A guerra no Oriente Médio, que já marca o ano de 2023, é mais um capítulo de violência, tensão e dor na região, conforme explica o professor de relações internacionais Luciano Munõz, do Centro Universitário de Brasília (Ceub).
Para ele, as ofensivas do grupo Hamas, no dia 7 de outubro, (que causaram mais de mil mortes) fazem parte de uma retaliação de anos de ataques de Israel ao território de Gaza (cidade mais de 2,6 milhões de pessoas com maior parte em situação de vulnerabilidade social).

O Hamas (grupo extremista islâmico) afirma que a violência ocorreu porque Gaza está submetida a um bloqueio que gera crise humanitária. “Agora, a Palestina está sem energia elétrica e os bombardeios estão se sucedendo já com centenas de mortes do lado palestino também”.
Passado de invasões
O professor explica que Israel tem um passado de invasões e bombardeios na região e que já causaram perdas de vidas humanas palestinos ao longo da história. O especialista ainda avalia que os ataques representam uma “enorme falha do sistema de segurança de Israel” .
“Israel tem um dos melhores serviços secretos do mundo, que é o Mossad (Agência de Inteligência Nacional de Israel), e aparentemente não conseguiu antever os ataques, que pela complexidade, certamente, foi planejado e orquestrado por muito tempo”, afirma.
Em nota, o Hamas afirmou que a ofensiva, batizada de “Operação Tempestade de Al-Aqsa”, foi uma resposta à proposta de anexação de partes da Cisjordânia ao território israelense e dos ataques de Israel à mesquita de Al-Aqsa, que fica junto ao Monte do Templo, em Jerusalém, em uma área da cidade considerada sagrada por muçulmanos e judeus.
Contexto histórico
A disputa pela região da Antiga Palestina Britânica entre muçulmanos e judeus remete a um antepassado político e religioso. O território é sagrado para as duas crenças.
Confira a área do conflito

O professor aponta que, a assembleia geral da recém-criada Organização das Nações Unidas (ONU), em 1947, criou um plano de partilha para o então território palestino entre um Estado árabe e um judeu.
Jerusalém ficaria sob controle internacional da ONU. O Plano foi aceito pelos líderes judeus, mas rejeitado pelos árabes e a ideia nunca foi implementada.
Apesar disso, foi declarada a criação do Estado de Israel, em 1948, sem uma solução pacífica.
No dia seguinte, a primeira guerra árabe-israelense, de fato, começou quando “o Estado de Israel foi invadida por estados árabes vizinhos, como o Egito e a Jordânia, e isso deu origem à Primeira Guerra da Região”, diz o professor de relações internacionais.
Os Estados Unidos foram um grande apoiador da criação de Israel e aliado fiel na região do Oriente Médio.
Durante a Guerra Fria, enquanto a União Soviética apoiava os países árabes, os americanos começaram a treinar e armar os militares judaicos. E desde então, fornece recursos e financia o Estado de Israel.
“Dentro dos Estados Unidos há uma grande comunidade judaica, e esses judeus norte-americanos ou emigrados para os Estados Unidos têm um papel de mobilização muito grande, e eles exercem uma pressão sobre o Congresso e o governo americano para que apoie Israel, militarmente. Isso foi estabelecido na década de 1950 e continua a existir até hoje. É o chamado lobby da comunidade judaica nos Estados Unidos”, contextualiza o professor Luciano.
Mais tarde uma nova guerra eclodiu, em 1973, quando Egito e Síria combinados invadiram Israel no dia do perdão, que é o dia do ‘Yom Kippur’, um feriado religioso no calendário judaico, e “eles foram novamente derrotados por Israel”. Confrontos prosseguem até os dias de hoje sem um acordo definitivo de paz.
O que é o Hamas?
Movimento palestino, de orientação sunita e constituído de um braço político e militar, o Hamas foi fundado em 1987. É um grupo extremista islâmico que atua nos Territórios Palestinos, nas regiões da Palestina e Cisjordânia, e desde 2007, governa a Faixa de Gaza.
A palavra “Hamas” é um acrônimo para “Harakat Al-Muqawama Al-Islamiyya”, que em tradução livre significa “Movimento de Resistência Islâmica”.
O grupo tem como objetivo promover a religião e praticar ações de bem-estar social a Palestina. Já a ala militar, que são as Brigadas Izz al-Din al-Qassam, tem como propósito a expulsão de judeus na região e a implantação de um Estado Islâmico que incluiria o território de Israel.
O Hamas não reconhece a existência do um Estado judaico na região.
“O Hamas é uma organização política, militar radical, com a qual não é possível estabelecer negociações de paz. Os integrantes dessa organização são partidários do fundamentalismo islâmico. Então, o que eles defendem é a destruição do estado de Israel e a criação de um estado teocrático nos moldes do Irã, no território onde hoje está o estado de Israel e onde estão os territórios palestinos”, explica o professor.
Em 1967, durante a intitulada Guerra dos Seis Dias, em uma tentativa de Israel de expandir o seu território ocupando as áreas da Faixa de Gaza e Cisjordânia. Ainda, anexam ao seu território a península do Sinai, do Egito, e as colinas de Golã, da Síria.
O Hamas é considerado como organização terrorista pelos Estados Unidos, União Europeia, Japão, Israel e Canadá. Alguns países consideram como organização terrorista apenas o braço militar da organização.
Outros países, como a África do Sul, a Rússia e a Noruega não consideram o Hamas como organização terrorista. O Brasil adota a mesma posição.
“Não consideramos, formalmente, o Hamas um grupo terrorista, muito embora o Brasil tenha condenado os ataques e chamado esses ataques de agora como terroristas, mas o Brasil não chama oficialmente o Hamas de grupo terrorista porque, historicamente, até como responsável pela criação de Israel em 1947 na ONU, o Brasil tem uma posição de defender uma solução pacífica para o conflito com a criação dos dois estados”, segundo Luciano.
Algumas autoridades israelenses e ocidentais afirmam suspeitar do envolvimento do Irã nos ataques do Hamas. O país é um “opositor antagônico de Israel”.
“O mundo muçulmano, com algumas exceções, apoiam a causa árabe. O Hamas é apoiado pelo Irã, então muito armamento ali, inclusive financiamento, é do Irã”, afirma.
Gaza
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 2,6 milhões de pessoas moram numa estreita faixa de terra localizada na costa oriental do Mar Mediterrâneo, no Oriente Médio, e que faz fronteira com o Egito e com Israel. Dessas, cerca de 1,7 milhão são de refugiados palestinos de outras regiões.
A região é marcada por pobreza e superpopulação. A ONU afirma, ainda, que a região tem uma das densidades populacionais mais altas do mundo, e que mais de 65% da população vive abaixo da linha da pobreza.
A cidade de Gaza sofre com cortes de eletricidade diariamente. A maioria das casas do território só tem eletricidade três horas por dia. Além da energia elétrica, a água é escassa para a maioria dos habitantes de Gaza e seu sistema público de saúde enfrenta uma situação precária.
Além do mais, os combatentes do Hamas costumam se esconder em prédios civis e um bombardeio às instalações do grupo, inevitavelmente, atingirá inocentes. A população civil é a que mais sofre em ambos os lados, de acordo com o professor.
Cronologia dos ataques
O fator surpresa do ataque se deve, em parte, pela data escolhida. Os ataques aconteceram durante uma data sagrada para o judaísmo, o Shabat conhecido como “sábado da paz”, quando os judeus descansam após seis dias de trabalho. O shabat começa com o pôr-do-sol na sexta-feira e termina ao anoitecer do sábado.
Os bombardeios também aconteceram horas depois do último dia da celebração do festival judaico Sucot, de acordo com o calendário.
Por volta das 6h30 da manhã (1h30 horário de Brasília), o Hamas disparou uma enorme barragem de foguetes a partir da Faixa de Gaza. O Bombardeio atingiu cidades ao sul do país como Rehovot, Gedera, Ashkelon e mais ao centro, Tel Aviv, segunda maior cidade de Israel.
Segundo um alto comandante militar do Hamas, 5 mil foguetes foram lançados desde Gaza. Israel contesta e afirma ter sido metade desse número, 2,5 mil.
A barragem de foguetes serviu de cobertura para uma infiltração de centenas de combatentes do Hamas. Às 7h40 (2h40 em Brasília), autoridades israelenses confirmaram que homens armados atravessaram a fronteira entre a Faixa de Gaza e Israel, a maioria por brechas nas barreiras de segurança terrestre que separam os dois territórios. Os combatentes chegaram às cidades israelense de Sderot, Beeri, Reim, Magen e o ponto mais distante que conseguiu alcançar, Ofakim, localizado a 22 km a leste de Gaza.
O território judeu foi invadido por ar, mar e terra, com auxílio de parapentes e escavadeiras para furar a cerca que divide as áreas.
Resposta israelense
O primeiro ato do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu foi declarar guerra ao Hamas, classificando o ataque surpresa como “criminoso”.
“Estamos em guerra e vamos vencer. O inimigo pagará um preço que nunca conheceu”, disse Netanyahu em uma mensagem de vídeo divulgada nas redes sociais.
No dia 8, as Forças de Defesa de Israel (FDI) afirmou que bombas foram lançadas em direção a alvos ligados ao setor de inteligência do Hamas na Faixa de Gaza. Os bombardeios seguiram pela madrugada, onde mais de 200 pessoas entre civis palestinos foram mortas.
O exército israelense deu um prazo de 24 horas para a saída imediata de mais de um milhão de habitantes no norte de Gaza, em áreas de fronteira com Israel, e seguissem rumo ao sul.
O Hamas exigiu que a população ignore os avisos e permaneça em suas casas alegando ser uma propaganda falsa para disseminar a confusão nas ruas do território controlado pelo grupo.
Como resposta, um porta-voz da ala militar do Hamas anunciou que iria executar um refém capturado no ataque para cada edifício palestino bombardeado sem aviso. No mesmo comunicado, informou que quatro prisioneiros israelenses mantidos reféns foram mortos em decorrência dos ataques de Israel.
No último dia 9, Israel anunciou um ‘cerco total’ à Faixa de Gaza, que suspende, completamente, o fornecimento de água, eletricidade, alimentos e combustível a uma população dependente.
A tomada de reféns torna a resposta militar de Israel mais complexa e cautelosa
“Temos que esperar, é possível que, a depender do resultado da guerra, o Netanyahu saia fortalecido, caso ele consiga uma vitória contundente, e é possível, também, que ele saia enfraquecido em função dessa falha inicial do serviço de segurança que permitiu a invasão do Hamas”, conclui Luciano Munõz.
Por Fabio Jun Nakashima
Arte: André Ramos/Birô de Criação Ceub
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira