Em 2026, foram confirmados três casos de sarampo no Brasil: um bebê de 6 meses fora do calendário de vacinação e um homem de 42 anos que viajou para fora do país, ambos em São Paulo, além de uma mulher do Rio de Janeiro que não estava vacinada. No ano passado, foram registrados 38 casos.
O Brasil reconquistou em 2024 o status de país livre da circulação endêmica do vírus do sarampo, mas a situação no continente mantém o alerta: Segundo a nota técnica conjunta do Departamento do Programa Nacional de Imunização e a Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente e o Ministério da Saúde , a região das Américas perdeu o status de zona livre de transmissão em novembro de 2025.
Segundo o documento, hoje, o risco na região é classificado como “Muito Alto”. Os motivos apontados são: a transmissão ativa, a persistência de surtos e a baixa cobertura vacinal registrada em vários países da região.

O sarampo já foi uma doença do passado para os brasileiros. Após uma longa trajetória de queda iniciada nos anos 1990, os casos despencaram com o avanço da vacinação e chegaram a ficar zerados em alguns períodos: em 2004, de 2007 a 2009 e 2016, 2017 e 2023. A sensação de controle, porém, não durou para sempre.
Dados do Ministério da Saúde mostram que a virose voltou a ganhar força entre 2018 e 2020. Depois de registrar 9,3 mil casos em 2018, o país chegou a 21,7 mil em 2019 e atingiu 8 mil em 2020, um dos maiores picos de transmissão nas últimas décadas.
A alta interrompeu uma tendência histórica de redução e demonstrou como a queda da cobertura vacinal pode abrir espaço para o retorno do vírus, considerado um dos mais contagiosos do mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Mesmo após o refreamento registrado nos anos seguintes, o sarampo segue no radar das autoridades sanitárias. Em 2026, o aumento de casos em países das Américas e a confirmação de novas infecções no Brasil reacenderam discussões sobre vacinação e vigilância epidemiológica.
Em alerta
O ressurgimento da doença demonstra que os avanços obtidos pela vacinação precisam ser mantidos continuamente. A infectologista e professora do Curso de Medicina do CEUB, Eveline Vale, explica a alta de casos registrada entre 2018 e 2020.
“O principal motivo é a queda da cobertura vacinal, pois para interromper a circulação do vírus, são necessárias coberturas vacinais superiores a aproximadamente 95%. Quando a cobertura diminui, acumulam-se pessoas suscetíveis e surtos tornam-se mais prováveis”, afirma.

