O empate de 2 a 2 entre Irã e Nova Zelândia, válido pela primeira rodada da Copa do Mundo, pode ser considerado mais do que um jogo . O Mundial de 2026 tem os Estados Unidos como uma de suas três sedes, mas o país entrou para a história por um motivo que extrapola o futebol: tornou-se o primeiro anfitrião de uma Copa do Mundo envolvido em um conflito armado ativo.

A guerra entre Estados Unidos, Irã e Israel ultrapassou as fronteiras da geopolítica e alcançou os gramados.
Às 21h50, os jogadores da Nova Zelândia já aguardavam a entrada em campo, enquanto do outro lado havia apenas um vazio inquietante. Por três minutos, surgiram perguntas inevitáveis: onde estavam os iranianos? Seria um protesto? Eles realmente entrariam em campo?
A resposta veio pouco depois, quando os primeiros jogadores do Irã apareceram na imagem. O alívio foi imediato, mas o breve atraso serviu como um lembrete. Naquele jogo, até a simples entrada de uma seleção em campo carregava um significado maior do que o futebol.
“Presença inapropriada”
Às 22h o árbitro anunciou o início da partida. O Irã levava muito além de um time em busca da vitória, carregava também as marcas de um período turbulento, no qual o futebol se tornou reflexo das tensões do mundo fora dos estádios.
O próprio presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que a participação dos iranianos na Copa do Mundo seria “inapropriada para a segurança deles”. Dessa forma, a presença da nação no mundial se tornou uma incógnita, e os vistos da delegação demoraram, sendo emitidos apenas nas vésperas do torneio.
O placar não demorou a falar. Aos sete minutos, Elijah Just invadiu a área como quem não pede licença, finalizou com precisão cirúrgica e deixou o goleiro iraniano sem resposta. A Nova Zelândia estava na frente, mas cabia perguntar: era mesmo uma partida entre iguais?
Do lado iraniano, as restrições começaram muito antes do apito inicial. Mesmo disputando todos os seus jogos em solo norte-americano, o Irã só foi autorizado a pisar nos Estados Unidos 36 horas antes de cada compromisso, e obrigado a partir logo depois do fim das partidas. Entrar, jogar e sair. Como se a presença iraniana fosse tolerada apenas pelo tempo exato de uma partida de futebol.
Os jogadores iranianos não haviam entrado naquele estádio para cumprir tabela. Taremi, o camisa nove, não era um soldado, apesar dos Estados Unidos enxergarem os jogadores dessa forma.
E mesmo sem empunhar nenhuma arma, ele acertou uma bomba na trave da Nova Zelândia e anunciou o que estava por vir. Aos 32 minutos, Rezaeian bateu por cima do goleiro e empatou a partida. O Irã havia respondido dentro de campo.
E então veio o presente. No dia seguinte ao aniversário de Donald Trump, celebrado em 14 de junho, o mundo inteiro assistiu a um jogador iraniano correr pelo gramado norte-americano, abraçar o escudo do país no peito e gritar para as câmeras do evento esportivo mais acompanhado do planeta.
Nenhum míssil, nenhum comunicado diplomático. Apenas um gol. A virada veio em seguida, contudo, o zagueiro Nemati se precipitou e estava em posição irregular, assim, as seleções foram aos vestiários com 1×1 no placar.
O segundo tempo havia começado, mas as restrições impostas ao Irã não se limitavam às quatro linhas. Diferentemente das demais seleções, que receberam uma cota de 8% dos ingressos para seus torcedores, o país persa foi privado desse direito.
Em meio a esse cenário, aos nove minutos, Elijah Just apareceu mais uma vez para marcar e recolocar a Nova Zelândia em vantagem no placar. Ao balançar as redes, o camisa 11 se tornou o maior artilheiro do país da Oceania em Copas do Mundo com dois gols.
O Irã não demorou para responder, e diante de mais de 60 mil torcedores, aos 18 minutos, Mohebi subiu para cabecear e empatou para os iranianos. E mais uma vez todos os olhares do mundo olhavam na mesma direção, um iraniano com sorriso no rosto comemorando um gol em solo americano.
A partida seguia. Enquanto, a milhares de quilômetros dali, o Irã segue negociando um cessar-fogo que parecia finalmente se aproximar, dentro das quatro linhas os jogadores escolheram fazer a única coisa capaz de silenciar, ainda que por noventa minutos, o barulho das bombas e das incertezas: jogar futebol.
E, ao lado da Nova Zelândia que perseguia uma vitória inédita em Copas do Mundo, transformaram o gramado em um raro refúgio, um lugar onde a guerra, a política e o medo deram lugar apenas à bola rolando.
O apito final ecoou pelo estádio e o placar permaneceu intacto: 2 a 2. Mas o resultado era apenas um detalhe. Naquela noite, Irã e Nova Zelândia contaram uma história muito maior do que a de uma partida de futebol.
Por Lucas Alarcão
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira


