A professora e pesquisadora Luana Souza explica o fenômeno do preconceito e dá dicas de atitudes para combatê-lo.

“Quantas minorias sociais existirem, tantas são as formas diferentes de preconceito”. Essa é a posição da professora e pesquisadora Luana Souza. O campo de pesquisa de se debruça sobre o papel da psicologia no combate às diferentes formas de preconceito.
Durante uma palestra ministrada nesta quinta (3.10), no Centro Universitário de Brasília, a pesquisadora explicou que os alvos dos preconceitos são sempre indivíduos pertencentes a minorias, o que não têm a ver com um dado numérico, mas sim com fugir do padrão estabelecido socialmente como “melhor” e “adequado”.
Isso pode ser exemplificado pelas formas de preconceito citadas por Souza, dentre elas, o capacitismo, o ageísmo, a gordofobia, a LGBTfobia e a misoginia.
Não existe racismo reverso
Tendo em vista que as vítimas de preconceito são sempre pertencentes a grupos minoritários, a acadêmica aponta que não existe racismo reverso.
Ela reitera que o que pode ocorrer é antipatia, não gostar, não ir com a cara, mas preconceito não, pois ele só existe com membros de minorias.
Dessa forma, uma pessoa branca, por exemplo, jamais será questionada em suas competências simplesmente pela cor de sua pele ou a textura de seu cabelo.
Questionada se o preconceito pode ser considerado algum tipo de transtorno mental, a professora nega.
“O fenômeno é social e não uma patologia, por isso não podemos normalizar como uma ‘fobia’ aquele que, por exemplo, tem preconceito contra pessoas homossexuais”, referindo-se à homofobia.
Além disso, o preconceito não é um fenômeno individual, mas grupal, pois fomos criados rodeados pelos estereótipos.
Embora ele não seja inato, nós o apreendemos a partir da realidade social, conforme explica.
Assim, é certo dizer que todos nós somos preconceituosos.
“Nós temos preconceitos, mas também temos a necessidade de sermos pessoas justas”, afirma a doutora.
Como mecanismo de defesa, nós buscamos tentar não ver as desigualdades que nos cercam e, com isso, normalizar as desigualdades. Esse fenômeno, no entanto, também é interiorizado pelos grupos vitimizados pelas diversas formas de preconceito.
Normalização de preconceitos
A pesquisadora menciona como exemplo a disparidade salarial entre os gêneros, de modo que tanto homens como mulheres normalizam essa diferenciação sob a justificativa de que os homens foram melhor preparados ou se esforçaram mais, quando não necessariamente isso é verdade.
Sobre o processo psicológico que conduz do preconceito à discriminação, Luana Souza explica que a junção dos estereótipos com as emoções e as intenções comportamentais resultam na discriminação.
Ou seja, o preconceito pode ser externalizado ou não e, caso o seja, ainda pode se dar de modo sutil, por meio de piadas ou ditos populares.
Isso torna o combate aos preconceitos bastante difícil, à medida em que a lei consegue dar conta apenas da discriminação, ou seja, daquilo que é externalizado.
Para lidar, portanto, com o preconceito impregnado na mente dos indivíduos, é preciso combater e desmistificar os estereótipos.
Psicologia pode combater
É nesse lugar que entra, segundo a pesquisadora, a psicologia, como grande aliada na desconstrução de ideias equivocadas que envolvem elementos históricos, políticos, econômicos, mas também cognitivos, motivacionais e ideológicos sobre os grupos minoritários.
Essa junção de fatores escancara ainda mais a interdisciplinaridade dos preconceitos, questão à qual a doutora dá uma resposta clara. “Estudar sobre preconceito é transpor os muros da Psicologia”.
O caminho para desfazer estereótipos é a informação e o contato com as diferenças, já que pessoas com preconceitos muito enraizados não chegam nos consultórios psicológicos, é preciso que o profissional atue num âmbito social, transpondo os muros da clínica.
Um ambiente muito propício para essa educação é a escola, diz a professora, pois os jovens ainda estão construindo as formas de pensar, embora nunca seja um caminho fácil, pois a sociedade reforça incessantemente os preconceitos.
“Mas as mudanças existem. Se não existissem, as mulheres nem mesmo estariam trabalhando, votando ou dirigindo”, reflete Souza.
A acadêmica ainda cita algumas maneiras de atuar no combate a todas as formas de preconceito, dentre elas destacam-se:
- Estudar e ler livros de autores pertencentes a grupos minoritários (mulheres, pessoas negras, LGBTQIAP+, idosos etc.);
- Participar de grupos de estudos;
- Tratar o fenômeno a partir de causas sociais e não individuais;
- Buscar ajuda profissional que atue no fortalecimento de identidades sociais positivas;
- Desenvolver estratégias de intervenção social que combatam estereótipos e promovam a valorização da diversidade e respeito aos direitos humanos;
- Fortalecer os movimentos sociais e de combate a diferentes formas de preconceito e discriminação;
- Atentar para suas escolhas nas eleições de representantes políticos.
Por Beatriz Laviola e Danilo Lucena
Supervisão: Luiz Claudio Ferreira