No Brasil, a cobertura da primeira dose atingiu 92,66% em 2025. Na segunda dose, a cobertura atingiu 78,02%.
Segundo a especialista, a doença costuma ser associada apenas às manchas vermelhas na pele, mas a infecção vai muito além disso. A virose começa com febre alta, tosse, coriza, conjuntivite e mal-estar intenso, antes do surgimento do exantema característico.
“O sarampo é uma doença infecciosa causada pelo vírus do sarampo, pertencente ao gênero Morbillivirus. É uma doença exantemática febril de alta contagiosidade”, explica.
Os impactos da circulação do vírus também aparecem na série histórica de mortes. Embora os óbitos tenham diminuído drasticamente em comparação aos anos anteriores à vacinação em massa, eles não desapareceram completamente.
Os registros confirmados pelo Ministério da Saúde mostram que os períodos de maior circulação da doença costumam ser acompanhados pelo aumento de desfechos mais graves.
“A transmissão ocorre principalmente por gotículas respiratórias eliminadas ao tossir, espirrar ou falar; por aerossóis contendo partículas virais suspensas no ar e por contato com secreções respiratórias contaminadas. O vírus pode permanecer viável no ambiente por até cerca de duas horas após a saída da pessoa infectada. A elevada disseminação ocorre porque o vírus é eliminado em grande quantidade pelas vias respiratórias e a transmissão acontece antes mesmo do aparecimento do exantema”, ressalta.
Vacinação
A distribuição de vacinas contra o sarampo segue como uma das principais estratégias para evitar novos surtos da doença no Brasil. Dados do Ministério da Saúde mostram que mais de 134 milhões de doses já haviam sido distribuídas em 2026 até o período analisado. O número mantém uma tendência observada nos anos anteriores, quando foram distribuídos mais de 272 milhões de doses em 2025 e cerca de 280 milhões em 2024.
Embora os números indiquem um amplo esforço de abastecimento da rede pública, especialistas alertam que a simples disponibilidade dos imunizantes não garante a proteção da população. A eficácia da estratégia depende diretamente da adesão às campanhas de vacinação e da manutenção de altas coberturas vacinais em todas as regiões do país.
A distribuição das doses acompanha, em grande parte, a concentração populacional dos estados brasileiros. São Paulo lidera o ranking nacional, com mais de 9,2 milhões de doses distribuídas. Minas Gerais aparece em seguida, com cerca de 5,6 milhões, enquanto o Rio de Janeiro ultrapassa 3 milhões de doses. Os demais estados seguem em proporções menores, conforme demonstrado no gráfico abaixo.
Para o técnico de enfermagem Ciderício Xavier, que atua há mais de dois anos em salas de vacinação, a imunização desempenha um papel essencial na proteção coletiva. Segundo ele, as vacinas estimulam o sistema imunológico a desenvolver mecanismos de defesa capazes de combater vírus e outras doenças infecciosas.
O profissional destaca que o sarampo exige atenção especial por seu elevado potencial de transmissão. De acordo com Xavier, a doença é transmitida pelo ar e pode se espalhar rapidamente em locais onde a cobertura vacinal é insuficiente. “De cada 10 pessoas, dependendo do local, se não tiver as pessoas imunizadas, nove podem pegar esse vírus”, afirma.
Ele alerta que, além da alta transmissibilidade, o sarampo pode provocar complicações graves. Entre elas estão pneumonia, cegueira e encefalite, uma inflamação que afeta o cérebro. Em casos mais severos, a doença pode levar à morte, especialmente entre crianças pequenas e pessoas com o sistema imunológico comprometido.
Apesar do aumento de casos no país registrados entre 2018 e 2020, Xavier afirma não ter observado aumento expressivo na procura por vacinação no Distrito Federal. Segundo ele, a demanda permanece dentro da normalidade, embora a situação possa ser diferente em outras regiões do Brasil.

Os dados de distribuição mostram que o país continua investindo na ampliação do acesso aos imunizantes. O desafio, porém, permanece além da logística: garantir que as doses distribuídas sejam efetivamente aplicadas e que a população mantenha a vacinação em dia para evitar o retorno de uma doença considerada altamente contagiosa.
Casos e tratamentos
Entre os milhares de casos registrados nas últimas décadas, Eduardo Gouvêa foi apenas um deles. Em 1983, aos 5 anos de idade, contraiu a virose no jardim de infância e os primeiros sintomas foram febre alta e mal-estar. A mãe — Solange Gouvea — compartilha que as manchas apareceram logo em seguida, e persistiram durante 15 dias.
“Eu precisava dar banho morno a toda hora e os remédios prescritos pelo médico eram de seis em seis horas. Depois de um tempo, as irritações saíram, mas enquanto ele teve o sarampo, ele teve febre”.
Durante o período em que Eduardo esteve doente, Solange adotou a prática de passar batom vermelho na região dos olhos do filho, na esperança de que as manchas não chegassem no local. A tradição é uma das mais antigas no tratamento do sarampo, mas que não tem nenhuma base científica. Atualmente, é apenas uma curiosidade histórica.
De acordo com a Biblioteca Virtual de Saúde, o sarampo não tem um tratamento específico. Sob orientação médica, os pacientes podem tratar a doença por meio da prescrição de medicamentos para febre, hidratação oral, terapia nutricional e higiene adequada dos olhos, da pele e das vias aéreas superiores.
No mundo
Ao redor do mundo, outros países também chamam atenção pelo elevado número de casos registrados. Em conformidade com a base de dados da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) — entre os anos de 2019 e 2021 — Estados Unidos, Colômbia, Canadá, Venezuela, Argentina e Brasil foram as localidades com altos índices de contaminação da virose, sendo o território brasileiro o primeiro da lista.
A vacina é recomendada para pessoas de 12 meses a 59 anos e é distribuída gratuitamente pelo SUS. É a única forma de prevenir a doença e de diminuir a taxa de infecções.
Por Luisa Mello, Mateus Péres e Pedro Vianna
Supervisão de Katrine Tokarski Boaventura


