Nascida e criada no Morro da Conceição, bairro periférico do Recife (PE), Maria Conceição Gomes dos Prazeres, de 65 anos, é a mais nova dos sete filhos de Dona Conceição, benzedeira e raizeira da comunidade. A paixão da mãe ia além do saber: tinha desejo de ensinar.
“Eu cresci escutando minha mãe falar que educação é a base de tudo e de todos. Foram anos ouvindo sobre o valor e o poder do ensino. Isso nunca saiu da minha cabeça”, relembra a educadora popular.

“Minha mãe amava crianças. A casa tinha um quintal muito grande e a gente tinha a liberdade de levar os amigos que quiséssemos, ela amava a casa cheia”, conta Maria.
O afeto pelos pequenos se estendeu por toda a família. Todos os filhos traçaram suas trajetórias voltadas para áreas de educação e trabalhos sociais. No entanto, em 1980, após a morte da matriarca, a família começou a questionar qual seria o melhor rumo a seguir.
O que era um momento de escuridão e incerteza ganhou luz através de um sonho.
“Estávamos muito indecisos sobre o que fazer com a casa de mainha, até que Lúcia (quinta filha) contou sobre um sonho que teve, no qual a casa estava cheia, lotada de crianças. Foi ali que percebemos que já sabíamos o que tínhamos que fazer com aquele espaço”, relata.
Crianças
A partir dali, nasceu a Escola Maria da Conceição, um espaço dedicado a acolher as crianças da comunidade do morro pernambucano.
“A educação era uma coisa muito precária naquela época, não tinha pré-escola pública e as pessoas daqui não tinham condições de pagar a particular, então muitas mulheres deixavam suas crianças em casa sozinhas, porque precisavam trabalhar”, explica.
No início, os três caçulas assumiram o projeto, desde ministrar as aulas até preparar e servir as merendas. No primeiro ano, 20 crianças frequentavam o espaço, já no segundo, 50 alunos, e o aumento não parou ao longo do tempo. Com o crescimento da escola, outras pessoas entraram para fortalecer a equipe.
Escola e transformação
Novas atividades passaram a ser ofertadas e a escola virou Centro Maria da Conceição e, anos depois, Centro de Formação do Educador Popular Maria da Conceição.
“A gente só trabalhava com crianças até 6 anos, outras crianças e até irmãos dos meninos, começaram a querer participar também. E aí foi quando começou, além de continuar as atividades culturais que a gente já fazia com as crianças, a gente começou a criar cursos profissionalizantes para adolescentes e para pré-adolescentes”, conta Maria.
O centro de ensino não tinha ajuda do Estado. Apenas 18 anos depois, a fundação passou a receber materiais didáticos cedidos pelo governo a escolas comunitárias, porém, as educadoras perceberam que os materiais não eram adequados à realidade da comunidade em que estavam.
“Muitas vezes, o material que chegava era muito fora da proposta que a gente tinha, da visão de mundo que a gente tinha, então a gente fazia algumas adaptações”, explica.
Com esses problemas em vista, a equipe sempre criou os próprios materiais didáticos com base em pesquisas e em livros de outras escolas públicas.
“A gente tinha que empoderar aquelas crianças que estavam ali, porque o dia a dia já é difícil e a gente ainda passar por uma uma educação discriminadora, que lhe bota abaixo do outro, que tipo de educação é essa? E a cultura entra com apoio a tudo isso”, relata.
Método de educação
“O morro já tinha a escola de samba, tinha Maracatu rural, tinha grupo de coco. Então a gente usava essas bases para ser o nosso método de educação. Com o passar do tempo, a gente foi estruturando cada vez mais a nossa didática, a gente tava sempre fazendo referência aos grupos, aos mestres.”
Depois de 30 anos de atividade, o Centro teve que fechar as portas por faltas de condições financeiras, já que não tinham nenhuma ajuda. Aos poucos, as idealizadoras pararam de aceitar novas crianças e as turmas foram se finalizando.
“Hoje eu sei falar sobre direitos humanos porque eu estudei os direitos que me faltaram. Meu aprendizado foi crescer vendo o vizinho tendo e a minha comunidade não”, relata Lucas dos Prazeres, filho de Maria.
Atualmente, o projeto Aprendizagem pela Prática Cultural atua auxiliando escolas públicas do Brasil a aplicarem métodos de ensino com base na cultura e ministrando palestras para educadores.
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Por Bruna Teixeira
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira


