Cobertura de guerra: desinformação é desafio para jornalismo

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Em um cenário cada vez mais complexo, a desinformação emerge como uma arma poderosa sendo utilizada como mais uma das estratégias de guerra

Em um contexto de guerra, a desinformação se torna tão perigosa quanto o conflito armado. Isso porque a divulgação de informações falsas traz o impacto não apenas de distorcer a realidade dos fatos, mas, também, tem o poder de moldar a opinião pública e influenciar os discursos. Por isso, o conteúdo disseminado acaba sendo uma estratégia para os atores do conflito, o que tem ocorrido nos ataques do grupo terrorista Hamas e Israel, guerra que começou em 7 de outubro de 2023.

O professor e jornalista Luiz Cláudio Ferreira esteve na Faixa de Gaza em 2010 e também cobriu o conflito civil do Haiti, em 2008. Ele reforça que a divulgação de Fake News tem impacto não só em contexto de guerra, mas em um contexto em que a verdade está mais vulnerável. “Existe uma guerra também de versões e, como existe guerra de versões, o conflito se expande territorialmente por vários locais e o jornalista acaba dependendo das informações que chegam. Nem sempre o jornalista consegue”, pontua.  

Luiz Cláudio Ferreira no Haiti em 2008. (Foto: Arquivo Pessoal)

Luiz Cláudio explica que cobrir um conflito em outro país é problemático principalmente por causa do idioma. “Eu tive, em 2010, a oportunidade de ir para Gaza em um caminhão da ONU. Em Gaza, uma enorme barreira na comunicação foi o idioma, visto que a maior parte das pessoas lá não falavam inglês. Era evidente a necessidade de um tradutor e isso, em um cenário de guerra e de interesses políticos e socioeconômicos, pode dificultar a precisão da informação.


Ele relembra que no Haiti o idioma era uma língua chamada Creoli e, na época, o jornalista conta que ninguém falava inglês. “O idioma mais perto era o francês, porém eu também precisei de um tradutor o tempo inteiro do meu lado, então às vezes a pessoa falava diversas informações e o tradutor me passava quatro frases e eu ficava inseguro, relembra.

Com o enxugamento das redações, a utilização das redes sociais e as assessorias de imprensa se tornaram mais necessárias nesse tipo de cobertura. No entanto, os repórteres enfrentam novos desafios de verificar a credibilidade das fontes sem perder a exclusividade da informaçãoPara Luiz Cláudio, o dilema diário para ele e os colegas de profissão são as versões dadas pelas assessorias de imprensa envolvidas em qualquer conflito, desde as guerras urbanas como as do Rio de Janeiro até as guerras internacionais. 

 As versões apresentadas pelas assessorias de imprensa sempre precisam ser contestadas, porque existe um interesse naquele momento. A gente aprende desde a primeira aula de jornalismo que nós não devemos confiar apenas em uma fonte. É o básico do jornalismo, reforça.

Pós-verdade e jornalismo

A pesquisadora Mônica Prado defende que o jornalismo não propaga desinformação. Segundo ela, pós-verdades não podem ser consideradas notícias e consequentemente não são jornalismo. “O princípio do jornalismo é a informação qualificada, apurada, checada com diversas fontes. Na prática jornalística, se houver erro, o veículo informa e esclarece. Nada na prática jornalística de veículos profissionais combina com propagação de desinformação”, explica.’


Foto: Matéria do Aos Fatos 

Outro desafio para o campo da comunicação é o rápido avanço do uso de Inteligência Artificial (I.A) para a geração de imagens, que se tornou um obstáculo no que tange a apuração das informações. O “Aos Fatos”, site jornalístico independente de verificação de fatos, publicou uma reportagem que mostra o uso de I.A pela Adobe para a criação de imagens falsas do atual conflito Hamas e Israel. As imagens alcançaram milhões de visualizações nas redes sociais e, em sua maioria, mostram crianças em meio aos escombros, sorrindo ou chorando, sendo carregadas por outras pessoas ou lamentando mortes.

O uso dessas imagens como se fossem verdadeiras por muitos veículos acende um alerta, uma vez que as imagens reais acabam ganhando menos destaque e o pretexto para colocar em dúvida a credibilidade de imagens verdadeiras é fomentado. A professora Mônica reforça os riscos da Deep Fake na área do jornalismo. “A produção de imagens falsas traz um desafio enorme para o jornalismo, obrigando os veículos a terem núcleos de checagem interna utilizando de modo bastante sofisticado softwares de rastreamento.”

Cinco portais usam foto gerada por I.A sem aviso de que se trata de imagem falsa. Foto: Aos Fatos

Em meio a um cenário repleto de desinformações, a pesquisadora expõe caminhos que a população possa adotar para evitar ser manipulada por pós-verdades. Uma das etapas, segundo Mônica, é não compartilhar um vídeo, gráfico ou imagem sem conhecer a fonte original da informação. Em segundo lugar, ela chama atenção para a necessidade de observar os exageros, como o sensacionalismo, o tom de persuasão, convencimento e de propaganda. Em terceiro lugar, a professora alerta para a importância do jornalista ser cético quanto às informações que recebe. “É importante ter a curiosidade para olhar de modo desconfiado o que chega, pois muitas peças de desinformação contêm algo de verdadeiro, mas estão misturadas com informações falsas.” concluiu.

Impacto das redes sociais

A multiplicidade de canais de informação na era digital tem contribuído para uma significativa dificuldade em encontrar fontes oficiais confiáveis. Com a proliferação de plataformas como WhatsApp, YouTube, Instagram e TikTok, o fluxo constante de notícias, muitas vezes duvidosas, torna-se avassalador.  A professora e pesquisadora Mônica Prado destaca que a sobrecarga de informações em diversas plataformas é um desafio enfrentado pela comunicação. “O impacto negativo, mesmo com a divulgação de informação qualificada por veículos profissionais de comunicação, é a overdose, pílulas de informações constantes que causam dificuldades para que as pessoas percebam os sentidos interconectados dessas informações isoladas.”

Para ela, um dos principais motivos para essa sobrecarga de informações é a existência de diversas plataformas de comunicação. Mônica ressalta que essa multiplicidade dificulta a identificação da fonte original das informações, o que pode resultar em desinformação. “Fica difícil para as pessoas saberem qual a fonte original da informação que chega pelo WhatsApp, ou pelo YouTube, ou pelo Instagram e Tik Tok”. finalizou. 

Além das redes sociais, o jornalista Luiz Claudio Ferreira, que esteve presente em Gaza em 2010, expõe a cruel manipulação que as populações dos dois estados sofrem através da desinformação por parte de seus representantes. Ele afirma que os grupos envolvidos na guerra utilizam a desinformação, a manipulação e ameaças à população para atingir seus objetivos.  Luiz relembra quando presenciou o uso da propagação de desinformação como tática de guerra quando esteve presente em Angola. 

“Angola tinha passado por um conflito civil e algumas pessoas de uma comunidade bem pobre que eu visitei falaram que tinham recebido bilhetes que eram para sair das suas casas. Eu achei aquilo bastante sensível, imagina você receber uma carta que era para sair da sua casa, senão você e sua casa vão ser destruídos. Esse tipo de tática de guerrilha de assustar a população é típico de cenários de conflito.” 

O historiador Jean Fernandes reforça que as redes sociais ajudam na propagação e disseminação de informações e opiniões diversas sobre o conflito entre Israel e Hamas. Esse fenômeno ocorre, em parte, devido às plataformas de redes sociais que apresentam conteúdos com base nas preferências dos usuários.
“As plataformas das redes sociais mostram alguns conteúdos com base na preferência do usuário, então isso pode resultar em um filtro, uma bolha criada somente por uma visão exposta de acordo com algoritmo onde as pessoas são respondidas. Na mídia gera uma maior probabilidade de expandir rapidamente  uma visão de um conflito que talvez não seja a mais fiel digna acerca da narrativa, isso acaba inflamando a população”, alerta.

Israel x Hamas


A polarização dos discursos de informação entre Israel e o grupo Hamas tem sido uma característica marcante no conflito na região. Ambos os lados apresentam narrativas distintas e, consequentemente, acabam por moldar a percepção pública e internacional sobre o conflito. A questão da resistência na guerra entre Israel e o Hamas envolve debates sobre os métodos empregados e os objetivos almejados por ambas as partes.

A disseminação de informações é frequentemente utilizada para influenciar a percepção internacional e justificar ações tomadas por ambas as partes. A polarização dos discursos na guerra entre Israel e o Hamas não reflete só a complexidade do conflito, mas também destaca a importância crítica de uma análise de dados de forma cuidadosa e da busca por fontes de informação confiáveis para compreender plenamente os acontecimentos em curso.

O historiador Jean relembra que a extrema esquerda internacional, em alguns casos, tem expressado apoio ao grupo Hamas, com base em diferentes perspectivas biológicas. Mas é importante observar que as opiniões dentro da extrema esquerda podem variar e que nem todos os membros desse espectro político apoiam o Hamas de maneira uniforme.

Algumas das razões mais comuns para o apoio ao Hamas por parte da extrema esquerda inclui a visão do anti-imperialismo. Algumas correntes apoiam esse ator principal do Hamas como influência de resistência ao imperialismo ocidental na região. Então esse anti-imperialismo, para a visão da extrema esquerda, é como um ato de resistência numa luta pela liberdade palestina”, disse o historiador.

No contexto palestino, o Hamas é percebido ainda como um grupo de resistência legítimo, que busca a autodeterminação em resposta à ocupação territorial israelense e às condições desafiadoras enfrentadas pela população. Porém, há uma controvérsia considerável, em que críticos destacam o uso de táticas militares indiscriminadas e ataques a civis, o que faz levantar questionamentos sobre a legitimidade da resistência do Hamas.
Alguns setores da extrema esquerda enxergam o Hamas como parte de um movimento mais amplo de resistência. Eles possuem a visão de que o grupo desempenha um papel de oposição, como se fosse contra a opressão, a marginalização e as violações dos direitos palestinos. Para uma parcela da extrema esquerda, a ideia utilizada é de que o Hamas é um grupo de resistência dura contra a violência sofrida pelos palestinos”, finalizou.

Por Arthur de Lima, Andressa Sarkis, Danyelle Silva, Mayara Mendes e Pedro Oliveira
Sob supervisão de Isa Stacciarini

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