Dubladores de todo o Brasil iniciaram uma com o objetivo de impedir a interferência da Inteligência Artificial no seu trabalho. Nas redes sociais, dubladores e fãs da dublagem gravaram vídeos de apoio à campanha e fazendo com que o engajamento aumentasse a cada post.
A possibilidade da IA ameaçar a continuidade da profissão de milhares de profissionais ao redor do país, fez com que os dubladores procurassem uma asseguridade maior desde os contratos que são assinados nos estúdios a cada produção iniciada.
Sem contratos
A partir do dia 31 de março deste ano, os profissionais da voz ao redor do Brasil e do Mundo paralisaram a assinatura de contratos com estúdios que não possuíam cláusulas de proteção contra o uso de IA generativa e outras tecnologias semelhantes.
Em conversa com a Agência de Notícias CEUB, o dublador e ator Francisco Júnior, responsável por dublar personagens como o Aquaman, afirmou que ambos os atores da voz já estão se mobilizando juridicamente com o objetivo de obterem garantias de assegurar sua profissão. Além disso, ele reforça que não é contra a tecnologia.
“É importante deixar claro que não somos contra a tecnologia, eu não seria maluco de ser contra o avanço tecnológico. A grande questão é nos blindarmos juridicamente e hoje já temos uma comissão que cuida dessa parte”, disse o dublador.
Dublador Francisco Júnior em entrevista à Agência CEUB. Foto: Marcelo Thompson.
Legislação
O movimento em prol da regulamentação do uso da inteligência artificial não ocorre apenas no Brasil e com o passar dos meses de 2024, os dubladores brasileiros descobriram que suas demandas reivindicadas eram as mesmas de outros países mundo afora.
A United Voice Artist (UVA), movimento internacional de luta pela regulamentação da Inteligência Artificial na dublagem, envolve profissionais de diversos países como Estados Unidos, Canadá, Espanha, Alemanha e muitos outros.
Em nota divulgada nas redes sociais, assinada pela Dublagem Viva e UVA, os profissionais da voz reforçaram sua luta e os direitos que reivindicam. No post, os dubladores deixam claro que sua luta não é contra os estúdios e sim pelo uso seguro de suas vozes.
“Não é uma luta contra os estúdios de dublagem, tampouco contra as distribuidoras e exibidores, apenas uma luta pelo nosso direito de decidir pelo uso de nossa voz em tempos de avanço tecnológico”, afirmam dubladores em trecho da nota.
Ameaça
Além da inteligência artificial ser capaz de realizar diversas funções com agilidade, a grande ameaça para o trabalho dos dubladores está no fato de que a IA já é capaz de copiar vozes.
A dubladora Tati Keplmair, voz da personagem Nami, do famoso Anime One Piece, avalia que há riscos para os profissionais se não houver a devida regulamentação. Segundo a dubladora, a perda da humanização seria um dos principais prejuízos para o trabalho que tanto ama.
“A tecnologia é muito importante, mas se ela interferir na arte na minha opinião a gente perde a humanidade, o toque que só nós dubladores conseguimos dar no nosso trabalho. Estamos muito perto de conseguir um desfecho positivo com a nossa lei de regulamentação de IA, que está no Congresso”, disse Tati Keplmair.
Dubladora Tati Keplmair em entrevista com jornalistas. Foto: Marcelo Thompson.
Durante a entrevista com a Agência CEUB, a dubladora reforçou que a intenção dos profissionais da voz não é impedir a IA de existir e sim lutar pela regulamentação para que possam entender como usá-la para o bem maior não só da dublagem, mas também de todas as outras profissões.
“Nós somos os dados, nós podemos ser as próprias fake news e podemos ser usados, então diante disso é necessário que a regulamentação aconteça já, pra ontem, pois a tecnologia vai existir e virá com tudo”, explicou a dubladora.

Para Lipe Volpato, a inteligência artificial pode até copiar a voz do dublador. “Mas não o sentimento e a emoção que ela passa para a cena”.
Projeto de Lei
Atualmente, está em tramitação no Senado Federal o Projeto de Lei (PL) 2338/2023, que dispõe sobre o desenvolvimento, implementação e o uso responsável de sistemas de Inteligência Artificial (IA) no Brasil.
O projeto visa proteger os direitos fundamentais e garantir a implementação de sistemas seguros em benefício dos profissionais humanos.
Sobre a tramitação, ainda se encontra em estágios iniciais na Comissão Temporária Interna Sobre Inteligência Artificial no Brasil do Senado. As atividades começaram no dia 21 de fevereiro deste ano e está sob relatoria do senador Eduardo Gomes (PL-SE). Até o momento, o PL está sob análise do relator.
Por Gabriel Romeiro e Marcelo Thompson
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira