A estudante de medicina Camila Diniz Florencio, hoje com 20 anos de idade, é a criadora do canal de Youtube “Na mala da Mila”. Ela iniciou sua carreira de influenciadora mirim aos 10 anos de idade.
Hoje, Camila revela que seu sonho inicial era ser atriz, mas ao compreender os desafios dessa carreira, encontrou no Youtube uma nova forma de conquistar seu espaço.
Discussão latente
O tema do trabalho infantil na internet ganhou mais discussão desde o dia 6 de agosto, quando o Youtuber Felipe Bressanim Pereira, mais conhecido como Felca, publicou um vídeo em que, durante 50 minutos, denunciou casos de sexualização precoce e adultização de crianças nas redes sociais.
A publicação, que alcançou 47 milhões de visualizações, resultou em movimentações jurídicas que procuravam apurar se os responsáveis legais foram omissos no dever de proteger direito dos menores.
Entre as ações decorrentes, destaca-se a aprovação, em 20 de agosto, do Projeto de Lei 2628/22 no Plenário da Câmara dos Deputados, que estabelece diretrizes para a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais.
A proposta seguirá para votação no Senado e continuará em debate na Câmara por 30 dias, conduzida por um grupo de trabalho criado pelo presidente da Casa, Hugo Motta.
Acesso
Segundo a pesquisa TIC Kids Online, publicada em 2024 pelo Comitê da Internet no Brasil, mais de 52% das crianças entrevistadas relataram ter acesso à internet pela primeira vez antes dos 10 anos.
Além disso, 35% dos entrevistados afirmaram já ter publicado textos, imagens ou vídeos de autoria própria nas redes sociais.
Diante do cenário atual, em que crianças e adolescentes ingressam cada vez mais cedo nas redes sociais — especialmente como produtores e divulgadores de conteúdo —, surge um questionamento relevante: é possível que um chamado influencer mirim tenha uma presença on-line segura?
Nesse contexto, qual é o papel dos pais na proteção dessa nova geração de criadores digitais?
Cuidados parentais

NO caso da mãe de Camila, Gracielly Diniz Florencio, que atua também como assessora da filha, recorda as preocupações que ela e o marido enfrentaram com a exposição nas redes sociais.
‘’Eu e o pai dela, ficamos um pouco preocupados, principalmente pelo tipo de conteúdo que ela fazia, que era um conteúdo que expunha muito a vida pessoal “, comentou em entrevista à Agência Ceub.
Durante as edições dos vídeos, ela costumava filtrar e cortar cenas que pudessem atrair olhares mal-intencionados ou dar brecha para público pedófilo.
Entre janeiro e julho de 2025, o Canal Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos da SaferNet Brasil registrou mais de 49 mil denúncias anônimas de pornografia infantil – um crescimento de 18,9% em relação ao mesmo período de 2024.
Riscos
Diante desse cenário alarmante, Priscila Caxito, mãe da influenciadora mirim Valentina, de 12 anos, expressou à Agência Ceub preocupação com a possibilidade de que pedófilos acessem o perfil da filha nas redes sociais.
Como medida preventiva, ela afirma monitorar as publicações e mensagens recebidas, além de evitar divulgar a localização da menina em tempo real.
Valentina fez sua primeira aparição no Instagram aos 1 ano de idade, na conta @Valentinacaxito — criada inicialmente para compartilhar seu crescimento com familiares que vivem fora de Brasília.
Com a vitória no concurso Baby Miss Distrito Federal em 2016, passou a atrair patrocinadores e participar de eventos, ampliando sua visibilidade.
Até o início de 2025, o Instagram era recomendado para maiores de 14 anos, mas em 11 de agosto o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) elevou a classificação para “não recomendado para menores de 16 anos”.

Apoio psicológico
A psicóloga Letícia Borges alerta que, para além dos perigos criminosos, a atuação como influenciador em fases tão precoces do desenvolvimento podem gerar impactos psicológicos significativos.
Questões como distorção da autoimagem, ansiedade, medo de rejeição, dificuldade em lidar com frustrações e em estabelecer limites são algumas das consequências observadas.
Para crianças já inseridas no contexto digital, Letícia reforça que é fundamental garantir os direitos básicos da infância — como estudar, brincar e ter tempo ocioso — e assegurar que a exposição online não comprometa outras áreas da rotina.
“Os pais devem estar atentos a mudanças de comportamento, como irritabilidade extrema, queda no rendimento escolar ou dificuldade de lidar com frustrações. Esses sinais podem indicar que algo não está bem”, afirma.
Ela também recomenda acompanhamento psicológico e a criação de um espaço seguro de diálogo entre pais e filhos.
Camila conta que, para manter sua carreira online, precisou abrir mão de parte da vida pessoal, mas nunca deixou que isso interferisse em seu desempenho escolar.
“Algumas vezes, no dia da prova, eu ficava até tarde gravando, mas era exceção. Sempre fui uma das melhores alunas da turma, com notas excelentes”, afirma.
Segundo a pesquisa do Pisa, programa Internacional de avaliação de estudantes, apontou que alunos que passam mais tempo em dispositivos eletrônicos, têm pontuação menor em matérias escolares.
Ela também revela ter enfrentado episódios de bullying na escola por conta dos vídeos que publicava. Ainda assim, ela afirma ter vivido uma adolescência tranquila e cultivado uma mentalidade saudável — graças, sobretudo, ao apoio constante dos pais, que souberam conduzir a situação com sensibilidade e responsabilidade, sempre colocando o bem-estar da filha acima da carreira como influenciadora.
Valentina também relata que sua interação direta com as redes sociais é limitada. “Tenho amigas que me seguem no Instagram, mas no meu celular as mensagens estão desativadas. Se alguém me manda algo, é minha mãe quem vê e me avisa: ‘Valentina, fulana mandou tal mensagem’”, explica.
Jornada
Hoje, Camila concilia os estudos de medicina com a produção de conteúdo e afirma que pretende seguir nas duas áreas.
“É isso que eu quero para minha vida, eu quero a medicina, eu quero trabalhar ainda com a internet, mas no futuro eu quero conciliar, quero que esteja interligado’’, declara.
Já Valentina, aos 12 anos, mantém uma rotina equilibrada entre a vida online e suas atividades favoritas, como teatro e jiu-jitsu.
Ela costuma fazer apenas uma postagem por dia, geralmente de conteúdo patrocinado, mas ainda assim celebra os pequenos privilégios que a carreira de influenciadora lhe proporcionou.
Por Ana Luisa Oliveira, Isadora Carmona e Laura Cunha
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira