A partir do Índice Global de Terrorismo e do Global Terrorism Database (Planilha), a comparação mostra a diferença entre países do Oriente Médio e da Europa.

Crédito: imagem autoral / Fonte: Global Terrorism Database

No geral, segundo a internacionalista, a cobertura da mídia sobre ataques terroristas na Europa e no Oriente Médio é influenciada por vários fatores, incluindo interesses políticos, opinião pública e práticas jornalísticas.

A mídia tem a responsabilidade de relatar esses eventos com precisão e objetividade, além de estar atenta ao impacto potencial de sua cobertura. 

Terrorismo na ferramenta de busca

Nos primeiros 23 anos desse século, a mídia acompanha com frequência os ataques terroristas, principalmente por se encaixar em um ou mais critérios de noticiabilidade.

Esse somatório de razões para divulgar o ocorrido traz a violência estampada em matérias impressas, sites e televisão, havendo cobertura ao vivo e até mesmo in loco.

Em uma análise prévia dos dados, é possível identificar uma hierarquização das notícias presentes no Google. Ao buscarmos por palavras-chave e frases mais específicas, a apresentação dos links na aba ‘notícias’ dispõe de uma pluralidade de registros sobre ataques na Europa.

Sobre o Oriente Médio, essas informações se tornam mais escassas, produzidas por mídias regionais ou, frequentemente, o uso desse termo é posto como característica da origem dos terroristas. 

As evidências dessa disparidade de abordagens para cada um, podendo focar nas vítimas ou nos perpetradores, ressaltam o impacto das narrativas. E o entendimento do terrorismo como parte das grandes ameaças para a humanidade passa a se restringir pela nacionalidade. 

Veiculação na mídia

O questionamento aos veículos jornalísticos se estabelece nesse comparativo. As realidades experimentadas e as visões publicadas. Quais mudanças de abordagem podem ser implementadas para garantir uma relevância mais uniforme do tema? Os comunicadores precisam refletir se a falha é intencional ou se ela ocorre por mera prática de escolha do que é publicável e rentável.

Existe uma lacuna gerada pela setorização da realidade que conglomerados de mídias e narrativas retratam. Em parte, porque a política permite que uma posição dentro do sistema internacional seja mantida e que haja um reforço da diferenciação entre os países e as regiões. Não sendo diferente no que permeia a questão midiática, mostrando uma permissibilidade das leis em favor dos interesses daqueles países com poder político-narrativo.

Como reflexo da alteração na agenda de segurança, os países passaram a ser crescentemente cobrados na prevenção e repressão desse fenômeno. Mas há uma dificuldade em estabelecer resoluções contra o terrorismo que sejam harmoniosas para todos os Estados, pois ele afeta os países de maneira desigual.

De fato, é custoso encontrar um equilíbrio entre as partes. Uma vez que elas concordam quanto à necessidade de evitar os resultados destrutivos, mas diferem sobre qual caminho será traçado para evitá-los.

Crédito: imagem autoral

Centro Europeu de Contraterrorismo

Uma das formas encontradas se materializou em janeiro de 2016 no Centro Europeu de Contraterrorismo (ECTC). Criado pela Europol, ele é um centro de operações e de especialização. E reflete a necessidade crescente da União Europeia (UE) em reforçar a sua resposta ao terrorismo e assegurar uma resposta eficaz a estes desafios.

“A aplicação da lei nos Estados Membros da UE continua a investir esforços significativos na prevenção e combate ao terrorismo na UE. A Europol é um ator fundamental na arquitetura da segurança europeia. Trabalhamos em conjunto com nossos parceiros para mitigar a ameaça terrorista, negando aos terroristas os meios para planejar, financiar e realizar ataques, combatendo a radicalização e aprimorando a troca de informações e a cooperação policial.”

Claire Georges, porta-voz da Europol

O ECTC foi criado após uma série de ataques terroristas que abalaram a Europa em 2015. Estes ataques resultaram num impulso sem precedentes na cooperação entre os Estados-Membros da UE e parceiros. O que resultou na criação de um centro antiterrorista dedicado na Europol. 

O ECTC cruza dados operacionais em tempo real com os dados que a Europol já possui, revelando rapidamente as pistas. Analisa todos os detalhes investigativos disponíveis para auxiliar na compilação de uma imagem estruturada da rede terrorista. E oferece apoio operacional personalizado às autoridades antiterroristas dos países da União Europeia.

Como fizemos a reportagem

O direcionamento da matéria focou na quantificação dos atos terroristas no Oriente Médio, especificamente Afeganistão, Síria e Iraque; e na Europa, a partir da Grécia, França e Alemanha.

A escolha dos países se deu com a análise da base de dados Índice Global de Terrorismo (GTI), um estudo da Institute for Economics & Peace (IEP). O relatório analisa o impacto do terrorismo em 163 países e os classifica de maneira ordinal quanto ao grau deste impacto.

Foi feito um recorte temporal com abrangência dos ataques ocorridos em ambos os territórios nos anos de 2015 e 2020. Estes são os períodos de marco temporal das duas ondas de ataques terroristas.

Após este recorte, recorremos a uma segunda base de dados para embasar uma análise aprofundada de cada atentado terrorista, o Global Terrorism Database (GTD).

Foi produzido um levantamento de informações sobre os ataques em relação aos indicadores de incidentes, alvos, fatalidades, feridos, grupo responsável pelo atentado, tipo de ataque e tipo de armas utilizadas. Possibilitando um estudo comparativo e a identificação de padrões dos resultados expostos.

E por fim, com a dimensão dos dados, foi possível associá-los à visibilidade midiática e suas proporções.

Terminologia de viés político: o Afeganistão é governado por um grupo terrorista?

O Afeganistão, primeiro colocado no relatório internacional entre os afetados pelo terrorismo, passa a apresentar pontuação menor no Índice de Terrorismo Global (GTI) após a retirada das tropas americanas.

Com o fim dos 20 anos de ocupação e o retorno do Talibã, a mudança não é reflexo de um trabalho intervencionista bem realizado por parte dos Estados Unidos. 

Isso não ocorre por mudanças na estrutura afegã, mas sim porque o Talibã deixa de ser visto como grupo terrorista e passa a compor, mesmo que não amplamente reconhecido, o quadro governamental.

 Crédito: imagem autoral / Fonte: Global Terrorism Database

O combate ao terrorismo é contemplado por medidas defensivas (antiterrorismo) para reduzir a vulnerabilidade aos atentados terroristas. E por medidas ofensivas (contraterrorismo) para prevenir, dissuadir ou retaliar os atentados, tendo como alvo as organizações terroristas.

A prática terrorista adotada a partir do século 21 fez com que o tema fosse recorrente nas diretrizes de segurança nacional. Mas também passou por modificações no método de combate. Este segmento internacional começou a visualizar alternativas como a encabeçada pelos Estados Unidos, chamada de Guerra ao Terror.

“O terrorismo é um conceito que sofreu uma metamorfose após os ataques do 11/09 realizado nos EUA. Anteriormente, a visão constituída do tema era uma espécie de intimidação dos fracos pelos fortes. Após os ataques, há uma inversão dessa relação, o que gera uma expectativa de mudança do status quo.”

pesquisadora Flavia Felix
Escombros do ataque de 11 de setembro. Crédito: Pixabay/Creative Commons

A exemplo das operações desencadeadas no Afeganistão para capturar integrantes da Al-Qaeda. Ações de prevenção, proteção, busca e resposta ao fenômeno, que englobam a Estratégia Contraterrorismo, até mesmo da própria União Europeia.

Tendo em vista que o cenário frequente de ataques terroristas é composto por uma guerra assimétrica. E o financiamento é usado como um instrumento de guerra. A forma como se veicula e propaga a informação desses eventos impacta diretamente na sua perpetuação.

Por Giovanna dos Santos e Juliana Weizel

Supervisão de Mônica Prado

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