O jornalismo é uma área que está em constante evolução, e uma das tendências mais recentes é a utilização de inteligências artificiais (IAs) em diferentes etapas do processo de produção de notícias. No presente, as IAs já são utilizadas para realizar tarefas como análise de dados, verificação de fatos e até mesmo redação automática de notícias. No entanto, a utilização das IAs no jornalismo ainda é controversa, com alguns profissionais temendo que a automação possa substituir o trabalho humano e enfraquecer a qualidade do jornalismo.
Ahhh, antes de continuar a leitura, é bom antecipar que o parágrafo acima foi feito uma provocação ao Chat GPT pelo repórter: escreva sobre jornalismo e inteligência artificial. O que está abaixo foi feito por mim, humano. Eu juro. A diferença de um texto feito por uma máquina e por um ser vivo deve ser a humanidade e o aprofundamento, segundo as fontes ouvidas para esta reportagem.
Filmes e romances de ficção científica criaram um imaginário de que os robôs são uma ameaça para a sociedade, centenas de obras influenciaram uma visão onde a raça humana perde o controle de sua criação e passa a ser dominada por ela. Hoje já é possível utilizar diversas ferramentas que utilizam IA para automatizar algumas tarefas, criar imagens do zero e até mesmo redigir textos. Esse rápido avanço tecnológico vem preocupando diversas profissões.
Com o jornalismo não é diferente. Ferramentas que utilizam inteligência artificial, como o Chat GPT, podem redigir grandes textos em poucos segundos com base em poucas informações. Mas é possível diferenciar um texto escrito por IA para um texto escrito por humanos? À primeira vista é difícil diferenciar o texto da inteligência artificial para um texto humano.
Mas então será esse o fim da profissão como conhecemos? Para a jornalista Silvia Dalben Furtado, pesquisadora em jornalismo automatizado e doutoranda da Universidade do Texas, esse não deve ser um motivo de desespero.. Para a pesquisadora, o uso de ferramentas de IA devem ser encarados com naturalidade pelos profissionais do jornalismo.
“Quando pensamos historicamente, o jornalismo sempre foi uma profissão pautada pela tecnologia e que se adapta às evoluções tecnológicas. Então é impossível desassociar o jornalismo com as tecnologias que usamos e com as ferramentas que utilizamos para comunicar.”
Desde o surgimento da profissão, o jornalismo passou por avanços tecnológicos e se adaptou a todos esses progressos. Logo, nessa linha de raciocínio é possível entender que o avanço das IAs não será o fim do jornalismo, e sim mais um capítulo da profissão. Afinal, como apontou Silvia, “Como pensar o jornalismo sem pensar na prensa de Gutemberg? Sem pensar na invenção do telégrafo, do telefone, da fotografia, do rádio, da televisão, dos computadores e da internet?”
IAs e a incerteza no jornalismo
Diferentes gerações de profissionais da comunicação enxergam de formas diferentes a utilização das IAs. As opiniões se dividem entre o fascínio de poder usufruir de uma tecnologia que pode poupar preciosos minutos em uma profissão onde muitas vezes o tempo é escasso, e o receio de perder espaço e até de fato ser substituído, afinal se as IAs chegarem a um nível onde elas redijam textos jornalísticos em poucos minutos de qual vai ser a necessidade de uma empresa manter empregado os jornalistas?
Procurei entender com jornalistas de diferentes gerações qual o sentimento que eles têm em ouvir falar sobre as IAs na profissão e as respostas foram as mais diversas. A jornalista formada há 9 anos, Sarah Teófilo, de 30, preferiu focar no papel adaptável que os jornalistas exercem, afinal se a profissão se adequou a tantos avanços tecnológicos tão ou mais impactantes quanto o surgimento das IAs não será agora o colapso do jornalismo na visão de Sarah.
“Eu entendo que o uso de inteligência artificial vai nos ajudar com o nosso trabalho, mas não nos substituirá. Jornalismo é mais que análise documental e escrever textos factuais. Existe o fator humano, de apuração, que a IA não substitui.”
Há quem compartilhe dessa visão mas com ressalvas, a jornalista com 5 anos de formação Amanda Gil, de 26, entende que utilizar as inteligências artificiais como ferramentas para auxiliar em tarefas do jornalismo vai se tornar essencial. Porém, Amanda confessa que pensar que as máquinas podem escrever textos de forma quase automática assusta.
“As inteligências artificiais quando utilizadas para redigir os textos podem tirar a melhor parte deles, que é o jeito de escrever de cada profissional. Isso me dá um certo medo. Acho que não podemos chegar a um ponto de depender da IA para tudo, se não vamos desaprender a fazer o que sabemos.”
As opiniões de jornalistas de outra geração se mantiveram muito similares. O entendimento de alguns profissionais que atravessaram mudanças do jornalismo analógico para o digital é de que existe uma característica humana que sobressai em qualquer revolução tecnológica que possa vir a mudar a comunicação: a sensibilidade humana.
É dessa forma que a jornalista de mais de três décadas de profissão, Montserrat Bevilaqua enxerga as novas tecnologias. Para ela, o fator humano no jornalismo automatizado se torna ainda mais imprescindível a partir do ponto que as IAs podem trazer com mais facilidade a desinformação para o público geral.
“Sempre foi e continuará sendo indispensável a capacidade humana de apurar, de usar a sensibilidade e a honestidade intelectual nas narrativas dos fatos, aplicando eticamente conhecimentos.”
Por fim, a repórter com mais de 20 anos de carreira, Loredana Kotinski levantou um ponto que para ela é indispensável quando falamos em inteligência artificial no jornalismo: transparência. Afinal, se os veículos vão de fato utilizar as IAs para gerar conteúdo, o mínimo esperado por ela é que o consumidor da notícia saiba que aquele material foi escrito de maneira artificial.
“O mais importante é ser transparente com o consumidor da notícia quando algum conteúdo foi escrito por uma ferramenta de inteligência artificial. Eu só acho que não deve ser utilizado em reportagens especiais e grandes entrevistas porque nesse aspecto o ser humano não é substituível.”
Inteligência artificial no cotidiano do jornalismo
A realidade é que ferramentas de inteligência artificial já são utilizadas no dia a dia do jornalismo, a forma como nos comunicamos hoje em dia está entrelaçada a algoritmos de inteligência artificial. A recente discussão fomentada pelo avanço e popularização de ferramentas como o Chat GPT faz com que os jornalistas não consigam perceber de quais formas as IAs já se fazem presentes no cotidiano das redações. Os sites de busca que os jornalistas utilizam diariamente para iniciar a apuração de pautas utilizam algoritmos de IA para fazer essas pesquisas.
“Um dos subcampos da inteligência artificial que está muito presente no jornalismo é o processamento de linguagem natural, do inglês, Natural Language Processing (NLP). O NLP vai sendo desenvolvido e cria várias ferramentas que no jornalismo moderno não conseguimos viver sem elas, como por exemplo, os sistemas de busca como Google e Bing”, explicou Silvia Dalben.
E a lista de ferramentas de IA utilizadas dentro da comunicação é extensa, indo desde ferramentas de transcrição automática até aplicativos de automatização de disparo de e-mails. Montserrat Bevilaqua compartilhou a experiência de utilizar aplicativos de inteligência artificial para facilitar o dia a dia dentro da área de assessoria de imprensa.
“É claro que a automatização por si só não resolve tudo, mas há retornos interessantes e relatórios gerados que orientam contatos e feedbacks. Aliás, quem atua no mercado de Assessoria de Imprensa sabe que é cada vez mais difícil atingir um grande número de jornalistas sem esse apoio.”
Inteligência artificial e a evolução das fake news
Isso não quer dizer que não existem pontos negativos no uso de inteligências artificiais na comunicação, muito pelo contrário. A praticidade que a inteligência artificial pode oferecer para o jornalismo traz junto um malefício, a facilidade de disseminar notícias falsas. As ferramentas de IA estão avançando cada vez mais rápido e, em tempos de fake news, tecnologias que podem redigir textos e criar imagens do zero podem sim ser prejudiciais.
É aí que entra o papel do jornalista. A automatização do jornalismo resultou na necessidade de uma apuração ainda maior por parte dos profissionais, afinal na “Era das fake news” as ferramentas certas nas mãos das pessoas erradas pode ser muito prejudicial.
É necessário que os veículos de jornalismo tenham a preocupação em discutir os preceitos éticos da IA para ter consciência de que eles estarão tomando as decisões certas.
A função primordial do jornalismo é informar, logo, é papel dos comunicadores se informarem para poder transmitir as notícias de forma clara e coesa.
A missão de profissionais como a Silvia Dalben é revelar o que de fato são as IAs para que os profissionais do jornalismo possam fazer um bom uso dessas plataformas.
“O jornalismo profissional precisa discutir com a sociedade a importância de uma informação verificada e bem apurada, para que assim seja possível trabalhar com a alfabetização digital do público leitor para que eles tenham a consciência de como diferenciar uma informação confiável de uma informação tendenciosa ou falsa.”
Ou seja, a principal discussão para o momento não é se os jornalistas ainda vão ter emprego com o avanço das novas tecnologias, mas sim o que fazer com a influência dos veículos de informação para comunicar, educar o leitor e acima de tudo cobrar responsabilidade das empresas que fornecem as ferramentas necessárias para quem quer espalhar desinformação.
Ao fim da minha conversa com Silvia, a impressão que fica é que a especialista demonstrou uma mistura de empolgação com o medo do que as novas tecnologias podem causar.
“A minha visão de futuro é que vai piorar a questão da desinformação com esses grandes modelos de linguagem como o Chat GPT. O problema da desinformação vai ser muito mais grave no futuro e nós como jornalistas vamos ter muito trabalho e desafios para avançar na discussão legal para colocar essas grandes empresas de tecnologia dentro da lei”, explicou a pesquisadora Silvia Dalben.
Hoje já existem diversas empresas que utilizam as IAs para efetuar o chamado fact checking, que seria a checagem de informações sejam elas em texto áudio ou vídeo. O que resta para o jornalismo é combater fogo com fogo.
Texto por: André Luca Cardim