Projeto Guia Acessibilidade Inclusiva amplia participação de artistas no cenário cultural brasiliense 

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Com cursos, oficinas e programação acessível, o projeto fortalece a inclusão e amplia a visibilidade de artistas com deficiência no DF.

Criado em 2017 pela coordenadora de acessibilidade Cássia Lemes, 46 anos, o Guia Acessibilidade Inclusiva tem como objetivo desenvolver práticas de acessibilidade no setor cultural e ampliar a participação de artistas com deficiência em eventos, programações e ações formativas do Distrito Federal.

 A iniciativa promove experiências culturais acessíveis por meio de exposições, festivais, palestras, oficinas e aulas online gratuitas. Desde o início, o foco de Cássia era ampliar o acesso do público com deficiência a produções culturais. Com o tempo, o projeto passou também a priorizar a visibilidade e o reconhecimento de artistas com deficiência. 

“Minha preocupação sempre foi como trazer o público com deficiência para as produções culturais. Agora, o foco também é outro: como garantir visibilidade e respeito aos artistas com deficiência, para que se sintam seguros em seu espaço”, explica. 

Um levantamento nacional realizado pelo governo federal em fevereiro deste ano reforça a importância desse debate. O Mapeamento Acessa Mais, parceria entre o Ministério da Cultura e a Universidade Federal da Bahia (UFBA), registrou 3.498 cadastros de artistas, agentes culturais com deficiência e profissionais da área de acessibilidade cultural em todo o país. 

A base servirá para subsidiar políticas públicas voltadas à formação, valorização e inserção profissional de pessoas com deficiência no campo cultural.

Cássia Lemes no festival Trilha da Inclusão.

Foto: Tatiana Reis

Trilha da Inclusão: formação, visibilidade e cultura acessível 

A edição mais recente do Trilha da Inclusão, iniciativa vinculada ao Guia, ocorreu em agosto, no Espaço Cultural Renato Russo. O festival oferece visibilidade a artistas com deficiência e cria oportunidades para apresentações, exposições e circulação de trabalhos. 

A programação reuniu diversas expressões artísticas, incluindo o Grupo Nó Cego, do qual faz parte Denise Braga, 46 anos. Única mulher do grupo de samba, ela ressalta que ainda há resistência no reconhecimento profissional de artistas com deficiência.

Grupo Nó Cego se apresentando no festival Trilha da Inclusão

Foto: Tatiana Reis

 “As pessoas acham que a gente toca de graça porque é grupo de cego. Mas a gente tem que mostrar trabalho, ritmo, música”, afirma. Para ela, cada apresentação reforça que capacidade não se mede por rótulos, e sim pelo que se entrega no palco. 

Denise destaca que projetos culturais inclusivos têm papel fundamental na construção de oportunidades. “Se não fossem esses projetos, talvez a gente nem fosse conhecido. Esse olhar diferenciado valoriza o profissional com deficiência e mostra nossa capacidade”, diz. Segundo ela, iniciativas como o festival permitem que artistas apresentem seu talento e ampliem o contato com o público. 

Iniciativas e visibilidade 

O rapper Fillipe Costta, 40 anos, também participou do festival. Para ele, ações como o Trilha da Inclusão são essenciais para ampliar a presença de artistas com deficiência no cenário cultural. “O hip-hop leva informação, inclusão e conscientização. Em cima do palco, eu reivindico direitos e falo sobre preconceitos”, afirma. 

Apesar da trajetória consolidada, Fillipe aponta barreiras recorrentes: falta de infraestrutura, ausência de pertencimento e escassez de espaços acessíveis. Sua história pessoal também atravessa seu trabalho: aos nove anos, após um acidente de carro que resultou na amputação da perna direita, viveu um período de isolamento e depressão, superado por meio da música e do movimento cultural da periferia. 

Fillipe Costta no festival Trilha da Inclusão

Foto: Tatiana Reis

Dessa vivência nasceu o projeto Eficientes, que leva oficinas de break, MC, DJ, grafite e escrita criativa para escolas públicas.

 “O projeto mostra que nossas diferenças nos tornam únicos. É uma inclusão com equidade, para que todos participem de forma efetiva”, explica. Ele reforça que despertar pertencimento nas crianças é essencial para combater o capacitismo desde cedo. 

Cultura e educação 

A educadora e cantora da banda Surdodum, que também esteve na programação do festival, destaca que há um longo caminho para a sociedade compreender o valor do artista com deficiência. “A sociedade ainda precisa aprender a ver o artista com deficiência como alguém produtivo, talentoso, capaz. O que a gente faz é arte, e isso não depende de laudo”, afirma. 

O Surdodum, criado há 30 anos, trabalha com o protagonismo da comunidade surda. Nos shows, a percussionista e fundadora costuma lembrar o público: “Apesar de eu ter elaborado o Surdodum, eu sou ouvinte. O trabalho não é para a gente, é para eles”, explica ao ensinar o gesto do “aplauso visual”, feito com as mãos erguidas balançando no ar. 

Para ela, projetos como o Guia Acessibilidade Inclusiva e o Trilha da Inclusão abrem portas e ampliam horizontes. “Se não existissem esses projetos, menos ainda apareceriam os artistas com deficiência. É a sensibilidade e o respeito de quem cria essas iniciativas que fazem a diferença. Precisamos de muito mais projetos como esses, para ampliar cada vez mais o acesso e o protagonismo desses artistas.”

Banda Surdodum em uma de suas apresentações

Foto: Ana Lúcia

Aúdio: Revista Esquina

A seguir, clicando no link, você encontrará o áudio de narração produzido a partir do texto publicado na Revista Esquina. Nele, são detalhadas a trajetória dos artistas e a história do próprio projeto idealizado por Cássia. A narrativa apresenta riqueza de informações e inclui falas dos personagens, preservando suas aspas e perspectivas.

https://drive.google.com/file/d/1X9H42Nwmw3C3mWcvQ5C7mSgh8Ej4Edca/view?usp=sharing

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