Quando abriu o celular, a vereadora Benny Briolly (PT), do município de Niterói (RJ), sentiu uma sensação já conhecida. Parecia o medo de voltar sozinha para casa e de atravessar uma rua escura.
Era o pavor de existir em voz alta. Mas, dessa vez, o alvo da agressão não era apenas o próprio corpo. A parlamentar sentia que o mandato também estava em risco.
Em entrevista à Revista Esquina a vereadora afirma que é aterrorizante viver com o medo do dia seguinte “Desde sempre nós recebemos ataques, quase sempre nas redes sociais, ameaças de morte e de ataques contra nossa equipe”.

No Brasil, fazer política sendo uma pessoa trans significa caminhar sobre um território de violência permanente. A diferença é que agora os ataques ganharam microfones, plenários, redes sociais e transmissões ao vivo.
Os números ajudam a desenhar esse cenário. Segundo dados da Justiça Eleitoral, quase mil pessoas transexuais concorreram às eleições municipais brasileiras de 2024, número três vezes maior do que o registrado quatro anos antes. Ao mesmo tempo, candidatos trans passaram a relatar mais ameaças de morte, perseguições e tentativas de intimidação política.
“Você não deveria estar aí”
A trajetória de Benny Briolly na política é marcada por uma característica que acompanha lideranças transgêneros brasileiras: a necessidade de transformar a própria sobrevivência em ato político.
Antes mesmo de disputar uma eleição, Benny já atuava em movimentos sociais e organizações voltadas à defesa dos direitos humanos.
Benny relata que a entrada na política institucional surgiu da percepção de que era necessário ocupar espaços historicamente negados às pessoas trans para transformar necessidades em políticas públicas concretas.
“Em determinado momento, percebi que precisava ocupar os espaços de decisão para transformar essas demandas em realidade”, afirmou a vereadora por telefone.
Mas a política surgiu antes mesmo da candidatura.
“Quando uma pessoa trans precisa lutar para estudar, trabalhar, e andar na rua em segurança, já é ato político”, disse
A eleição representou mais do que uma conquista individual, já que abriu caminho para que outras pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ passassem a enxergar a política como um espaço possível de transformação social.
Para ela, chegar a uma cadeira no Legislativo significou romper uma barreira simbólica construída durante décadas de exclusão. Nascida em Niterói (RJ), a vereadora cresceu sem referências de pessoas trans em cargos públicos.
Apesar de gratificante, a chegada ao parlamento também trouxe novos desafios. Benny relata que, durante a campanha e após a posse, passou a enfrentar ataques constantes motivados não apenas por posições políticas, mas principalmente pela identidade de gênero.
“Receber uma ameaça muda a rotina, a relação com a cidade e até a forma de enxergar as pessoas. Passei a ter medo de atividades simples do cotidiano”, expõe.
Segundo ela, a violência política contra pessoas trans possui uma característica particular: muitas vezes o objetivo não é contestar propostas ou projetos, mas questionar a legitimidade da própria existência daquela pessoa no espaço público. “Tentam fazer você acreditar que não pertence àquele lugar”, lamenta.
A diversidade, portanto, é um ponto crucial em cargos de representação.
“Uma democracia só se fortalece quando diferentes grupos da sociedade conseguem participar efetivamente das decisões políticas”, afirma.
Nesse sentido, a atuação busca não apenas defender pautas relacionadas à população LGBTQIAPN+, mas também ampliar o acesso de grupos historicamente marginalizados às estruturas de poder.
Roteiro conhecido
A primeira deputada federal negra e transexual do Brasil, Erika Hilton (PSOL), costuma dizer que o Congresso Nacional pode ser mais perigoso do que as esquinas onde viveu durante a adolescência.
“O anonimato da rua me protegia. Hoje os ataques são direcionados à minha pessoa”, afirmou em entrevista à TV Brasil.

Antes de ocupar a Câmara dos Deputados, Erika já conhecia a violência institucional, marcada por atos ou omissões praticados pelo Estado ou por instituições públicas e privadas que resultam em violações dos direitos humanos.
Expulsa de casa ainda jovem, viveu a prostituição compulsória, realidade que ainda é compartilhada por milhares de mulheres trans e travestis brasileiras excluídas do mercado de trabalho formal.
Em 2023, o plenário virou trincheira. Durante uma sessão da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos atos golpistas, Erika denunciou violência política de gênero após ataques feitos pelo deputado Abílio Brunini (PL).
A cena se espalhou pelas redes sociais como símbolo de uma política que ainda reage com hostilidade à presença de pessoas transgêneros em espaços de poder.
Há quem saiba o peso das palavras
Em solidariedade à colega, a deputada Duda Salabert (PDT) se pronunciou. “Quando uma travesti ocupa espaço de destaque, ela vira alvo de silenciamento”, declarou.
Professora, ambientalista e uma das primeiras mulheres trans eleitas deputadas federais no Brasil, ela relatou ter recebido ameaças constantes desde o início da trajetória política. Duda chegou a receber ataques virtuais, por carta e por meio de um site criado por grupos de oposição, que, com detalhes, contavam o que fariam contra ela. A deputada diz que precisou alterar rotinas e reforçar cuidados de segurança por causa da exposição pública.

