Conflito no Oriente Médio: petróleo vira arma econômica e pressiona o Brasil, diz economista

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Os bombardeios no Oriente Médio, a partir do ataque dos Estados Unidos ao Irã, reiniciados em 28 de fevereiro de 2026, reacenderam um temor histórico e colocaram o Estreito de Ormuz no centro da geopolítica global. A passagem marítima é um dos principais locais de escoamento de petróleo, onde se concentra 20% a 25% do fluxo mundial.

Desde as crises petrolíferas da década de 70, o Irã já ameaçou, ao menos cinco vezes, fechar o estreito. Desta vez ainda que Washington negue e Teerã sustente a ameaça, este simples ruído já causa efeitos reais. Para o economista e professor de relações internacionais do CEUB, Marcelo Valle, o impacto começa antes de qualquer decisão formal. 

“A verdade é que só essa que só essa essa controvérsia já é suficiente para reduzir o fluxo de de de navios naquela região do Oriente Médio. E isso vai gerar um desequilíbrio entre a oferta e a demanda mundial de petróleo, o que tende a forçar os preços do petróleo para cima”, afirmou.

Ele exemplificou com o valor do petróleo. O barril que estava na faixa dos 70 dólares, agora alcançou a marca de 80 dólares e pode chegar a 100 dólares.

Reprodução/Redes Sociais/República do Irã

Produto essencial

O petróleo ocupa um papel essencial na economia, apesar da grande produção, ele não é facilmente substituído. “Você precisa continuar comprando porque ele não tem bons substitutos”, pontuou o pesquisador.

O resultado da compra gera inflação na economia mundial e brasileira. Ele tende a encarecer o custo da gasolina, produtos alimentícios e produção industrial. 

“Gera a inflação global. Vai gerar também a inflação do Brasil, claro, como o seu produto. Então, isso traz impactos negativos sobre a inflação, traz impactos negativos para a própria atividade econômica do mundo e tende a reordenar investimentos”, disse o professor.

Ganho Ilusório

Embora o Brasil seja um grande produtor de petróleo, os benefícios da alta internacional são limitados. O meio produtivo e a cadeia consumidora interna, dificultam os ganhos.

 “O Brasil é um grande produtor de petróleo, mas ele exporta pouco, comparado ao que ele produz. O petróleo brasileiro, ele é um petróleo, como ele é tirado de plataforma marítima, ele tem uma quantidade, quer dizer, a relação de hidrocarbonetos dele não é tão eficiente quanto a do petróleo retirado de terra, como é feito no Oriente Médio. Então, ainda que o Brasil pudesse se beneficiar da exportação, na prática isso não ocorre”, explica.

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Além disso, existem vários tipos de derivados de petróleo que não são produzidos em solo nacional. Por esse motivo, apesar da grande produção, o Brasil ainda é refém de importações.

“Então, tem várias, embora quando a gente coloque o nosso consumo de petróleo e a nossa produção sugerir a ideia que nós somos auto suficientes, o Brasil precisa comprar muito petróleo de maior qualidade, de maior octanagem. Por exemplo, eh querosene de aviação, isso o Brasil produz pouco”, conclui.

Juros sob pressão

 O Brasil vive um momento econômico ambíguo, com crescimento do PIB em 2,3% e a taxa de desemprego em 5%. Apesar disso, a percepção de melhora na sociedade não é presente.

“Então, você diz para a sociedade: “Olha, a economia está bem, a sociedade diz: Eu não estou sentindo”. Porque a sociedade tá com altos níveis de endividamento, né, e taxa de juros elevada, consome esses potenciais ganhos”, analisou.

Com a Selic em 15% ao ano, qualquer nova pressão inflacionária pode levar o banco central a endurecer ainda mais a política monetária. Esse movimento pode “comprimir a economia”.

“Para controlar isso, a política mais comum do Banco Central é elevar a taxa Selic. Com isso, você comprime ainda mais a economia. Inibe investimentos, compras em longo prazo, então a economia entra num compasso de recessão”, disse. 

Impacto no dólar

A alteração no câmbio é uma das principais consequências do conflito no Oriente Médio. Com incertezas no cenário do mercado internacional, a população tende a querer proteger seus bens e investimentos através de uma moeda mais valorizada, como o dólar. 

“No mercado internacional, o real não tem grande valor, mas o dólar tem. Então começa a haver uma busca por dólares. E aí, como qualquer outro ativo no mercado, você tem uma oferta menor para uma demanda grande, muita gente querendo proteger os seus investimentos utilizando o dólar como referência”, comenta.

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O valor do dólar no Brasil tende a aumentar visto que grande parte da importação no Brasil é baseada na moeda americana, isso gera impacto na inflação mundial.

“O dólar no Brasil que estava sendo vendido a 5,14 e 5,15 na semana passada, hoje já fechou a 5,28 e a expectativa é que suba mais. Então, como muita da nossa pauta de importação em dólar, né, isso, hã, traz também um impacto sobre a inflação”, cita o economista.

Com o câmbio pressionado, as importações ficam mais caras e o impacto inflacionário se intensifica. O conflito, portanto, deixa de ser apenas diplomático e passa a interferir diretamente no custo de vida.

Mediação do Brasil

O avanço do conflito também coloca à prova o papel diplomático do Brasil em âmbito internacional. O presidente Lula, por defender o multilateralismo e ser a favor da ONU como foro legítimo ao recusar o convite do Conselho de Paz proposto por Trump, perde espaço de influência.

Apesar de possuir papéis importante em anos anteriores, como em 2010, onde assinou um acordo com o Irã sobre transparência acerca do enriquecimento de Urânio, o cenário é diferente com a escalada do conflito e participação de potências globais.

Banco de imagens/Agência CEUB

“Eu entendo que o Brasil perde um pouco de espaço nesse campo de mediação. Eu penso que o Brasil perde um pouco da sua capacidade de exercer influência, não só pelo não aceite ou provável não aceite de fazer parte desse grupo proposto pelo Trump, mas porque também a postura do Brasil tende a não se alinhar automaticamente com os Estados Unidos e nem com Israel”, disse.

Além disso, a crítica ao governo de Israel no conflito na Faixa de Gaza, é explícita por parte do Brasil, o que dificulta mais ainda uma possível mediação entre os lados do conflito.

“O Brasil tem tido ao longo dos últimos anos até um certo desgaste diplomático com Israel, exatamente porque o Brasil fez uma crítica muito explícita à ação do governo de Israel no conflito na Faixa de Gaza. Então, penso que nesse momento, sim, o Brasil perca um pouco de sua capacidade de influência”, concluiu.

Por Bel Villela, Mari Mergener, Mateus Péres e Madu Suhet
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira

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