Crescem casos de feminicídio no DF

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Primeiro, a paquera. Depois a troca de olhares, a proximidade. Os beijos, as promessas, os sonhos de casal. Demonstrações de companheirismo e cuidado. Mais beijos e abraços, planos concretizados, encontros de família, festas e até filhos. Ninguém quer e muito menos imagina que tudo isso possa se transformar em um pesadelo. Os beijos viram ofensas, puxões pelo braço e no cabelo e… tapas, murros, espancamentos e ameaça de morte. As feridas ficam abertas mesmo depois de curadas. Não se cicatrizam com os remédios. O amor, quem diria, que iria se transformar em medo, angústia, dor e sofrimento. Esta não é uma história que contabiliza apenas o número de casos de feminicídio em plena capital do país, mas tenta entender qual foi o enredo anterior que transformou o romance em filme de terror.

“O jeito que ele me agredia parecia que estava brigando com outro homem, ele me chutava muito, nas costas, costelas, várias vezes eu fiquei com marcas, roxos, hematomas”, desabafou Marcela*, de 25 anos. Nessa história, o relacionamento durou três anos. Ela revela que, no início, a relação era saudável e com respeito. Mas, a rotina mudou e com alguns meses de namoro começaram as primeiras agressões verbais, daí em diante a situação do casal se transformou completamente. Com pouco mais de um ano de relacionamento começaram as primeiras agressões físicas.

Bianca*, de 22 anos, relembra a primeira agressão que sofreu pelo pai de seu filho que conviveu por quatro anos. “Achei que aquele seria meu último dia. Lembro de momentos dentro do carro ele passando a arma em mim perguntando se eu amava ele se depois daquela noite eu iria terminar, e tudo que eu conseguia dizer era que não iria deixar ele, foi uma noite muito longa”, relembra a jovem.

Bianca* fala que no início o rapaz era um amor, tudo era mil maravilhas e que não demonstrava o que ele se tornou. Namoraram três meses e depois já estavam morando juntos, os quatro anos de relacionamento foram de inúmeras agressões, inclusive durante a gravidez. Ela disse que as agressões não eram só físicas, ele que- brava as coisas dentro de casa. Os pais nem imaginavam que ela passava por esse tipo de coisa, mas uma hora não deu mais para esconder. “Eu tinha uma amiga que eu contava tudo para ela, ela ficava desesperada porque não sabia o que fazer, já que eu não queria contar para os meus pais, mas um dia ela procurou eles para contar tudo que estava acontecendo comigo. Eles ficaram desesperados, doidos pra me tirar de lá, mais eu sempre acreditava na mudança dele”, admite.

A jovem Bianca*, por amar muito o rapaz e pelas ma- nipulações dele de que iria mudar o comportamento, não o deixava. Sempre acreditava que ele mudaria. Mas não mudou. “Eu conseguir ter a decisão de sair de casa pelo meu filho, e nunca confiei nele mais. Até hoje ele me ameaça , eu tenho muito medo dele fazer algo comigo e ser muito tarde”, desabafa.

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Uma cultura dilacerante

Foi descontrole? Foi loucura? Ele era ciumento demais! Ah, mas ele a amava demais! Ele estava desesperado! Ele era nervoso e ela sabia! Ela brigava demais! Ela não o largou porque não quis! Geralmente são esses os argumentos, para tentar explicar o inexplicável, tentar justificar o que na verdade não tem justificativa.

Quando se tenta compreender as diferenças de gênero e por que estudar melhor a estrutura da nossa sociedade percebe-se que vivemos em uma sociedade patriarcal e que talvez a “fragilidade” feminina já vem de um histórico passado. A professora de direito penal e advogada Carolina Costa Ferreira, afirma que a estrutura da nossa sociedade é patriarcal e que poderia ter sido diferente. “Nossa sociedade é patriarcal, é a que produziu os mecanismos da colônia portuguesa desde o início da estruturação, extinguindo uma série de questões culturais dos povos indígenas que poderiam repensar a estrutura patriarcal. Há muitas comunidades indígenas que valorizam os saberes femininos e colocam as mulheres em posição de liderança mas nós produzimos a lógica da colônia portuguesa “, explica a professora.

A professora de processo penal e coordenadora do Projeto Violência Doméstica (PROVID) do Uniceub Camilla de Magalhães Gomes, explica que é muito difícil estabelecer relações causa-efeito para fenômenos comportamentais, sociais e culturais, quando se refere ao o que leva um homem a cometer esse tipo de violência, mas que há algumas explicações para tanta violência. “Dentro do feminismo, há correntes e explicações diversas e complementares. Para algumas, a questão está centrada no patriarcado como uma estrutura social que organiza as relações individuais e dita ou determina comportamentos e sustenta ou autoriza que ele cometa essa violência”, relata.

Já a pedagoga e orientadora educacional, Marlene Alves, 54 anos, disse que é necessário interferir a partir da escola. Tanto em casa como na escola, a cidadania e o respeito devem ser trabalhados de forma permanente. Para ela se a criança fosse orientada para respeitar o próximo não teria tanto machismo e nem discriminação dentro da sociedade em que vivemos, diz se assustar com os casos que presencia dentro da escola. Ela não vê sentido em observar violência e não fazer nada. “Por isso está acontecendo muita coisa, as pessoas veem as brigas de namorados, maridos na rua e deixa, o que acontece? Mais uma morte”, destaca a pedagoga.