O cientista político Matheus Decnop, mestre e doutorando em ciência política pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, e especialista em política e sociedade pelo IESP-UERJ, explica que a presença de pessoas transgênero e de outros grupos historicamente marginalizados em espaços de poder possui uma importância que vai além da representatividade simbólica.
Segundo ele, existe um valor significativo no fato de integrantes desses grupos conseguirem se enxergar ocupando cargos políticos. “É importante o efeito simbólico. A representação descritiva de você poder ver que o Brasil tenha em seu Legislativo, governantes e poderosos com mais cara de Brasil”, afirma.
Ainda de acordo com o especialista, o principal impacto está na capacidade de transformar experiências de exclusão em pautas concretas dentro das instituições, como busca a vereadora Benny ao entrar na política.
Para o pesquisador, há uma distância evidente entre a composição da sociedade brasileira e dos espaços de poder. “Hoje em dia quem tem poder no Brasil é um homem branco cis, sendo que o país é majoritariamente negro e feminino. Observa-se um abismo entre o que é a sociedade brasileira e o Congresso Nacional”, constata.
No entanto, Decnop argumenta que a principal contribuição desses representantes está na chamada representação substantiva, conceito que se refere a ação de um representante que atua ativamente em defesa dos próprios eleitores. Segundo ele, pessoas que vivenciaram processos de discriminação possuem maior sensibilidade para compreender demandas historicamente negligenciadas pelo Estado.
Na avaliação do especialista, em entrevista ao Esquina, parlamentares vindos desses grupos tendem a pautar temas que muitas vezes não encontram espaço entre as elites políticas tradicionais. “O deputado que vem do morro não tem medo de debater favela. A deputada trans não tem medo de debater a transfobia. É por isso que é importante que essas representações cheguem ao poder”, afirma.

Agressão a corpos diversos
Ao analisar especificamente a situação das pessoas transgêneros na política, o especialista destaca que a violência faz parte da trajetória dessa população muito antes da entrada na vida pública. “Corpos trans são corpos historicamente relacionados com agressões diversas, seja pela própria sociedade ou pelo Estado. São corpos violentados, colocados à margem”, explica.
Segundo ele, quando pessoas trans passam a ocupar espaços de destaque e reivindicar direitos, enfrentam uma reação de setores conservadores que resistem à ampliação dessa participação, como foi visto com a vereadora Benny Briolly e a deputada Erika Hilton.
“Pessoas que antes entendiam que elas deveriam viver nas sombras passaram a rejeitar a ideia de vê-las ocupando novos espaços”, analisa. Para o pesquisador, essa resistência ajuda a explicar o elevado número de ataques direcionados a candidaturas e mandatos trans no país.
Apesar das dificuldades, o especialista acredita que o aumento da presença de pessoas transexuais na política representa um avanço importante para a democracia brasileira. “É a representação de alguém que viveu aquilo que o outro está sentindo e sabe a urgência de responder ao que esperar da política”, conclui. Para ele, a ampliação da diversidade nos espaços de poder é um passo fundamental para aproximar as instituições da realidade da sociedade brasileira.
Ainda assim, elas seguem
Há uma frase que atravessa um dos grandes romances de Guimarães Rosa, O Grande Sertão: Veredas: “Viver é muito perigoso”. Para pessoas transsexuais na política brasileira, essa ideia ganha dimensão concreta. O perigo aparece nas ameaças recebidas pelas redes sociais, nos discursos transfóbicos dentro dos parlamentos e na necessidade de proteção constante.
Benny Briolly passou a utilizar escolta armada depois de receber ameaças de morte. Erika Hilton denunciou ataques transfóbicos em sessões do Congresso Nacional. A violência política deixa claro que, para essas mulheres, ocupar espaços institucionais ainda significa desafiar estruturas que historicamente tentaram expulsá-las da esfera pública.
Por João Pedro Carvalho
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira