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O Ditado

“Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher?!” Para a diretora jurídica da ONG Artemis (associação feminista), a advogada Ilka Teodoro, esse ditado foi revogado a partir do momento que foi promulgada a Lei Maria da Penha, tanto pela lei como pelos tratados que são legalizados pelo Brasil o estado tem obrigação de não tolerar nem praticar nenhuma forma de violência de discriminação contra as mulheres. “Do mesmo jeito, a família e amigos próximos, ou até mesmo quem presenciou algum tipo de violência seja ela verbal ou física têm o dever de auxiliar a mulher a se livrar daquela situação”, ressalta Ilka Teodoro.

Culpa

Nos dois relatos das vítimas de violência doméstica contidos nesta reportagem constata que, depois das agressões, os companheiros choravam, se arrependiam, pediam desculpas, falavam que nunca mais aquilo ia acontecer e dias depois as cenas se repetiam. Bianca* afirma que, no dia seguinte da primeira agressão, o ex companheiro se arrependeu muito. “Ele veio bater na porta da minha casa desesperado pedindo para eu perdoar ele, que ele estava descontrolado. Me pediu mil perdões, que me amava que não aguentava me perder”, relembrou. O ciclo se repete. Segundo especialistas, eles sempre falam que não vai acontecer novamente, mas acontece.

Há o estágio em que a vítima se culpa por estar passando por essas agressões. Para Ilka Teodoro, é muito comum que algumas mulheres se sintam culpadas por estarem sendo agredidas, ou até mesmo buscarem justificativas para tamanha covardia. “A problemática chegou a tal ponto que a violência contra a mulher é algo que foi banalizado e naturalizado na sociedade a um nível das mulheres confundirem atitudes possessivas ou de manipulação com gestos de amor”, enfatiza a diretora.

Marcela* passou por esse estágio no seu relacionamento abusivo. Inclusive não denunciava por ter medo do seu ex companheiro ser preso e ela ser a culpada. “Eu tinha medo dele sofrer na cadeia e eu ser a culpada disso, eu ter colocado ele lá”, relatou. Marcela*, revela também que a ex sogra não concordava com as atitudes do filho mas que chegou a jogar a culpa nela. “Ela falava que se ele tinha essas atitudes era porque algo de erra- do eu estava fazendo, porque ela falava que eu não era flor que se cheirasse”, desabafa a jovem.

Desfechos

Medo, revolta, angústia, desespero, dor, lágrimas e a saudade marcam o capítulo final desse enredo tão real quanto assustador. O fim trágico de um ciclo é marcado por diversos tipos de violências.

De acordo com dados fornecidos pela Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social, entre janeiro e agosto de 2018, foram registrados 20 casos de feminicídio no Distrito Federal, o que já ultrapassa o ano todo de 2017 que foram registrados 19 casos. Desse total de 20 incidentes , 11 dos autores estão em prisão provisória, seis cometeram suicídio, um está foragido, um não foi identificado e um está em liberdade provisória.

A Secretaria informou que, assim que uma morte violenta de mulher é identificada, a ocorrência passa a ser tratada como feminicídio. Quando as investigações são concluídas, caso se confirme que não se trata de feminicídio, a hipótese é descartada e o boletim de ocorrência é alterado. Segundo a secretaria, por e-mail para a reportagem, esse método foi adotado para garantir que provas importantes em crimes de gênero sejam preservadas e as investigações fiquem cada vez mais qualificadas.

Destroços

Após a tragédia, fica saudade e dor. Pais, avós, tios , tias, primos, e amigos que compartilham dos mesmos sentimentos… O que resta entre os destroços é revolta e obstinação por tentar “fazer justiça” a fim de reparar e amenizar o sofrimento.

Jéssyka Laynara, 25 anos, foi vítima de feminicídio no dia 4 de maio deste ano, foi morta a tiros pelo ex-namorado dentro da casa onde morava com avós e primos em Ceilândia. O primo, Luiz Claudio Rocha, que morava com ela, diz que Jéssyka era uma menina muito doce, inocente, batalhadora. Ele revela que o antigo casal, nos últimos meses de relacionamento, tinha algumas brigas mais intensas, mas que ela escondia. Alguns episódios de violência foram informados só depois à família por uma amiga.“O desfecho foi esse, infelizmente. Um trauma que leva pro resto da vida porque eu a vi morta. Eu vi o que aconteceu, pois estava em casa dormindo. A minha família sofre todos os dias e a gente vai lutando por justiça sempre”, desabafa.

Adriana Castro, 40 anos foi morta pelo ex-marido na frente da casa da mãe, onde estava morando depois da separação. No último dia 7 de agosto, o homem disparou contra Adriana e em seguida em si mesmo. O casal tinha dois filhos. O mais velho viu toda a cena da janela de casa. O irmão de Adriana, corretor de imóveis, João Ramos, diz que, além de irmã, ela era amiga, companheira, mãe e uma mulher “temente a Deus”, revela que a família já estava assustada e com medo devido a algumas ameaças com arma voltada para ela e promessas de matá-la junto aos filhos. “Não há explicação, justificação para uma perda de um ente querido que foi tirada de nós, poderia ser por uma enfermidade, mas nunca por isso. Nós pensamos nela todos os dias”, lamentou o irmão. Para quem estuda violência de gênero, é indispensável em situações assim, que o caso seja denunciado para a polícia e que sejam procurados grupos de apoio.

*Os nomes das vítimas foram alterados nessa matéria para preservar a identidade e segurança delas.

Por Julyanna Nepomuceno

Matéria publicada em dezembro 2018, na Revista Esquina

*Artes: Arnaldo Felipe

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